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O PORTAL ENTREVISTA: MAÇONARIA NO FEMININO


Indo de encontro às questões frequentemente levantadas aqui no Portal, particularmente no Fórum, e numa iniciativa inédita, apresenta-se agora uma entrevista, em jeito de conversa, realizada a uma Iniciada e M.'.M.'. do Direito Humano. Por razões óbvias, a identidade da mesma não será revelada, sendo que se assegura a idoneidade da «entrevistada».


Antes de mais, o meu obrigado pela sua disponibilidade em responder a estas questões, motivo de curiosidade de tantos (e tantas) visitantes do Portal.

Tentarei responder não como especialista em maçonaria, que não sou, mas como pessoa que escolheu, como percurso iniciático, este que a Maçonaria nos oferece; escolheu ou foi escolhida, aí reside o mistério.

Embora pouco, e discretamente, já se tem ouvido falar de Maçonaria Feminina; quais são as suas origens?

Em vez de falar sobre a Maçonaria Feminina preferiria referir que a participação activa das mulheres na maçonaria é de sempre, tanto quanto se sabe; a esse propósito, cito, como exemplo, e apenas para não sobrecarregar este texto de citações,  C. W. Leadbrater em "A Vida Oculta na Maçonaria". Diz ele, a propósito das Lojas Egípcias: "[... o V.M. da Loja era comumente um sacerdote ou sacerdotisa  clarividente...]

A Maçonaria Feminina, em Portugal, é praticamente desconhecida do grande público, e até mesmo de alguns maçons; qual é a sua presença efectiva no nosso país?

Em Portugal a participação das mulheres na Maçonaria processa-se actualmente, que eu tenha conhecimento, a dois níveis: no âmbito de uma Obediência exclusivamente feminina, a Grande Loja Feminina, e no âmbito de de uma Obediência mista, Le Droit Humain (O Direito Humano).

A práctica ritualística difere ou não da Maçonaria «tradicional», masculina?

Relativamente à prática ritualística, ele não difere no essencial das Lojas masculinas, dado que é esse aspecto iniciático que une todos os maçons.

O Portal verifica, com alguma frequência, a colocação de questões relativas ao papel da mulher na Maçonaria; qual é a sua opinião sobre isto?

O papel das mulheres na Maçonaria é, tal como o dos homens, o de fazer o trabalho sobre a pedra bruta que esta Ordem Iniciática propicia. Para além disso têm uma função específica e insubstituível em Loja que é a de possibilitarem a concretização do arquétipo do feminino que está simbolizada ne Templo sob a forma da Lua, tal como o Sol corresponde às energias transportadas pelo homem. São duas energias indispensáveis para que o processo espiritual alquímico possa realizar-se. Caso contrário, há desequilíbrio.

Como Mulher, e como Iniciada, como vê a distinção de sexos na Maçonaria?

Historicamente foi o preconceito que retirou às mulheres o direito que sempre lhes fora reconhecido, o que levou à criação de Obediências estritamente femininas. No entanto, como disse Maria Deraimes, fundadora, juntamente com Georges Martin, de Le Droit Humain, em 1837, a presença da mulher nas Lojas permite que se cumpra, no seio das mesmas, uma obra de elevação geral das consciências, que a presença de apenas um sexo não permite, porque é incompleto.

Consequentemente, como vê o não reconhecimento pelas potências, ou Obediências, regulares?

O não reconhecimento por algumas Obediências masculinas  é, pelo menos é essa a minha convicção, apenas provisório. A mudança é um daqueles imperativos face ao qual nem sequer é necessário fazer muita pressão, porque a vida, inteligente como ninguém, se encarregará de resolver, já que na chamada civilização moderna é cada vez mais absurda e obsoleta a separação dos sexos, quando, mais do que nunca ,o Mundo necessita que trabalhemos lado a lado em prol da Humanidade num trabalho que passa também muito pelo trabalho simbólico. Este reconhecimento é ainda uma limitação (as limitações limitam em primeiro lugar quem estabelece os limites) mas com tranquilidade acabará por se dissolver. É nítido e crescente o mal- estar que se vem sentindo em muitos dos nossos irmãos organizados em Obediências estritamente masculinas.

De qualquer modo, há que respeitar as opções individuais. Cada um sabe do que necessita. Não posso no entanto deixar de considerar abusivo o poder auto-assumido de reconhecimento ou nâo-reconhecimento de algumas obediências relativamente à regularidade das outras, conceito, aliás, muito discutível. Como diz Foster Bailey em "O Espírito da Maçonaria", os Landmarks são "um assunto sobre o qual existe uma grande diversidade de opiniões". E acrescenta: "Os antigos Landmarks maçónicos nunca foram oficialmente definidos. O que eles são é uma questão de palpite, muitas opiniões a fornecerem listas muito diferentes de Mackey em diante". Se a frase 'Antigos Landmarks' era, como acredito, retirada da Bíblia, pode ser tomado apenas como uma declaração abstracta a um conjunto de regras específico. Provavelmente, significa (na Bíblia e noutros sítios), "não alterar os princípios básicos da iniciação (por exemplo, os três graus) que são comuns a todos os sistemas dos Mistérios, embora expressos diferentemente em cada um."

Por último, convido-a a deixar uma mensagem aos leitores do Portal.

Termino com uma citação de Foster Bailey absolutamente optimista:

"Os maçons devem reconhecer que a Maçonaria deve crescer. A mudança é inevitável"

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