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"Dá
impressão que há [em Portugal] qualquer coisa de reles, de baixo, avacalhante,
ajavardante, que vai impregnando camada social após camada social"
Mário de Carvalho, Escritor, em entrevista ao Expresso a 23/11/2003
Eu iria mais longe: há uma grande falta de ambição - e mérito. Há um espírito
qualquer que teima em tolher-nos os passos. Este é um país que virou o milénio a
querer dar a vitória aos que gostam de ser pequeninos. E também aos que desejam
ser grandes mas que não tendo capacidade para tal, se engordam pela força de
empequenecer os outros, seja a que custo for.
Andar de joelhos e bater com a malga das esmolas na cabeça dos generosos
tornou-se passatempo nacional dos incompetentes, medrosos e acomodados, que
disfarçam os seus pequenos nadas sob uma capa de arrogância. Gente que vive e se
multiplica com a rapidez dos cogumelos e a perniciosidade dos cancros. A
caridade nada mais é, na maioria dos casos, que a expectativa de recolha
posterior de benefícios - quanto maiores e mais depressa, melhor.
Nem os suicidas estão inteiramente conscientes do seu papel e responsabilidades.
Até mesmo eles continuam, distraidamente, a desistir de viver sem levar atrás de
si, nos tiros, nos envenenamentos e nas quedas livres, mais uma ou duas ou três
pessoas que apenas poluem, mefistofelicamente, o ar dos nossos dias. Se o
fizessem, o mundo poderia ser, eventualmente, um lugar bem melhor.
Precisamos todos, pois, de estar mais atentos: atentos às necessidades dos que
nos rodeiam e nos são preciosos, atentos às nossas próprias necessidades,
atentos à denúncia do que está mal, atentos às propostas de melhoria, atentos
aos abusos dos que nos travam e atentos aos movimentos opressores das patas que
ilegitimamente se atrevem a oprimir-nos, mordendo-as e mastigando-as com gulosos
e orgulhosos dentes, para que nunca mais consigam caminhar.
Ensinam-me os anos - e as pessoas que por mim passaram - que apenas os crentes
têm a obrigação de anuir, perdoar e esquecer para além dos limites do razoável,
limites esses que a civilidade e a moralidade laicas já de si estendem ao máximo
possível. Ora, este Portugal tornou-se um país onde tais limites são, todos os
dias, ultrapassados.
Sabe-se que a raiva e a fé são os melhores motores para remar contra a
adversidade. Talvez tenha sido o recurso exagerado e cego à segunda que nos fez
chegar onde chegámos. Muitas vezes, distraidamente ou por opção, tornamo-nos
vacas e carneiros. Obedientes criaturas cuja uma face já não se distingue da
outra face, tantas são as estaladas consentidas. Corpos e almas vergadas ao peso
de autoridades sem mérito, que mudam as marés ao sabor das conveniências e das
aparências. Carcaças para abutres que nos roubam um pedaço mais de carne.
Vítimas de cientistas loucos que nos tratam as feridas com ácido, afirmando que
é esse o melhor curativo.
Tão ou mais perigosa que a anarquia ou o desrespeito pelos valores morais e
democráticos, é esta coisa muito portuguesinha do "deixar andar", triste sina de
um povo que descobriu os tais "novos mundos para o mundo". Contra a carneirice,
não terá chegado a altura de, sempre que for preciso, soltarmos o nosso lobo e
construir, em alcateia, uma nova realidade, cuidando verdadeiramente de nós e
dos nossos?
É por estas – e por tantas outras - que nasce esta Língua de Fora. Procurará,
com a subtileza de um aparente desprezo, queimar com ácido aquilo que está (na
modesta perspectiva do autor, obviamente) errado.
A falta de tempo para apontar o dedo a tudo aquilo de mau e de bom que há neste
país não pode continuar a servir de desculpa. Todos temos responsabilidades.
Parte das minhas (re)começam por aqui. Espero que gostem. E se não gostarem,
haverá sempre uma Língua de Fora à vossa espera...
*O projecto Língua de Fora
pode ser encontrado em
http://linguadefora.blogspot.com/ e é da autoria de Ricardo Belo de Morais,
profissional de Comunicação. O seu objectivo, nas palavras do próprio, é o de
providenciar "duches frios, esfregas de pedra-pomes e sabão de glicerina,
para bem lavar e esfoliar o espírito nacional".
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