Um dos lugares mais simbólicos da Maçonaria em
Portugal
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Memória histórica
A documentação histórica relativa à Quinta da Regaleira é escassa para os tempos
anteriores à sua compra por Carvalho Monteiro. Sabe-se todavia que, em 1697,
José Leite adquiriu uma vasta propriedade no termo da vila de Sintra que
corresponderia, aproximadamente, ao terreno que hoje integra a dita Quinta - a
esta data parecem remontar, pois, as origens da quinta em questão.
Francisco Alberto Guimarães de Castro comprou a propriedade - conhecida como
Quinta da Torre ou do Castro - em 1715, em hasta pública e, após as licenças
necessárias, canalizou a água da serra a fim de alimentar uma fonte ai
existente.
Em 1800, a quinta é cedida a João António Lopes Fernandes estando logo, em 1830,
na posse de Manual Bernardo, data em que tomou a designação que actualmente
possui. Em 1840, a Quinta da Regaleira foi adquirida pela filha de uma grande
negociante do Porto, Allen, que mais tarde foi agraciada com o título de
Baronesa da Regaleira. Data provavelmente deste período a construção de uma casa
de campo que é visível em algumas representações iconográficas de finais do
século XIX.
A história cia Regaleira actual principia, todavia, em 1892, alio em que os
barões da Regaleira vendem a propriedade ao Dr. António Augusto Carvalho
Monteiro por 25 contos de réis (Anacleto, 1994: 241).
O célebre "Monteiro dos Milhões" nasceu no Rio de Janeiro em 1848, filho de pais
portugueses, que cedo o trouxeram para Portugal. Licenciado em Leis pela
Universidade de Coimbra, Monteiro foi um distinto coleccionador e bibliófilo,
detentor de uma das mais raras camonianas portuguesas, homem de cultura que
decerto influenciou, se não determinou mesmo, parte bastante razoável do
misterioso programa iconográfico do palácio que construiu para si, nas faldas da
serra de Sintra
In "Sintra Património da Humanidade"
Maçonaria e a Quinta da Regaleira
Chama-se esotérico a um conhecimento oculto, seja doutrina ou técnica de
expressão simbólica, reservado aos iniciados:. O esoterismo é, pois, o conjunto
de práticas e de ensinamentos esotéricos, no contexto de uma tradição
multifacetada que abrange diferentes épocas, lugares e culturas. A Alquimia, a
Maçonaria e os Templários, por exemplo, incorporam teorias, rituais e
procedimentos herméticos que se integram no âmbito do esoterismo:.
Na tipologia do misticismo judaico, firmado na procura de Deus
e na experiência da divindade, o esoterismo baseia-se, fundamentalmente, na lei
das correspondências, que visa encontrar, através do recurso à analogia,
relações simbólicas entre o divino e o terreno, entre o transcendente e o
imanente, entre o visível e o invisível, entre o homem e o universo:. A passagem
de uma a outra dimensão opera-se em cerimónias de iniciação, por meio de
encenações e rituais de carácter mágico, nos quais o neófito recebe o segredo da
transmutação, aceita a filiação no grupo de companheiros e acede a um nível
espiritual superior:.
A Franco-Maçonaria antiga, dita
operativa, deriva das confrarias, das corporações, dos agrupamentos
profissionais de pedreiros livres e dos construtores das catedrais medievais:. À
defesa dos interesses profissionais, juntavam os franco-mações preocupações de
carácter filantrópico, moral e religioso:. Os grupos maçónicos, organizados em
sociedades secretas e reunindo em lojas, foram perdendo o carácter
exclusivamente operativo e começaram a aceitar membros estranhos à profissão mas
que perfilhavam os mesmos ideais iniciáticos:.
O declínio
das confrarias origina, por filiação directa, o aparecimento em 1717, em
Inglaterra, da Maçonaria moderna, dita especulativa, uma vez que já não existe
ligação à prática do oficio de construção, tendo utensílios como o esquadro e o
compasso adquirido um valor eminentemente simbólico:.
A Maçonaria provocou, praticamente desde o início, a oposição
da Igreja Católica, embora muitos dos ensinamentos maçónicos, de inspiração
cristã, preconizem a crença nas virtudes da caridade, na imortalidade da alma e
na existência de um princípio espiritual superior denominado Grande Arquitecto
do Universo:. Grande parte da simbologia maçónica, sobretudo a dos altos graus,
inspira-se em correntes esotéricas tais como a alquimia, o templarismo e o
rosacrucianismo, inscritas em diversos locais da Regaleira:.
Apesar da diversidade de percursos que a Quinta da Regaleira oferece, todos os
caminhos podem conduzir a um aglomerado de pedras erguidas, com a aparência de
um menir, num dos locais mais belos da mata:. E eis que uma curiosa porta de
pedra roda impulsionada por um mecanismo oculto e nos faculta a entrada para
outro mundo:. É o monumental poço iniciático, espécie de torre invertida que
mergulha nas profundezas da terra:. A terra é o útero materno de onde provem a
vida, mas também a sepultura para onde voltará:. Muitos ritos de iniciação
aludem a aspectos do nascimento e morte ligados à terra:.
De quinze em quinze degraus se descem os nove patamares desta
imensa galeria em espiral, sustentada por inúmeras colunas de apurado trabalho,
que vão marcando o ritmo e o aprumo das escadarias:. Os nove patamares
circulares do poço, por onde se desce ao abismo da terra ou se sobe em direcção
ao céu, consoante a natureza do percurso iniciático escolhido, lembram os nove
círculos do Inferno, as nove secções do Purgatório e os nove céus do Paraíso,
que o génio de Dante consagrou na Divina Comédia:.
Os
capitéis dos colunelos enrolam longas folhas de acanto:. E lá no fundo, a carga
dramática acentua-se:. Gravada em embutidos de mármore, sobressai uma cruz
templária, aliada a uma estrela de oito pontas, afinal o emblema heráldico de
Carvalho Monteiro:. As galerias conduzem-nos, em autênticos labirintos, pelo
mundo subterrâneo, aqui e além porventura povoado de morcegos:. De construção
artificial, na sua maioria, estas galerias aproveitam, no entanto, as
características geológicas da mancha granítica da Serra de Sintra:. No interior,
a abóbada divide-se entre os maciços de rocha mãe, de um granito granular médio,
geralmente de cor rosada ou parda, e zonas preenchidas com pedra importada da
orla marítima da região de Peniche:. É esta pedra, desgastada pelo mar e pelo
tempo, que vai contribuir, sobremaneira, para a sugestão de um mundo submerso:.
Ao chegarmos ao exterior, esperam-nos a luz e os cenários
minuciosamente construídos:. São animais fantásticos, artifícios de água em
cascata, passagens de pedra que parecem flutuar à superfície dos lagos, ou
nuvens silenciosas de vapor que dissimulam as entradas para este universo
singular:.
A simbólica alquímica parece estar presente em
vários locais da Regaleira:. Desde logo, na Capela, na pintura da Coroação de
Maria por Cristo, na qual a Virgem ostenta, para além das três cores da Obra
alquímica - o azul ou negro, o branco, o vermelho ou rubro - uma faixa dourada
que poderá simbolizar o Ouro Alquímico:.
Também num alto relevo existente nas traseiras da Capela, encontra-se
representado um castelo com duas torres, separado por uma zona de labaredas, e
uma goela infernal:. Trata-se de uma figuração da tri-unidade do mundo e do
homem: o mundo superior ou espiritual, o mundo intermédio da alma e o mundo
inferior ("ad infero" ou do inferno) material:. A torre rubra é o Atanor, ou
forno alquímico:.
Nas cocheiras, sinais de Alquimia voltam a
estar presentes, em duas esculturas que formam símbolos clássicos da Arte de
Hermes: a serpente que morde a cauda, simbolizando a Unidade, origem e fim da
Obra, e a luta entre as duas naturezas, aqui representada por dois dragões, cada
um mordendo a cauda do outro. Igualmente susceptível de uma leitura alquímica é
a gruta ogival, onde Leda, segurando uma pomba na mão, aparece numa escultura à
beira de um pequeno lago, enquanto Zeus, disfarçado de cisne, a fecunda
bicando-a na perna:. Trata-se de uma alegoria pagã ao mito, ou mistério, da
Imaculada Conceição, ou concepção, que decorre num lugar escuro e húmido:.
A alquimia tem por objectivo a transmutação real ou simbólica dos metais em ouro
e por fim último a salvação da alma:. As operações alquímicas são realizadas num
Atanor, ou seja, num forno alquímico de combustão lenta, com um cadinho e um
balão nos quais se pretende espiritualizar a matéria e materializar o espírito:.
Este propósito essencial da Alquimia operativa, executada em laboratório, é a
obtenção da Pedra Filosofal, simbiose entre matéria e espírito, da qual poderia
resultar, segundo os alquimistas, além da transmutação dos metais em ouro, a
realização de um dos desejos ancestrais da humanidade: o elixir da longa vida,
capaz de proporcionar saúde e eterna juventude:. Neste sentido, há quem
considere a procura alquímica como uma metáfora da condição humana:. A Alquimia
assumiu, depois do século XVIII, um carácter manifestamente religioso,
dedicando-se sobretudo ao estudo das relações espirituais e energéticas entre o
homem (microcosmo) e o universo (macrocosmo):. A partir de um trabalho erudito
de equivalências e analogias, aceita-se que o universo nos engloba e nos
interpela num só movimento existencial - ele é ao mesmo tempo transcendência
(Outro) e nós próprios:.
Parece evidente que a concepção religiosa do
mundo que preside à Regaleira assenta no Cristianismo, mas num Cristianismo
escatológico, que tem a ver com o fim dos tempos:. Quer recorramos à lição da
escatologia cósmica, que prenuncia o fim do universo e da humanidade, quer nos
atenhamos à escatologia individual, que assenta na crença da sobrevivência da
alma depois da morte, é a mesma ideia obsessiva que encontramos:. É também um
Cristianismo gnóstico, apoiado em discursos míticos e em conhecimentos sagrados
que prometem a salvação dos fiéis e o retorno dos espíritos:. É, enfim, um
Cristianismo imbuído de ideais neo-templários, associados ao Culto do Espírito
Santo, que encontramos na tradição mítica portuguesa:.
Os
templários foram monges-soldados, cuja ordem militar, fundada no período das
Cruzadas em 1119, visava proteger os lugares santos da Palestina contra o perigo
dos infiéis:. Os votos de pobreza e castidade não impediram os Cavaleiros da
Milícia do Templo de enriquecer e de desempenhar um importante papel económico e
político, tanto no Oriente como na Europa, a ponto de criarem poderosos
inimigos, como o rei Filipe IV de França e o Papa Clemente V, que levaram à
perseguição e à extinção da ordem em 1314, sob acusações, porventura falsas, de
blasfémia e imoralidade:. Em 1317, D. Dinis de Portugal afectou os bens dos
templários à Ordem de Cristo, que muitos aceitaram como sua sucessora:.
Desaparecidos os templários não desapareceu o templarismo, cujo espírito,
resumido na defesa dos lugares sagrados e na luta contra o mal, renasceu em
várias correntes e organizações iniciáticas como sendo a afirmação simbólica da
sobrevivência da Ordem do Templo:. A cruz templária no fundo do poço iniciático,
a cruz da Ordem de Cristo no pavimento da Capela, bem como todas as outras
cruzes dispostas na Capela, testemunham a influência do templarismo no ideário
sincrético de Carvalho Monteiro:.
Há ainda, na Regaleira,
referências rosacrucianas, em alusão à corrente esotérica iniciada no séc. XVII,
de tendência cristã, utilizando os símbolos conjuntos da rosa e da cruz:. O
movimento Rosa-Cruz propunha reformas sociais e religiosas, exaltava a
humildade, a justiça, a verdade e a castidade, apelando à cura de todas as
doenças do corpo e da alma:. Tornou-se grau maçónico de várias Ordens e, ainda
hoje, existem escolas esotéricas e sociedades secretas que pretendem assumir-se
como reaparições do mito Rosa-Cruz:.
Fotos: Luis Figueiredo
© 2004
Textos: website da Quinta da Regaleira
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Pode encontrar mais informações (sobre horários, condições, etc) no web
site da
Câmara
Municipal de Sintra.