Todos os artigos de Luis de Figueiredo

PEDRA BRUTA

SIMBOLISMO
Ao entrar para a Ordem, o A.’. M.’. tem contato com a imagem que resume, senão todos, pelo menos boa parte dos símbolos relacionados ao seu recente tirocínio. Essa imagem indica em si própria, o trabalho que principia o seu extenso aprendizado. Ligeiramente descrevendo, a efígie se trata de um jovem, possivelmente um escultor ou pedreiro, com o olhar voltado para um bloco disforme de pedra. Em suas mãos vemos instrumentos necessários ao seu serviço, qual seja um Malho e um Cinzel. Assim, o pedreiro, o malho, o cinzel e a Pedra Bruta, são os quatro elementos básicos da imagem que nos são apresentados.

Outrora, o material utilizado nas construções era a pedra trabalhada, de sorte, a tornar as edificações mais sólidas e admiráveis. O trabalho na Pedra Bruta visava moldá-las para que elas se encaixassem umas nas outras, restando, todas conforme o projeto do arquiteto. Nesse campo operacional, para o trabalho de lapidação, os pedreiros usavam três elementos básicos: a Pedra em si, o Malho e o Cinzel.

Com o avanço industrial, por volta da segunda década do século XVIII, a máquina passou a substituir a mão de obra humana, e nesse tempo, a Mac.’. passaria a ser considerada de ordem especulativa, assim, boa parte dos componentes então utilizados na arte da construção passaram a compor símbolos, que não obstante estarem associados às edificações, também foram incluídos a aspectos intrínsecos do ser humano, sejam de ordem moral, sejam de ordem espiritual.
Dessa composição, o que anteriormente servia apenas para a preparação e produção de peças perfeitas, seriam tidos como SÍMBOLOS, a alavancar a edificação do verdadeiro homem. Esse necessitava ser trabalhado, ou lapidado como acontecia com os blocos de Pedra Bruta, quando então ter-se-ia a sua perfeição.

A RELAÇÃO COM O HOMEM
Comparando a pedra com o homem, temos que ela, em seu estado bruto, acha-se disforme e longe da perfeição, precisando ser trabalhada. Do mesmo modo, este trabalho de lapidagem pode ocorrer com o ser humano. Qualquer bloco de pedra pode esconder uma bela escultura, contudo, aquele que desejar ver, deverá extrair os excessos; as partes que a encobrem.

Nesse raciocínio, na comparação que ousamos fazer, a Pedra Bruta representa o mal, ou “a inteligência, o sentimento do homem no seu estado primitivo, ásperos e despolidos” e, após devidamente trabalhada pelo obreiro, com uma “educação liberal e virtuosa” tornar-se-a culto “capaz de fazer parte de uma sociedade civilizada” convertendo-se no bem.

Assim, concomitantemente teríamos a ação de duas vontades: a primeira seguirá os desígnios do Criador, que é soberana. A segunda vontade partirá da própria pedra, no caso, o indivíduo a ser trabalhado, ou seja, o A.’.M.’.. A intenção em ambas as possibilidades, é obter o produto final no desenho de uma pedra Justa e Perfeita. JUSTA, pois estará adequada à sua obra; e, PERFEITA, pois estará em conformidade com a perfeição de seu plano maior.

No caso o Ap.’. poderá ser identificado, ora com a pedra, ora com o pedreiro, pois, este irá trabalhar a si próprio, utilizando o malho que estaria associado à força e ao intelecto — elemento ativo, símbolo da ação pura da vontade do Ap.’., agindo com firmeza e assiduidade sobre a Pedra —, e também, o cinzel — elemento passivo capaz de orientar e observar, sabendo discernir o que deve ou não ser retirado do bloco —. Associado, portanto, a arte de esculpir. Um é tradição que prepara e o outro a revelação que cria.

Se a imagem citada assimila o símbolo do grau de A.’.M.’. trabalhando a Pedra Bruta, melhor analisando, podemos entender que o Ap.’. está representado na própria pedra que deverá ser desbastada através da ação do Grande Artesão que utilizará os elementos necessários à realização da Obra final.

Nesse diapasão, podemos entender o Bem como sendo a capacidade do Aprendiz de pôr a própria vontade em harmonia com a vontade Superior, enquanto o Mal representaria a escolha contrária a esta.

CONCLUSÃO
Resta consolidada, assim, que a Pedra Bruta deve ser vista como o próprio homem, no caso o A.’. que comparado à pedra ainda se encontra em estado bruto, necessitando ser lapidado, trabalhado, o que só acontece com o aprendizado constante, com a prática incessante das boas ações, com o respeito às normas, com a presença constante em Loja, com a aplicação dos princípios fundamentais da M.’., como a fraternidade e a humildade.

A Pedra Bruta, o bloco, é uma massa disforme, maciça, que no seu interior abriga uma escultura magnífica, mas para isso precisa ser desbastada. Apenas descobrir que em seu interior há uma pedra oculta nada adiantará se essa pedra não for tocada, não ter a sua aspereza conhecida, se nada se fizer para seu polimento que, sem dúvida, é pesado. O aparelhamento das arestas, dos excessos, é dolente, mas necessário para fazer crescer aquele que encontrou dentro de si.

Isto é o que o diferencia o homem dos demais animais. A pedra oculta é a inteligência, a capacidade de raciocinar, de discernir entre o certo e o errado, de dominar o desejo pessoal, de vencer paixões e submeter vontades!

Impõe-se ainda, que não esqueçamos que a tolerância e a ética são indispensáveis para o convívio em grupo. Tudo isso, acompanhado da leitura de bons livros nos fará crescer intelectualmente, de sorte a dominar nossas paixões e fazer progresso na Maçonaria. Assim como o escultor ou pedreiro trabalham a Pedra Bruta, a grande e sublime empreitada do Mac.’. é educar, direcionar, aprimorar a inteligência desta forma atingirá a sabedoria.

Este trabalho, que se denomina “burilar a pedra bruta”, deve ser realizado por nossas próprias mãos, e assim, acentuará nossa competência na Oficina da Arte Real, na qual fomos colocados pela sabedoria divina. É um trabalho árduo e longo, exige o auxílio de todos e, por conseguinte, levará a conquista de nós mesmos. Sem este aprendizado o nosso espírito ficará ofuscado e a nossa cultura falecerá.

Por derradeiro, pode-se afirmar sem medo, que o trabalho do M.’.; sobre a Pedra Bruta deve ser diário e incessante, devendo ele, com obstinação, visitar o interior da terra, retificando-se, na busca da pedra oculta, e seguir trabalhando-a, perseguindo a busca da evolução contínua e infinita!

“Visita o interior da terra e, retificando-te, encontrarás a pedra oculta”.

Em suma, a Pedra Bruta é aquela que o Ap.’. deve trabalhar e polir até ser considerado Obreiro competente e capaz, quando do julgamento do M.’. determinando estar a Pedra Bruta polida. Portanto, ela representa o Obreiro, em seu estado antecedente ao de seu ingresso na Augusta Instituição, cuja inteligência, costumes e atos não estavam focados devido ao convívio com o mundo profano.

É através do trabalho como Obr.’. e do seu empenho e entrega aos nossos regulamentos e regras morais, de Virtude e eterna vigilância à vontade do G.’.A.’.D.’.U.’. que o Ap.’. irá atingir a casta de pedra polida, para então poder se tornar um membro fértil e um ampliador da doutrina maçônica.

Encerramos, ciente de que a Pedra Bruta, é símbolo das imperfeições do espírito que o maçom deve procurar corrigir; e também, da liberdade total do Aprendiz e dos Maçons de uma forma geral.

CARLOS ALBERTO PEREIRA
A.’.M.’., ARLS Leão de Judah, São vicente/SP – Brasil


OS PRECONCEITOS E DOGMAS MAÇÔNICOS

Ao completar, no dia 7 de agosto de 2006, 10 anos de maçonaria e, portanto, na busca de me tornar um livre pensador, eu gostaria de apresentar uma breve reflexão. Na minha iniciação, ao abrir os olhos para a luz, eu me vi diante de um mundo totalmente novo: o maçônico. Com base na curiosidade pela ciência e pela verdade, aquele momento me encheu a consciência de perguntas. E para respondê-las, eu comecei a ler, pesquisar e meditar sobre os meus próprios questionamentos.

Vários autores maçônicos e não-maçônicos, pouco a pouco, me esclareceram sobre a real maçonaria. Então, a luz, embora ainda tênue, foi vista de forma um pouco mais clara por este aprendiz. No entanto, a minha maior surpresa foi encontrar tanta ortodoxia e tanta vaidade numa instituição dita libertária, adogmática e fraterna.

Segundo o filósofo e místico indiano Krishnamurti: “Sentindo medo, inventamos deuses, inventamos teorias, intelectualmente, teologicamente e religiosamente. Temos idéias, fórmulas relativas do que devemos ser”.

De acordo com o Ir.’. Breno Trautwein, em seu livro Dogmas e Preconceitos Maçônicos, escrito em 1997: “Os homens atuais são de uma cadeia infinita de seres, cujo progresso é resultante do trabalho e do pensamento de outros homens dedicados à verdade, não importando a intolerância dos ignorantes, dos fanáticos e dos poderosos”.

Seria a maçonaria fruto de dogmas ou da experiência apoiando a razão? A Maçonaria é fruto do pensamento humano, do desejo do ser humano pela religião natural. Entretanto, ao examinarmos alguns de seus ensinamentos, surpresos notamos a sua decadência filosófica, caindo para um dogmatismo absurdo, além de inúmeros falsos preconceitos.

Mas o que é preconceito? Preconceito é um juízo pré-formulado, ou seja, uma opinião que se expressa antes de uma reflexão mais profunda, sobre a sua veracidade. Isso é fruto da ignorância, alicerçada na suposta autoridade de um indivíduo ou de um pequeno grupo, impondo a todo um conjunto social, de forma arbitrária. É do preconceito que nasce o dogma, ponto básico considerado indiscutível de uma crença religiosa, filosófica ou mesmo científica. Dogmas são princípios aceitos como indiscutíveis ou ditos como inalteráveis. O dogmatista diz-se de pessoa com idéias autoritárias. Segundo Albert Einstein: “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

Na verdade, uma boa parte de minha indignação refere-se a Albert Makey, autor de uma versão de 25 landmarks, assim como seu fã clube no Brasil, cuja definição que tem como autor o Ir.’.Castellani. Albert Pike, elaborador da versão de apenas 5 landmarks, fruto de um amplo estudo e de uma arrasadora e erudita crítica contra o emaranhado de falsos limites, apresentados pelos autores da época, incluído, aí, o seu discípulo Albert Mackey.

Poderíamos então dizer que esses não são dogmas; que são leis; que são princípios básicos! Mas mesmo tendo sido impostos, sem uma aprovação pela maioria, sem a análise da validade e dos benefícios para a coletividade atingida; e, por esse motivo, caracteriza o Dogma. Neste particular refiro-me a alguns landmarks ultrapassados pelos usos e costumes do mundo de hoje e ditos como imutáveis. E aí eu pergunto: como uma lei, feita por homens, pode ser considerada imutável, se as leis naturais se auto-ajustam para manter o universo em equilíbrio? Não posso concordar que haja conhecedores absolutos de todo o saber maçônico. O primeiro landmark ou princípio, como queiram chamá-lo, que precisaria estar em todas as versões, a meu ver, é “Ser Livre e de Bons Costumes”, o que resultaria no uso do bom senso, para a boa aplicação dos demais princípios necessários a nossa instituição. Mas também não importa se um landmark, dito imutável, foi aprovado pela maioria ou não: dogma é dogma e, por isso, é anti-filosófico, anti-progressista e, portanto, contrário a Maçonaria.

O dogmatismo, na Idade Média, foi religioso e teológico, baseando-se na censura do pensamento, na condenação à morte dos hereges queimados em praça pública e para escarneamento dos fiéis. Se olharmos a história da Inquisição, concluímos que nela figurou o dogmatismo levado às suas últimas conseqüências, até a morte, por aqueles que julgavam ter o monopólio da verdade e realmente detinham, circunstancialmente, o monopólio do poder. Atualmente, o dogmatismo tem assumido um caráter ideológico e político, embora não inclua dogmas religiosos, cuja aceitação depende da fé, inclui teses de conteúdo econômico, social e político, discutíveis como quaisquer teses, levados à institucionalização pela intolerância e pela violência.

Fruto das idéias predominantes em nosso mundo atual, a ordem maçônica não pode fugir do seu destino de liberdade de pensamento e de opinião. Segundo Descartes, em “Discurso do Método”, livro escrito em 1637, ele diz que: “O conhecimento e a ciência exigem trabalho, questionamentos sistemáticos e método. O dogmatismo é o pior companheiro da filosofia.” Mas os maçons criaram vários dogmas fundamentados, ora nas proposições de potências maçônicas imperialistas, ora em suas arbitrárias e profanas legislações, que é fruto da ignorância da verdadeira maçonaria.

Segundo Validivar: “Nenhum homem é livre se a sua mente não é como uma porta de vai-e-vem, abrindo-se para fora a fim de liberar suas próprias idéias e para dentro a fim de captar as boas idéias dos outros”. Sendo a Maçonaria fruto do pensamento humano, isto é, de livres pensadores no campo das idéias, os maçons especulativos não podem dar a outrem o direito de pensar e decidir por eles; jamais podem deixar de buscar, incessantemente, a Verdade.

Bibliografia:
Dogmas e Preconceitos Maçônicos“, de Breno Trautwein, Editora A Trolha.
Discurso do Método“, de René Descartes, Editora L&PM Pocket

PEDRO JUCHEM
M.’.M.’., Loja Venâncio Aires II, nº 2369 – G.’.O.’.B.’. / RS, Brasil


ORIGENS RELIGIOSAS E CORPORATIVAS DA MAÇONARIA

A pesquisa das origens da maçonaria leva à busca das características das instituições primitivas. De modo resumido, estes traços são os seguintes:

■ Em primeiro lugar, trata-se de uma organização de trabalho, a da construção, onde o trabalho não era especializado como atualmente, mas implicava num vasto conhecimento da Arquitetura .

■ Esta organização ia além do caráter estritamente profissional. Os seus membros deviam se considerar irmãos e se assistir mutuamente.

■ Esta associação, operativa e de assistência mútua, possuía ritos tradicionais. A admissão era feita através de iniciação e as suas reuniões continham práticas ritualísticas.

■ A partir do século XVII a associação passou a aceitar membros estranhos à sua atividade profissional e, finalmente, assume acentuado caráter universal.

A partir destas características, dois métodos se oferecem ao estudo histórico da instituição maçônica:

■ O primeiro método limita-se à pesquisa das origens da maçonaria moderna . As fontes estão principalmente na Inglaterra e nos remetem às Guildas dos séculos XIII e XIV.

No entanto, este método não explica a universalidade da Instituição e a existência, na mesma época, de associações idênticas no continente europeu, onde os seus ritos pareciam nascidos de uma fonte comum, existente em épocas mais recuadas.

■ O segundo método leva-nos à pesquisa de grupos ou associações da Antiguidade e da Alta Idade Média cujas características se aproximem daquelas que levaram ao desenvolvimento da Maçonaria Operativa.

Um fato, porém não deve ser posto em dúvida: a Maçonaria atual nasceu da Maçonaria Operativa e, portanto devemos estudá-la . Outro fato igualmente certo é que a Maçonaria incorporou influências diversas em seus ritos, influências estas que também devem ser estudadas.

Para ser completa, uma pesquisa histórica precisará considerar o contexto social, político, econômico, jurídico, religioso e filosófico que condicionou a ocorrência destes eventos. Do ponto de vista cronológico, estes eventos são os seguintes:

■ Os Colégios Romanos, seus derivados Galo-Romanos, Italianos e Bizantinos, e seus descendentes da Idade Média.

■ As Associações Monásticas dos Construtores, constituídas pelos Beneditinos, Cistercienses e Templários.

■ Sob a égide destas associações e sob a forma de confrarias laicas ou de Guildas, ocorre o nascimento e a formação da Maçonaria Operativa.

AS ANTIGAS CORPORAÇÕES

OS COLÉGIOS DE CONSTRUTORES DE ROMA
Em razão do caráter sempre sagrado do trabalho e da ciência, as associações profissionais foram sempre sacerdotais entre os povos da antiguidade. No Egipto, os sacerdotes formavam classes separadas e consagravam-se ao ensino de algum ramo especial do conhecimento humano . Em todos os casos, os alunos passavam por um noviciado e por provas de iniciação para se assegurar de sua vocação .

Como as demais ciências, a Arquitetura também era ensinada em sigilo . A função sagrada de arquiteto construtor era exercida pelos sacerdotes, como por exemplo Imhotep, sacerdote do Deus Amon, que era conselheiro do faraó Sozer (3.800 AC) e que construiu a primeira pirâmide em Sakkarah. Sennemout, arquiteto da rainha Hatsepout, era o controlador dos domínios de Amon e chefe dos sacerdotes de Monthou, na cidade de Armant.

O caráter sacerdotal e místico das associações de construtores é encontrado entre os persas, os caldeus, os sírios e os gregos. A religião também era o fundamento dos Colégios Romanos e de nossas antigas confrarias. Em Reis V, 13 e seguintes e em VII, versículos 13 e 14, vê-se que Salomão teve, sob a direção de Hiram, milhares de obreiros envolvidos na construção do Templo de Jerusalém. Na Grécia, as associações profissionais eram conhecidas por Hetarias. Uma lei de Sólon de 593 AC e cujo texto consta da obra de Gaius (sobre os Colégios e as Corporações) permite às Hetarias, ou Colégios, ter seus próprios regulamentos, desde que não fossem contrários às leis do Estado .

O caráter sagrado dos construtores sobrevive nas lendas dos reis arquitetos como Dédalo, Trophonius e Agamedes. Um exemplo típico é o dos sacerdotes de Dionísios ou Iachus, o Sol. Estes sacerdotes foram os primeiros a construir estradas e estádios para os jogos de provas físicas e de ginástica. Em suas cerimônias secretas, os dionisíacos usavam simbolicamente os seus utensílios de trabalho .

Estrabão, em sua obra Theos, afirma que os reis de Pérgamo (300 AC) tinham uma iniciação particular que incluía palavras e sinais de reconhecimento. O mais antigo código chegado até nós, o código babilônico de Hamurabi, (2.000 AC) descoberto em Susa, já menciona as associações dos carpinteiros e dos talhadores da pedra .

OS COLÉGIOS ROMANOS
Segundo Plutarco, os Colégios de Artesãos foram fundados em Roma pelo rei Numa Pompílio, no ano 715 AC. A influência dos Colégios Romanos foi fundamental nas confrarias de construtores da Idade Média. Sob Sérvio Túlio (578-534 AC) os Colégios Romanos aparecem com o caráter definitivo de corporação. Cícero na sua obra De Oficies (sobre as profissões) coloca os integrantes dos Colégios entre os cidadãos de primeira classe do Império Romano .

No reinado de Alexandre Severo, apesar de reprimidos pela Lei Iulia, existiam já trinta e dois Colégios em atividade no Império . Como em todos os povos da antiguidade, o Direito e as Instituições Romanas tinham base essencialmente religiosa. O caráter sagrado do trabalho tinha por objetivo a divinização do Homem. Para os membros dos Colégios de Construtores o mundo era um imenso canteiro de obras. O uso de sinais de reconhecimento garantia e protegia os segredos de sua profissão, herdados dos egípcios, dos gregos, dos judeus, dos persas e dos sírios.

Os artesãos dos Colégios eram os construtores dos Palácios e das famosas Vilas dos Senadores e nobres romanos, além dos monumentos nas cidades próximas a Roma, como Pompéia e Herculanum, e na cidade de Roma – O Coliseu, o Circo Máximo, as Termas de Caracala, os edifícios do Fórum Romano, os Templos dos Deuses, as muralhas para a defesa da cidade, como as dos Capitólio, etc. Em Bolonha, capital da Reggio Emilia, ainda se pode apreciar a arte construtiva dos artesãos dos Colégios Romanos, nos subterrâneos do Metro da cidade, a via Iulia, que levava de Roma a Milano.

Estes artesãos seguiam com as legiões romanas, com a finalidade de construir estradas, pontes, templos, termas e palácios nas regiões conquistadas pelo Império. Ainda hoje estas construções podem ser vistas em toda a Europa. Muitas delas, principalmente as pontes, estão ainda em uso. Em Portugal, eles construíram, entre outras coisas, a cidade Conimbriga, próxima de Coimbra e o Templo dedicado a Diana, na cidade Évora.

O COLÉGIOS ROMANOS NA GÁLIA CENTRAL ( FRANÇA )
Estes Colégios foram facilmente implantados na Gália, após a sua conquista por Caio Júlio César. No século IV DC eles já existiam em Marselha, Valência, Nimes, Aix-la-Chapelle, Leão, Narbona e Lutécia (Paris), onde assumiram grande prestígio com a construção de importantes edifícios. Escavações realizadas em 1715 no subterrâneo da Catedral de Notre Dame de Paris encontraram uma lápide escrita em Latim, cuja inscrição era um cântico de louvor, dedicado a Júpiter pelos habitantes de Paris. Os Colégios também floresceram em Trèves, a rica capital dos Gauleses, e na Renânia onde existem numerosos vestígios romanos.

OS COLÉGIOS ROMANOS NA INGLATERRA
Uma vez que a Maçonaria moderna teve sua origem na Inglaterra, devemos conhecer em maior profundidade a história dos seus Colégios de Construtores. No ano 43 DC o imperador Cláudio enviou à ilha algumas brigadas dos Colégios de Construtores então estacionadas com as legiões romanas ao longo do rio Reno, na Gália . O seu objetivo foi construir as defesas romanas dos ataques do celtas do norte (os escoceses).

Na época ainda não existiam cidades nem castelos na Grã-Bretanha . Os Colégios foram encarregados de construir campos fortificados para as legiões. Em pouco tempo estes campos se transformaram em cidades dotadas de termas, templos e palácios.Uma destas cidades foi York, então chamada de Eboracum, célebre na história da Maçonaria . Os Colégios de Construtores edificaram também três grandes muralhas no norte do país, na intenção de conter os ataques dos celtas.

Em 287 DC, Carausius, comandante da frota romana na Gália Superior (Bélgica), declara-se imperador da Inglaterra e confirma todos os antigos privilégios dos Colégios de Construtores que foram estabelecidos ao tempo de Numa Pompílio e de Sérvio Túlio. Em 306 DC Constantino assume o poder em Roma e proclama o cristianismo a religião oficial do Império . Durante um século a nova religião se expande na Inglaterra, onde os celtas finalmente conseguiram expulsar os romanos, no início do séc. V DC. Na mesma época toda a Europa caía no domínio dos chamados bárbaros, os Godos, Visigodos e Ostrogodos.

OS COLÉGIOS ROMANOS E AS INVASÕES BÁRBARAS – GODOS E VISIGODOS
Na Gália, as leis romanas subsistiram nos reinos dos Visigodos e dos Burgúndios, através da Lex Romana Visigothorum ou Breviário de Alarico . Este código de leis, que também vigorava na Aquitânia, no Languedoc e em Narbona, protegia os Colégios dos Construtores. Com a sobrevivência destas instituições também no Loire, nos vales do Reno e do Saône, várias construções de grande porte foram realizadas, como por exemplo a catedral de Clermont (450-460 DC) cujos muros tinham gravados os utensílios usados na sua construção.

Entre 475 e 550 DC os Construtores edificaram muitos palácios e monumentos, como por exemplo as Colunas de Auvergne, a Catedral dos Santos Apóstolos em Rouen e a magnífica igreja de São Vicente em Paris, no bairro de Saint-Germain-de-Pres. Ao final do século VII e início do século VIII os Anglo-Saxões recrutaram mestres construtores de Roma e da Gália, herdeiros dos Colégios Romanos e organizados em forma de associações.

Na época, as basílicas da Gália já mostravam estilo diferente das romanas, devido às influências orientais introduzidas pelos Godos e pelos Visigodos, trazidas do Egito, da Palestina, da Síria e da Pérsia sassânida. Em 568 DC os Visigodos Lombardos invadiram a Itália e fundaram um reino que só seria vencido por Carlos Magno em 774 DC. Nesta época, somente Roma, Ravena e Veneza permaneceram livres e ligadas ao Império Romano do Oriente, em Bizâncio (Constantinopla/Istambul). É no reino Lombardo que surgem os Mestres Comacinos, da região de Côme, reconhecidos como excelentes artesãos da arte de construir. Estes Mestres Comacinos herdaram o conhecimento dos artesãos dos Colégios Romanos e tornaram-se os seus sucessores. A sua ação influenciou o desenvolvimento da Arquitetura no norte da Itália entre os séculos VII e XII. A sua organização era semelhante à dos Colégios do Império Romano do Oriente.

AS ASSOCIAÇÕES MONÁSTICAS
Ao final do Império Romano, com o aparecimento dos pequenos Estados suseranos, as antigas instituições foram gradualmente desaparecendo, substituídas pelas classes dos homens livres, dos aldeãos e dos servos. Para garantir a sua sobrevivência, os Mestres Construtores se refugiaram nas igrejas, nos mosteiros e nos conventos que haviam construído na alta Idade Média. A história das Associações Monásticas está ligada à das Ordens Religiosas, em particular à Ordem dos Beneditinos e à Ordem do Templo. O papel dos Templários está intimamente ligado ao surgimento da Maçonaria Moderna. Para conhecer a extensão da influência dos Templários, seria necessário analisar a formação das Associações Monásticas nas regiões góticas, assim como a sua atuação na transição da arte romana para a arte gótica .

Na Inglaterra, as confrarias monásticas se desenvolveram sob a proteção dos Beneditinos de Santo André. Entre os anos de 856 e 1307 DC diversas igrejas e catedrais foram construídas na Inglaterra pelas associações monásticas de construtores, comandadas por mestres notáveis como Santo Augustin, São Dunstan, arcebispo de Canterbury, Gauthier Gifford, arcebispo de York e Gauthier Stapleton, bispo de Exeter.

Uma destas associações monásticas, a dos Colideus, relacionou-se com o rei Athelstan, que iria ter papel decisivo na história da Maçonaria . Em sua origem, os Colideus eram um pequeno grupo de cristãos. Foram os primeiros a introduzir o cristianismo na Inglaterra e em sua organização adotaram os princípios dos Colégios Romanos, existentes na Inglaterra até à saída dos romanos da ilha britânica .

A LENDA DE YORK
Esta Lenda é contada no Poema Regius ou Manuscrito de Halliwel, datado do final do século XIV e descoberto em 1838 no Museu Britânico por James Halliwel. Athelstan governou a Inglaterra de 924 a 940 DC. Ele completou a conquista dos pequenos reinos iniciada por seu avô, Alfredo o Grande, e tornou-se o primeiro rei de toda a Inglaterra .

Athelstan utilizou os serviços dos Colideus na construção de vários castelos, abadias e mosteiros. Em 926 DC, em sua passagem por York ( a Eboracum dos romanos) após vitoriosa campanha militar contra os escoceses, o rei se reúne com os Colideus na catedral de São Pedro. Para manter a ordem nos trabalhos construtivos e para punir os transgressores da lei, o rei proclamou um édito dirigido a todos os maçons, determinando que todos os Colideus deveriam reunir-se anualmente em York, para tratar dos assuntos de interesse da associação.

A Lenda conta que na mesma ocasião – 926 DC – o filho adotivo de Athelstan, o príncipe Edwin, concedeu Carta Constitutiva à Loja de York e tornou-se o seu primeiro Venerável Mestre. Esta Loja teria permanecido ativa até 1172 DC, quando teria sido fechada pelo rei Henrique II. O artigo Arte Céltica inserto no Dicionário de Arqueologia Cristã, de Dom Cabral, fornece a lista dos edifícios, monastérios e igrejas construídos pelos membros da Loja de York. Eles foram os introdutores do estilo gótico ou ogival. Um dos principais exemplos deste estilo na Inglaterra é a Abadia de Westminster, em Londres.

AS GUILDAS
As Guildas tiveram sua origem nos Colégios Romanos e receberam em sua formação a influência das idéias cristãs de fraternidade. Dividiam-se em Guildas Religiosas ou Sociais, Guildas de Mercadores e Guildas de Artesãos.

Elas já são mencionadas nas Iudicia Civitatis Londoniae redigidas no reinado do rei Athelstan. As Guildas de Artesãos são já influentes na Inglaterra no reinado de Henrique I (1100-1133), descendentes que eram de uma confraria de construtores que os Templários trouxeram da Terra Santa para construir a sua Igreja de Fleet Street em Londres (Saint Paul).

OS TEMPLÁRIOS
A Ordem dos Templários, cujo nome correto é Milícia do Templo, foi criada em Jerusalém em 1118, tendo como seu primeiro Grão-Mestre Hugues des Pains, sob a proteção de Theocletes, 67º sucessor do apóstolo São João. Seus membros pronunciavam três votos: Obediência, Pobreza e Castidade e tinha por objetivo defender o Santo Sepulcro e os peregrinos da Terra Santa.  Através de suas numerosas e poderosas Comanderias espalhadas pela Europa, a Ordem do Templo exerceu forte influência sobre as Associações Monásticas de Construtores e sobre as Guildas, constituindo confrarias religiosas comparáveis às dos Beneditinos e Cistercienses.

OS TEMPLÁRIOS E A MAÇONARIA
Quando os Templários, ajudados pelos cristãos, disseminaram as suas comandarias pela Europa, dividiram com eles os segredos dos ritos tradicionais dos Colégios Bizantinos – os Colégios Romanos do Oriente – e dos Tarouq Muçulmanos, fundamentados no sincretismo hermético. Em todas as suas possessões os Templários tinham pedreiros livres a seu serviço, dirigidos por um oficial do Templo . Na Inglaterra, ao início do séc. XIII já era grande a influência da Ordem do Templo que se beneficiava dos grandes donativos feitos pelo rei Henrique I. O seu prestígio foi ainda maior no reinado de Ricardo Coração de Leão.

Em sua Cruzada, juntamente com Felipe Augusto, rei de França, ele conquistou Chipre e entregou a ilha à guarda dos Templários, dos quais se tornou grande aliado e amigo . O poder e a riqueza da Ordem do Templo eram tais no início do século XIV que os Templários eram temidos e invejados tanto pela Igreja quanto pelo rei de França, Felipe V, o que acabou provocando a sua extinção .

Com efeito, uma bula do Papa Clemente V, de 2/5/1312, decretou a sua extinção, passando todos os seus bens para a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, depois Ordem dos Cavaleiros de Malta. Esta Ordem manteve a proteção aos Mestres Maçons, representada em iconografia do final do séc. XV, que mostra o Grão-Mestre da Ordem recebendo um Mestre Maçom, seguido de seus Companheiros portando os seus utensílios de trabalho: o Esquadro, o Compasso, o Malhei e o Cinzel.

Após a dissolução da Ordem, os Templários se introduziram nas corporações dos construtores para se proteger das perseguições, adotando seus sinais e palavras, e continuando assim a exercer sua influência na formação da Maçonaria Moderna. Foi particularmente na Escócia que se refugiaram os Templários ingleses, onde receberam a proteção do rei Robert Bruce, que tinha parentes Templários. Em 1314 este rei fundou, em favor dos Maçons, a Ordem de Heredom de Kilwining, concedendo ao mesmo tempo o título de Grande Loja Real de Heredom de Kilwining à Loja fundada em 1150.

Podemos resumir assim a influência dos Templários na formação da Maçonaria Moderna:

■ Os Templários constituíram associações monásticas de construtores, segundo as tradições greco-romanas, transmitidas pelos Beneditinos e pelos Cistercienses. Ele tiveram ligações estreitas com as associações arquitetônicas cristãs e muçulmanas do Oriente, das quais receberam influências operativa e iniciatica .

■ Os Templários foram, na Europa, a origem da criação e do desenvolvimento das comunidades de construtores que deram origem à Maçonaria Moderna .

■ Após a dissolução da Ordem do Templo, um grande número de Templários se incorporou aos mestrados dos construtores.

A MAÇONARIA CORPORATIVA NA INGLATERRA
Com a Maçonaria Anglo-Saxonica nasceu a Maçonaria Especulativa Moderna. Assim, em sua formação a Maçonaria Operativa recebeu as seguintes influências:

Os Colégios Romanos, em certa medida os Colideus, as Corporações de Ofício italianas (dos Mestres Comacinos e dos Mestres da Comuna de Bolonha), os monges Beneditinos e Cistercienses e as Confrarias da Normandia e das Ilhas Britânicas. A instituição das Guildas oferece um caráter jurídico às Confrarias.

As Guildas inglesas apresentavam um caráter profissional e religioso . Não só as Guildas não sofreram restrições na Idade Média, como foram influenciadas pelos Hermetistas, Pitagóricos, Neo-Platônicos e Rosa-Cruzes, a partir do momento em que a Maçonaria deixou de ser operativa e passou a admitir grande número de membros especulativos.

Os documentos mais antigos da Maçonaria Inglesa datam do início do séc. XIII, como por exemplo o de 1212, escrito em Latim, com o título “Sculptores Lapidum Liberorum” ( Pedreiros Livres ). Também existem documentos em Francês, de 1292 e 1350. Neste último apareceu pela primeira vez a expressão “Franco-Maçom ou Pedreiro-Livre”. Outros documentos sobre a Instituição também foram escritos em 1376, 1377, 1381, e 1396, este último escrito pelo arcebispo de Canterbury, o patriarca da Igreja Inglesa .

Data de 1409 outro documento, relativo à construção da Catedral de São Paulo em Londres. Estes documentos tratam da organização, das normas de trabalho e do ritual maçônico. Deve-se mencionar que no fim do séc. XVII a maçonaria inglesa era já especulativa e admitia mulheres na instituição, conforme menciona o Estatuto da Loja de York de 1693, que diz que “aquele ou aquela que se tornasse maçom deveria fazer seus juramentos colocando a mão sobre a Bíblia .

Em 1472 e em 1481 apareceram documentos sobre a Antiga e Fraterna Ordem dos Maçons e sobre a Fraternidade dos Franco-Maçons da cidade de Londres. Os dois mais importantes documentos antigos sobre a Maçonaria são o Manuscrito Cooke e o já referido Poema Regius, que é composto de 794 versos e que prova que os mistérios da Fraternidade já eram praticados na Inglaterra, no século XIV.

O Poema Regius afirma o caráter religioso e moral da Ordem, a eleição anual de sua administração em assembléia, menciona a lenda dos Quatro Santos Coroados protetores da Ordem, narra a história da construção da Torre de Babel, menciona as sete artes liberais, faz recomendações religiosas e contém um código social.

O Manuscrito Cooke data de 1430 mas é a compilação de documentos do início do século XIII. Divide-se em duas partes. Na primeira, conta a história da Geometria e da Arquitetura; na segunda, contém um Livro dos Deveres, que compreende a organização do trabalho em nove artigos, promulgados pelo rei Athelstan em 926 DC na cidade de York. Também contém artigos de ordem moral, religiosa e social.

A palava “Especulativo” aparece pela primeira vez, na frase “o filho do rei Athelstan- Edwin – era um verdadeiro Mestre Especulativo”.

O Manuscrito de Cooke serviu de base a George Paine, segundo Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, para escrever os seus primeiros regulamentos, adotados no dia de São João ( 21/06/1721 ). Foi também a principal fonte na qual James Anderson se baseou para redigir a Constituição editada em 1723. Importantes são também as Old Charges – os Antigos Deveres – do século XV e relativos à Maçonaria Operativa ou Corporativa de Ofício (Guildas de Ofício). Outros documentos maçônicos antigos e importantes foram destruídos num auto de fé por Desaguilliers, Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, em 21 de junho de 1719 (há quem afirme que o autor da barbárie foi George Paine).

As Old Charges são iniciadas com a invocação à Trindade Cristã, e seu conteúdo é mais ou menos o seguinte: “Caros Irmãos, nossa intenção é vos fazer conhecer como começou nossa Venerável Ordem Maçônica”. Segue-se uma descrição das sete ciências, ressaltando a Geometria como a maior delas. O último capítulo conta uma lenda, que é a seguinte:

Após o dilúvio, Hermes Trimegisto encontrou uma das duas colunas nas quais estavam os documentos que continham toda a ciência; ele assimilou tudo o que encontrou e o ensinou à humanidade, tornando-se o pai de todos os sábios. A segunda coluna foi encontrada, segundo o Manuscrito de Cooke, por Pitágoras. Em seguida, é mencionada a história de Nemrod, rei da Babibonia, que deu uma régua a seus maçons. Eles deviam ser fiéis e se amar uns aos outros.

O personagem seguinte é Abraão. Ele emigrou do Eufrates para o Egito, onde ensinou as sete ciências. Euclides foi aluno de Abraão. Com a permissão real, Euclides ensinou a Geometria aos príncipes, filhos do faraó. Em seguida vem a história de Davi, que protegeu os maçons. Seu filho, Salomáo, termina a construção do Templo, reunindo na obra 24.000 maçons, entre os quais havia 3.000 mestres. Hiram, rei de Tiro, tinha um filho chamado Aymon que era o maior dos Mestres.

A lenda pula vários séculos, e conta em seguida que a Maçonaria foi introduzida na Gália por Namus Groecus, que tinha participado da construção do Templo de Salomão . Ele ensinou a Maçonaria a Carlos Martel, que por sua vez a ensinou aos seus súditos. A lenda chega a Santo Alban, patrono dos Maçons, e ao rei Athelstan cujo filho, Edwin, era Maçom. A interrupção da lenda neste ponto sugere que tenha sido escrita nesta época . A verdade é que na Inglaterra e na Escócia a Maçonaria se fortificou com o apoio do poder real e dos bispos e arcebispos da Igreja. Assim é que, em 1495 o rei Henrique VII defende o uso dos sinais de reconhecimento empregados pelos maçons e, em 24/06/1502, ele preside a reunião da Sociedade dos Maçons de Londres, na ocasião da colocação da pedra fundamental da reforma da Abadia de Westminster.

É somente após a Reforma religiosa de Lutero e com as mudanças na dinastia inglesa, que os maçons ingleses e escoceses, até então fieis à Igreja Católica, ofereceram apoio ao rei Henrique VIII e ao Clero Anglicano . Isto viria a contribuir para a criação da Grande Loja de Londres em 1717.

A UNIÃO MAÇÔNICA
O tipo de trabalho realizado pelos maçons tornava-os itinerantes. Devido a isso, era constante a intercomunicação entre as Lojas, e todo o Maçom tinha o direito de ser recebido na Loja da cidade em que estivesse. Assim, havia necessidade de possuírem sinais de reconhecimento e técnicas e práticas comuns. No interesse da Ordem, convinha conservar em segredo estes sinais e práticas. Deste modo, foi instituída uma organização que se manifestava da seguinte maneira:

■ Pela realização de sessões periódicas para tratar dos interesses da Ordem

■ Pelo reconhecimento de Lojas Regulares, pelas Lojas mais antigas ou Lojas-Mãe

■ Pela instituição de um protetor comum, denominado Grão-Mestre

Apesar disto, não havia ainda uma organização legislativa e administrativa permanente, nem uma pré-figuração das Obediências, que só deviam se materializar em 1717, com a fundação da Grande Loja de Londres. Na época as Lojas eram livres, não subordinadas a uma Loja-Mãe, como nas Grandes Lojas e Grandes Orientes Modernos. Na Inglaterra o papel de Loja-Mãe foi por muito tempo realizado pela Antiga Loja de York, que podia provar ser muito mais antiga que todas as outras. Na Escócia, as Lojas de Kilwining e de Edimburg possuíam o privilégio de outorgar Cartas Constitutivas a outras Lojas. Este estado de coisas viria desembocar na fundação da Grande Loja de Londres, a 24.06.1717, quando se juntaram as Lojas The Goose and Gridiron, The Crown, The Apple Tree, The Rummor and Grapes, sendo George Paine eleito Grão-Mestre.

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


O SIMBOLISMO DA ROMÃ

A romanzeira ou pé de romã, em hebraico Rimmôn, é uma pequena árvore, ou até um arbusto pertencente à família “Punica Granatum” – nome latino – e no vernáculo mais purista, diz-se Romãzeira. No sul da Espanha existe uma linda cidade, que foi a capital dos reinos de Castela e Aragão, conquistada aos árabes em 1492 pelos reis católicos, chamada romã = Granada.

Cresce silvestre no Oriente Médio e principalmente na Palestina, onde existem três cidades com o nome desse fruto, Rimon, Gate Rimon e En-Rimon. Da Palestina, através da Diáspora, foi levada a todo o mundo, inclusive, depois dos descobrimentos, ao Novo Mundo e posteriormente à Austrália e Nova Zelândia.

Considerando-se a origem da Romã como sendo hebraica, nada melhor, para uma compreensão inicial, que recorrermos às Sagradas Escrituras. O Velho Testamento refere a Romã, ONZE vezes, enquanto o Novo Testamento, a omite totalmente. Por ordem cronológica, transcrevemos as passagens alusivas a esse fruto:

1) “Farás, também a sobrepeliz da estola sacerdotal toda de estofo azul. No meio dela haverá uma abertura para a cabeça; será debruada essa abertura, como a abertura de uma saia de malha, para que não se rompa. Em toda a orla da sobrepeliz farás romãs de estofo azul, púrpura e carmesim; e campainhas de ouro no meio delas. Haverá em toda a orla da sobrepeliz uma campainha de ouro e uma romã, outra campainha de ouro e outra romã. Esta sobrepeliz estará sobre Aarão quando praticar o seu ministério, para que se ouça o seu sonido, quando entrar no santuário diante do Senhor, e quando sair, e isso para que não morra.” (Êxodo 28-31.35.)

2) “Depois vieram até o vale de Escol, por causa do cacho de uvas, o qual o trouxeram dois homens numa vara, como também romãs e figos.” (Números 13:23)

3) “E porque nos fizeste subir do Egito, para nos trazer a este mau lugar, que não é de cereais, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem de água para beber?” (Números 20:5)

4)”Fez também romãs em duas fileiras por cima de uma das obras de rede para cobrir o capitel no alto da coluna; o mesmo fez com o outro capitel. Os capitéis que estavam no alto das colunas eram de obra de lírios, como na Sala do Trono, e de quatro côvados. Perto do bojo, próximo à obra de rede, os capitéis que estavam no alto das duas colunas tinham duzentas romãs, dispostas em fileiras em redor, sobre um e outro capitel.” (II Reis 7:18-20)

5) “Há quatrocentas romãs para as duas redes, isto é, duas fileiras de romãs para cada rede, para cobrirem os dois globos dos capitéis que estavam no alto da coluna.” (II Crônicas 4:13)

6) “Os teus lábios são como um fio de escarlate, e tua boca é formosa; as tuas faces, como romã partida, brilham através de véu.” (Cantares 4:3)

7) “Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes.” (Cantares 4:13)

8) “Desci ao jardim das nogueiras, para mirar as renovos do vale, para ver se brotavam as vides e se floresciam as romãzeiras.
” (Cantares 6:11)]

9) “Levar-te-ia e te introduziria na casa de minha mãe, e tu me ensinarias; eu te daria a beber vinho aromático e mosto das minhas romãs.” (Cantares 8:2)

10) “Sobre ele havia um capitel de bronze; a altura de cada um era de cinco côvados; a obra de rede e as romãs sobre o capitel ao redor eram de bronze. Semelhante a esta era a outra coluna com as romãs. Havia noventa e seis romãs aos lados; as romãs todas, sobre a obra de rede ao redor, eram cem.” (Jeremias 52:22-23)

11) “Saul se encontrava na extremidade de Gibeá, debaixo da romãzeira em Migron; e o povo que estava com ele era de cerca de seiscentos homens.” (I Samuel 14:2)

NO QUE DIZ RESPEITO ÀS CIDADES:

1) “Lebaote, Silim e Rimom; ao todo, vinte e nove cidades com suas aldeias.” (Josué 15:32)

2) “Então viraram e fugiram para o deserto, à penha Rimom.” (Juizes 20:45)

3) “A sétima sorte saiu à tribo dos filhos de Dã; Jeúde, Bene-Beráque, Gate-Rimom.” (Josué 19:45)

4) “Em En-Rimon, em Zorá, em Jarmute.” (Nemias 11:29)

Desconhece-se a origem das cidades acima referidas, mas tudo leva a crer, que os seus nomes derivaram do grande número de Romãzeiras existentes. Alguns autores dão a Romãzeira como originária do Egito onde era conhecida pelo nome de “Anhmen”; fazem, outrossim, certa ligação entre a “Romã” e o nome de “Amon Ra”. Prosseguem dizendo não caber dúvida que foi no Egito que o fruto constituía um símbolo sagrado, pois os Sacerdotes egípcios, usavam a romã nos atos litúrgicos iniciáticos. Para os romanos, a sua origem está no norte da África. O seu nome latino – Punica Granatum – sugere a sua origem na cidade de Cartago. Na realidade, esta cidade foi fundada pelos fenícios da cidade de Tiro, que foi fundada pelos sidônios, da cidade de Sidon. Estas cidades situam-se ao norte da Palestina, no atual Líbano.

Platão teria afirmado que dez mil anos antes de Menés já existia a cerimônia que incluía a Romã como fruto, com a sua rubra flor. Somente os sacerdotes de Amon Ra tinham o privilégio de cultivar a Romãzeira. As Romãs, consideradas como oferendas sagradas, eram colocadas sobre os túmulos dos Faraós.

Encontram-se referências a respeito junto ao sacerdote Egípcio de Heliópolis, de nome Manthonm, em sua história dos reis, escrita em grego, 300 anos antes de Cristo. Sobre os Altares dos deuses Horus, Set, Isis e Osiris, este o deus supremo e juiz do além vida, protetor da morte, eram colocadas as mais exuberantes Romãs, como símbolo dos iniciados nos supremos mistérios. Essas oferendas aumentavam de número consoante a categoria do iniciado ou a importância do cargo, como os grandes hierofantes de Amon Ra e de Osiris, que além dessas ofertas serem colocadas em seus túmulos, eram também plantadas nos parques funerários, um número determinado e simbólico de Romãzeiras.

O número variava entre três, cinco e sete, de conformidade com a hierarquia. O rei Thotmesis – Tutmós – da XVIII dinastia, morto no ano 59 a .C. teve plantadas em seu parque funerário, cinco Romãs. Um hábito curioso diz respeito às pessoas que tinham débitos com o falecido. Estas dívidas eram pagas com Romãs, depositadas sobre o seu túmulo. Esse fruto simbolizava a vida e a união geográfica do Egito, compreendido assim o Alto Egito, o Meio Egito e o Baixo Egito, que representavam os três “ninhos interiores” ou a câmara baixa; os cinco “ninhos superiores” ou câmara alta, dos deuses Osiris, o juiz supremo da outra vida, Set, deus das trevas, que matou a Osiris e Horus, que vingou a Osíris, casado com Isis, além da deusa Nefritis ou Isis irmã de Osiris.

No antigo Egito o mês tinha três semanas de dez dias cada uma, e o ano doze meses ou seja, 360 dias aos quais, para corrigir a anomalia astronômica, foram acrescentados cinco dias que eram os correspondentes aos aniversários dos deuses Osiris, Horus, Set, Isis e Nefritis. Esses cinco dias acrescidos eram considerados de maus augúrios, e para aplacar o azar, eram oferecidas Romãs colocadas nos altares. Paralelamente, semeavam no parque funerário, três Romãs, simbolizando as três o Egito e mais cinco em honra aos cinco deuses patronos dos cinco últimos dias, e mais sete, em homenagem às sete trajetórias que as almas deviam percorrer para purificar-se. Essa origem da Romã no Egito conflita com as sagradas escrituras.

Na oportunidade em que Jacó saiu de Israel em direção ao Egito, para fugir da fome que assolava a sua região, levou consigo mudas de videira, de romãzeira, figueiras e demais árvores frutíferas, plantando-as e cultivando-as. Na volta para Canaã, quando os hebreus chefiados por Moisés foram inspecionar a terra prometida, trouxeram de lá, frutos excepcionais, descritos como gigantescos, eis que para carregar um cacho de uvas, foram precisos dois homens, pendurado o cacho numa vara; junto, trouxeram figos e romãs; podemos imaginar, se comparados com o enorme cacho de uvas, o tamanho dos figos e das romãs! Sem dúvida a origem da Romãzeira, é da Palestina.

Para os Assírios, a romã simbolizava a vida e os primeiros frutos da colheita eram entregues ao sacerdote que extraía o seu suco para que o Rei o oferecesse ao ídolo. Os frutos mais formosos que simbolizavam o prolongamento da vida eram preservados para o templo; a Romãzeira era considerada como o pai da vida; com a madeira da árvore, eram confeccionados amuletos. Os fenícios, tinham a Romã, também, como frutos sagrados, bem como os Cartagineses e os Romanos, que os reproduziam nos capitéis de suas colunas e os colocavam nas tumbas dos sacerdotes e dos reis. Para os gregos a Romã era sagrada e eles a denominavam de Roidion, e a Romãzeira de Roía; os frutos eram oferecidos à deusa da sabedoria, protetora da cidade de Atenas. Para os iniciados nos mistérios de Eleusis, Dodone, Delfos, Megara e outros, a Romã simbolizava a fecundidade e a vida.

Se a Romã era usada como símbolo de vida, a concepção hebraica a reforça, considerando a propagação da espécie como o elemento mais relevante da vida. A Romã é de difícil uso como alimento, porque a separação dos grãos, firmemente inseridos em sua polpa, exige certa habilidade; mas, o seu suco, obtido com o esmagamento das suas sementes, que na realidade se constituem cada uma em um fruto separado, é de fácil obtenção. Obtido o suco, de certa forma abundante, fermentado esse, produz-se um vinho de sabor suave e delicado que, talvez para o paladar do ocidental, possa parecer estranho.

Quando de nossa estada em Israel, justamente, em Canaã, adquiri no comércio, uma garrafa de vinho de romã; gelado, nos pareceu de agradável paladar. Retornados ao Brasil, procuramos obter certa quantidade de romãs retirando-lhes os grãos que esmagamos, coamos o suco, acrescentamos um pouco de açúcar e deixamos fermentar. O vinho obtido tinha o mesmo paladar daquele que adquirimos em Israel. Efetivamente, depois de degustá-lo em pequenas doses, decorrido algum tempo, notamos o seu efeito energético; preferimos denominá-lo assim, de afrodisíaco. O relato contém além das insinuações, simbolismos profundos relacionados com os costumes hebreus. A análise meticulosa desvenda preciosas lições.

Por quê Salomão valorizava tanto a romã e o seu vinho? Além do atributo afrodisíaco que os comerciantes dão ao vinho da Romãzeira, o relato de Cantares é claro. O rei Salomão reinou sobre Israel durante quarenta anos, portanto, não se o pode julgar uma pessoa já idosa, mas no vigor da idade. O relato inserido em I Reis 11 nos dá:

“Ora além da filha do faraó, amou Salomão, muitas mulheres estrangeiras; moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, mulheres das nações de que havia o Senhor dito aos filhos de Israel: não caseis com elas, nem casem elas convosco, pois vos perverteriam o coração, para seguirdes os seus deuses. A estas se apegou Salomão pelo amor. Tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas. Sendo já velho, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo para com o Senhor seu Deus, como fora o de Davi, seu pai.”

Apesar do texto bíblico denominá-lo de “velho”, um homem para contentar a mil mulheres, mesmo com higidez excepcional, deveria valer-se de algum produto afrodisíaco, que não era outro senão o vinho da romã. Isto justifica o seu uso, a ponto de fazer da Romã um símbolo sexual conjugado com os lírios, símbolo da excelência feminina. Colocadas as Romãs e os Lírios, nos capitéis das Colunas do Templo, quis Salomão render destaque à sua condição de rei poderoso em todos os sentidos. Poder-se-ia, contudo, questionar sobre esse evento: mas quando Salomão tinha mil mulheres o Templo já estava construído como as duas respectivas colunas. No entanto, já naquele momento, Salomão possuía mulheres em grande número e é de se supor que a ingestão do vinho afrodisíaco já era um hábito e uma necessidade. Não se conhece a idade exata de Salomão.

No livro I Crônicas, 29:1 lemos: “Disse mais o rei Davi a toda a congregação; Salomão meu filho, o único a quem Deus escolheu, é ainda moço e inexperiente, e esta obra é grande; porque o palácio não é para homens, mas para o Senhor Deus.” E no livro I Reis, 3:7 lemos: “Agora, pois, ó Senhor meu Deus, tu fizestes reinar a teu servo em lugar de Davi meu pai; não passo de uma criança, não sei como conduzir-me”.

Quando Davi ordenou o censo, excluiu os que tinham a idade de menos de 20 anos. Poderíamos, calcular, a grosso modo, que Salomão sentira-se criança, talvez por não ter atingido a idade de vinte anos. Portanto, se Salomão reinara durante quarenta anos, e assumira o reinado aos vinte anos, ao morrer, teria sessenta anos, idade que não podemos aceitar como de pessoa já velha. Porém, se Salomão se considerou criança, poderia, perfeitamente, ter apenas quatorze ou treze anos de idade, e então ao morrer teria cinqüenta e três a cinqüenta e quatro anos! Mas, se com essa idade iniciou a construção do Templo, como justificar a presença das Romãs e dos Lírios? Talvez uma manifestação profética, uma vez que esses adornos foram determinados por Davi que os recebera do Senhor. Davi, por sua vez, tivera um grande número de mulheres e concubinas, e o uso do vinho afrodisíaco, poderia ter sido também um hábito seu. Em Jerusalém era muito usada a Alcaparra, denominada em hebraico de Abyynah, cujos brotos e flores excitavam os desejos sexuais; hoje as sementes conservadas em vinagre constituem um condimento muito apreciado em toda a parte.

De qualquer forma, é preciso encontrar-se uma justificativa muito mais coerente sobre a presença das Romãs, do que a simplista de que simbolizava a união fraterna, pela coesão de seus grãos. A necessidade dos excitantes sexuais vem justificada pelo costume que os poderosos tinham de manter junto a si, múltiplas esposas e concubinas; os excessos sexuais da época não constituíam pecado ou falha moral.

Completaremos o estudo sobre a Romã, examinando detalhadamente o seu aspecto interno e externo. O fruto é arredondado, assemelhando-se a um pequeno cântaro, ou a uma laranja de bom tamanho. Sua casca é lisa e manchada na coloração mista do vermelho com o verde, com manchas amareladas.

Na parte oposta ao pedúnculo que se prende ao ramo, apresenta uma coroa formada de pequenos triângulos, e no seu centro, restos de pistilos secos de sua flor. Essa flor é de cor escarlate e composta de três pétalas carnosas que após desabrochar completamente dão lugar a uma rosácea de cinco pétalas; curiosamente, ao formar-se o fruto, surgem mais duas pétalas que se mantêm envolvidas pela coroa, secando paulatinamente até ao completo desenvolvimento do fruto.

A casca é grossa e robusta; quando bem maduro o fruto rompe-se, pondo à mostra alguns grãos; quando colhida e deixada em lugar quente, a Romã seca lentamente; não apodrece; e mesmo seco, o fruto é utilizado, pois os seus grãos apresentam-se mais doces ainda. O interior apresenta duas câmaras: a alta que contém cinco celas onde se espremem dezenas de grãos, e a câmara baixa, que se apresenta da mesma forma; os grãos têm no centro, uma diminuta semente branca e ao redor uma grande parte carnosa e transparente, nas colorações que partem do rosa pálido ao vermelho rubi. Essa parte interna lembra os favos de mel; as celas são divididas por uma espécie de cortina branca e leve.

Essa película resistente é amarga, como o é toda a casca exterior, possuindo propriedades medicinais; pela grande quantidade de tanino que contém, é usada como adstringente para diarréia; a casca, em forma de chá é um excelente vermífugo. Os grãos são saborosos, podendo ser ingeridos agrupados; o gosto esquisito, é agridoce. No Oriente, como já referimos, esses grãos macerados produzem um líquido que fermentado resulta em vinho afrodisíaco. O simbolismo do fruto e de sua flor se adequa à filosofia maçônica. A planta, ou melhor, o arbusto, tem as folhas pequenas e perenes, de um verde escuro; a planta não atinge altura significativa e desde cedo, quando em desenvolvimento, tendo um metro e meio, já produz frutos. Os grãos simbolizam a união dos maçons em seus vários aspectos: o fisiológico, porque cada grão possui “carne”, “sangue” (o suco) e “ossos”, (as sementes). Os grãos crescem unidos de tal forma que perdem o formato natural, que seria redondo; espremidos uns aos outros, são semelhantes a polígonos geométricos, com várias facetas; são lustrosos e belos, lembrando os favos de uma colméia de abelhas; as abelhas trabalham sem descanso e assim lutam os maçons.

Os frutos representam os maçons que estão no Oriente Eterno; são pedras totalmente polidas que abrilhantam o Reino Celestial. As câmaras simbolizam a vida externa e a interna, ou seja, a mente humana e o espírito. As cinco células da Câmara Alta representam as fases intelectuais onde se estuda a razão da verdade eterna;, o conhecimento, o impulso para o elevado, para a moral e para a perfeita harmonia.

Representam, ao mesmo-tempo, as cinco raças humanas, perfeitamente unidas, sem preconceitos; também recordam as cinco idades do homem: a embrionária, a infância, a do aprendizado, a construtiva e a madura. As três células da Câmara Baixa correspondem ao aprendizado, ao companheirismo e ao mestrado. As três substâncias do homem: sangue, carne e ossos; ao homem Templo, ao homem Altar e ao homem Alma. As três luzes: Ven.’. e Vvig.’.. O formato externo, representa a Terra, seja pela sua esfera, seja pela sua coloração e conteúdo.

O astronauta soviético Yuri Gagarin, quando pôde contemplar a Terra do Cosmos, exclamou: “Ela é azul!”. Hoje passada quase uma geração, o jornalista japonês Akiyama, a bordo da estação orbital russa Mir enviou a seguinte mensagem: “O ar e as águas estão visivelmente sujos. Estou muito ocupado aqui, em cima, para ser filosófico; mas sinto que realmente faço parte da mãe Terra, agora, e acredito que temos que realmente fazer alguma coisa para salvá-la – acrescentou: eu não estou falando dos desertos, mas em outras partes da África e da Ásia não há muitas árvores”. Que expressiva diferença após poucos anos! A Terra para Gagarin era azul; para Toyohiro Akiyama, a Terra perdeu a suavidade colorida!

A Romã expressa, na sua coloração, a realidade. A coroa de triângulos ou coroa da virtude, do sacrifício, da ciência, da fraternidade, do amor ao próximo, está colocada numa extremidade da esfera. Simboliza o coroamento da obra da Arte Real. A flor rubra representa a chama do entusiasmo que conduz o Neófito ao seu destino, iluminando a sua jornada. As cores da Romã simbolizam: o verde, o reino vegetal; a amarela, o reino mineral; e a vermelha, o reino animal. As membranas brancas, que não constituem cor, mas a mistura de todas as cores como as obtidas quando o raio transpassa o cristal formando o arco-íris, simboliza a paz e o amor fraterno.

Podemos acrescentar que o simbolismo da romã se equivale, na Arte Real, ao simbolismo da Cadeia de União, da Orla Dentada, da Corda de 81 Nós, e ao do Feixe de Esopo.

Em suma, a romã simboliza a própria Loja e a sua a Egrégora.

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


O RITO DE EMULAÇÃO

NO RITO DE EMULAÇÃO E OS FUNDAMENTOS DA REGULARIDADE MAÇÔNICA TRADICIONAL
O Rito de Emulação é o resultado da experiência ritual de múltiplas fontes. Representa a “pacificação” entre a antiga e a nova Maçonaria, e pertence a todos os Irmãos que o adotaram como instrumento de regularidade iniciática e espiritual.

Joseph De Maistre, um dos maçons mais notáveis, que viveu entre o final do séc. XVIII e o início do séc. XIX, afirmava: “Tudo revela que a Maçonaria vulgar seja um desvio, talvez corrompido, de um antigo e respeitável tronco”.

Ao final do séc. XVII existiam em Londres muitas Lojas nas quais predominava o elemento operativo, e outras nas quais predominava o elemento especulativo. Apesar disso, todas elas eram consideradas no mesmo plano de igualdade, como o prova a expressão “Free and Accepted Mason”. Em 1717 quatro destas Lojas decidiram eleger um Grão-Mestre, que foi Antony Sayer, criando assim uma Grande Loja em caráter permanente, inovação que, na época, pareceu ilícita a muitos Irmãos, pois tal prática não era da tradição maçônica. Três destas quatro Lojas eram formadas, em sua maioria, por membros operativos. Só uma destas Lojas, à qual pertenciam Desguiliers, Payne e Anderson, tinha maioria especulativa e rapidamente assumiu a liderança e a direção da nova Grande Loja.

Deve ser lembrada também a existência, na Escócia e na Irlanda, de antigas Lojas maçônicas cuja transformação – de operativas para especulativas – ocorreu em paralelo com a da Loja de Anderson em Londres, O Ganso e a Grelha, e das quais derivam, direta ou indiretamente, todas as Lojas do Mundo. O desvio de que falava De Maistre foi retomado por René Guénon, que afirmou o seguinte: “Com freqüência se discute sobre a Maçonaria moderna, sem levar em consideração que ela é, simplesmente, o resultado de um desvio da Maçonaria tradicional”. E que desvio é este, seja ele real ou presumido? Segundo De Maistre este desvio reside no abandono da matriz cristã-católica da antiga Maçonaria operativa.

De Maistre via no sistema tolerante da Maçonaria um forte aliado na reunificação das várias denominações (ou seitas) cristãs da Europa. A sua tese era de que a divisão do cristianismo, e a conseqüente perda de autoridade do Papa tinham produzido de uma parte, o despotismo dos governantes, menos ligados à ética católica do que ao seu próprio egoísmo, e de outra parte provocou a reação revolucionária dos povos.

A proposta de De Maistre, de uma federação teocrática de governantes em torno do Papa, da qual a Maçonaria deveria ser parte importante, não levava em conta a já irreversível transformação da própria Maçonaria que, doutrinariamente, cada vez mais se afastava de qualquer religião.

A Maçonaria atual, sendo derivada da Antiga Maçonaria, apresenta novas características que, embora configurem algumas mudanças na antiga tradição, não foram suficientes para desfigurar totalmente os antigos princípios da Instituição Operativa. A ausência de dogmas, a religiosidade sem intermediários, a ritualística sacramental sem adoração nem veneração, formam um todo doutrinário único que não precisa, para se afirmar, de nenhum contexto exotérico externo à Ordem Maçônica.

O atual predomínio dos especulativos na Maçonaria não impede a existência de uma minoria operacional que assegura, no plano histórico, a permanência de uma forma-essência específica da Antiga Ordem Operativa. Mas todos os Maçons participam, conscientemente, da construção universal de um templo simbólico, na qual o trabalho da mente e do espírito substituem o trabalho material.

Este processo de renovação cíclica da tradição teve o seu momento culminante na criação do Rio de Emulação, que representa a pacificação entre a antiga e a nova Maçonaria, o novo pacto entre os operativos e os especulativos.

Robert Ambelain, um dos maiores historiadores da Maçonaria, afirma que: “À força de distribuir ou de recusar certificados de regularidade, a Grande Loja Unida da Inglaterra, derivada da Grande Loja de Londres e de Westminster, e sucessora da Grande Loja de Londres, acabou por acreditar que só ela era regular.

As pesquisas dos Irmãos Edwin Stretton e Thomas Carr provaram que James Anderson, que era Capelão da sua Loja, em 1714 convidou pessoas de elevada posição social para entrarem na Maçonaria, ao mesmo tempo em que recusava o acesso à sua Loja aos maçons operativos.

Estes novos membros foram iniciados no final do mesmo ano (no solstício de inverno). Eram eles, entre outros: George Payne, que seria Grão Mestre da Grande Loja de Londres em 1720; Jean Théophile Desaguiliers, pastor protestante de origem francesa; Antony Sayer, assistente do arquiteto Christopher Wren (que projetou a Catedral de São Paulo, a maior de Londres, na Fleet Street); o Duque de Montagu, que sucederia a Payne como Grão-Mestre; Johnson, um médico que pretendia receber honorários pelo exame dos profanos; Entick, fidalgo; Stuart, advogado.

Na Maçonaria Operativa, os Capelães tratavam apenas, e quando chamados, de questões puramente religiosas, não sendo membros da fraternidade. A eles – os Capelães – não se pedia nada além de uma promessa de discrição, não havendo motivo para lhes comunicar os segredos da fraternidade e nem a palavra de passe. Só mais tarde foram criadas as ditas Lojas de Jakin, nas quais se iniciavam e instruíam os Capelães que, por isso mesmo, não podiam ir além do segundo grau.

Não sendo Mestre de Loja, Anderson não podia assim transmitir a iniciação a nenhum candidato, nem podia fundar nenhuma nova Loja. A atividade ambígua de Anderson chamou a atenção dos Operativos. Em setembro de 1715 alguns deles se aproximaram de Anderson e lhe pediram a palavra de passe, que lhe permitia participar dos trabalhos da sua Loja, na Taberna do Ganso e da Grelha, mas Anderson se recusou a dar esta palavra.

A recusa alertou a comunidade operativa de Londres, que declarou a Loja irregular. Anderson e outros sete irregulares fundaram imediatamente uma nova Loja, a “Lodge of Antiquity”, que fundou outras Lojas, tão irregulares quanto ela própria. Sir Christopher Wren, que em 1716 era Grão Mestre anual da Antiqüíssima e Honorável Fraternidade dos Maçons, se recusou a reconhecer a Lodge of Antiquity e as suas derivadas, que decidiram então fundar uma outra Grande Loja, elegendo também um outro Grão Mestre.

Além desta gravíssima irregularidade iniciática, devem-se também a Anderson as seguintes alterações na Maçonaria primitiva:

■ Reduziu a dois (Aprendiz e Companheiro) os antigos graus operativos, que eram sete.

■ Iniciou um Aprendiz sem o noviciado de sete anos ou, ao menos, cinco, elevando-o ao grau de Companheiro um mês depois.

■ Suprimiu dois dos três Mestres que dirigiam a Loja, entregando a Vigilância a simples Companheiros.

■ Mudou a orientação da Loja, colocando o Venerável no Oriente, enquanto que a tradição operativa o colocava no Ocidente.

■ Introduziu (em 1730) o grau de Mestre Maçom, com o ritual da morte de Hiram, que os operativos não conheciam, e que para eles parecia um ritual nigromântico.

■ Introduziu o grau de Ex-Venerável, para o qual não se via utilidade, e que ofuscava inclusive o Segundo Mestre, ou seja, o Primeiro Vigilante.

Clement Stretton, em sua obra, afirma que estas mudanças foram registradas no Livro de Atas da Guilda da Loja de São Paulo, conservadas no sub-solo da sua sede social. Estes arquivos eram acessíveis somente aos detentores do grau VII da Maçonaria Operativa, ao qual Stretton foi elevado a 2 de outubro de 1908, na qualidade de Terceiro Mestre Maçom da Divisão de York. Esta informação foi confirmada também por J.M. Hamill, Bibliotecário Adjunto da Grande Loja Unida da Inglaterra.

As primeiras revelações de Stretton, posteriormente confirmadas por Thomas Carr, foram publicadas nos Cadernos da Loja de Pesquisas nº 2429, da Grande Loja da Inglaterra. Nos Estatutos de Anderson de 1723 (art. IV) se diz claramente que o termo Mestre de Loja indicava uma função administrativa superior, mas não um grau maçônico transmitido ritualmente.

Os estudos de Goblet d’Alviela mostram que a Grande Loja de Londres confirmava o grau de Companheiro como sendo o último da Maçonaria, nada informando sobre o ritual do terceiro grau. Este grau só foi introduzido mais tarde, não por iniciativa da Grande Loja de Londres, mas por algumas Lojas isoladamente. A evolução foi lenta, e só em 1738 a Grande Loja de Londres aceitou e sancionou oficialmente esta inovação. As recriminações dos operativos, e a lenta infiltração de alguns deles produziram algumas mudanças. Ao final de 1733 começaram a aparecer no “Bill of the Lodges” as Lojas de Mestres Maçons, compostas de Mestres que se reuniam para conferir aos Companheiros o 3º grau maçônico.

Em 1738 a Grande Loja estabeleceu oficialmente a hierarquia dos três graus. Não se conhece o ritual da Grande Loja de Londres que conferia o terceiro grau aos Companheiros, assim como não se sabe se esse ritual já continha a lenda de Hiram. Samuel Pritchard, maçom que não via com bons olhos os novos rituais, se lançou contra as inovações da Grande Loja de Londres, declarando:

“Os meus Irmãos são culpados de desenvolverem a superstição e os devaneios inúteis nas Lojas. Frases alarmantes, histórias de maus espíritos, bruxaria, encantamentos e câmaras escuras, provocam o terror. Por isso, decidi não colocar mais os pés em uma Loja, a não ser que o Grão Mestre ponha fim a estas coisas, com uma rápida e firme ordem a toda a Jurisdição”.

Gould, um dos maiores historiadores da Maçonaria, nega também a presença da lenda de Hiram na Maçonaria inglesa no séc. XVII. “Se Hiram Abif tivesse figurado, naquele período, nas cerimônias ou nas tradições da Ordem, as Constituições manuscritas da época não conservariam, como o fazem, tão grande silêncio sobre a existência de um personagem tão eminente na estória e na lenda da Ordem”.

A antiga Maçonaria inglesa, de origem e mentalidade cristã e católica, embora usasse a tradição bíblica para construir os próprios rituais e, por isso mesmo, conhecesse tanto Hiram rei de Tiro, quanto Hiram Abif, nunca tinha adotado esta Lenda. O escândalo foi enorme, entre católicos e protestantes. A análise das fontes da ritualística moderna foge aos limites desta pesquisa. É suficiente apenas dizer que a novidade ritual, introduzida lentamente entre 1717 e 1750, desenvolveu-se espontaneamente em algumas Lojas. Deste modo, a Grande Loja de Londres apenas referendou enxertos ritualísticos, que complicaram o esoterismo maçônico primitivo.

As diferenças eram tantas que a Maçonaria inglesa estava já, em suas origens, dividida em duas correntes: uma, que aderia à Grande Loja de Londres; outra, que aderia a diferentes tendências Maçônicas existentes na época, as quais decidiram fundar, a 17 de junho de 1731, um Comitê de Reorganização Administrativa Unitária, que terminaria por fundar a Grande Loja dos Maçons Antigos e Aceitos das Antigas Instituições, para a qual foi eleito Grão Mestre o Irmão Robert Turner.

A rivalidade entre as duas Grandes Lojas duraria decênios, não obstante as numerosas tentativas de pacificação, até que o Duque de Kent, pai da Rainha Vitória, empunhou o malhete de Grão Mestre dos Antigos (1731) e o Duque de Sussex, seu irmão, o malhete de Grão Mestre dos Modernos (1717).

Os dois representantes das Grandes Lojas, durante a Grande Assembléia Maçonica para a união da Maçonaria inglesa em 1813, exatamente a 25 de novembro, assinaram um pacto de unificação da nova Grande Loja Unida da Inglaterra, tendo como Grão Mestre o Duque de Sussex.

Entre os artigos do pacto de união existia um que impunha “uma perfeita unidade” ritualística. Na realidade, havia diversos rituais, que eram usados e tolerados por ambas as Grandes Lojas. No entanto, a unificação subentendia que os dois Altos Corpos adequassem os novos rituais e o novo esoterismo às tradições da Antiga Maçonaria.

Foi com este objetivo que se fundou a “Emulation Lodge of Improvement”, ou Loja de Emulação de Aperfeiçoamento. Esta Loja devia analisar e estudar as fontes documentais, realizar um trabalho constante de pesquisa, e controlar rigidamente a obediência ao novo ritual aprovado. A experiência das duas Grandes Lojas mostrou que não havia, nem na prática nem na teoria, um ritual perfeito e original, uma razoável e sábia convenção que representasse a melhor solução ritualística e esotérica.

No Ritual de Emulação se reconcilia a Antiga Maçonaria – com suas conotações operativas e deístas – com a Maçonaria Moderna, teísta, e marcantemente misteriosa e esotérica. A confluência das duas correntes é a base sobre a qual se apóia a atual regularidade e a validade da Filiação e da Iniciação Maçônica, ambas de origem Andersoniana.
Deste modo, pode-se dizer que os documentos já citados nos confirmam a importância do Rito de Emulação, que é o pilar da regularidade, no seio da Maçonaria Universal.

Todas as Grandes Lojas e Grandes Orientes do mundo utilizam o Ritual de Emulação na Instalação dos Veneráveis de suas Lojas, qualquer que seja o Rito em que elas trabalham. Esta característica, de rígida aplicação, faz com que somente seja reconhecida a qualidade de Venerável aos Mestres que tenham sido instalados segundo o Ritual de Emulação, no qual são transmitidos a Palavra de Passe do Mestre Instalado e os correspondentes sinais de reconhecimento.

Ainda que se exclua qualquer alusão confessional ou religiosa, no desenvolvimento do ritual as invocações ao Grande Arquiteto do Universo demonstram a sacralidade deísta, que em Maçonaria não é mera formalidade de princípios, mas representa o seu aspecto exotérico, que é o suporte necessário e indispensável ao aspecto esotérico deste Ritual.

O Rito de Emulação, ainda que derivando da renovada e regularizada unidade maçônica na Inglaterra, é o resultado da experiência ritual de suas múltiplas fontes, e demonstra, na sua essência esotérica, que não existem direitos de primogenitura neste campo. Os estudos ritualísticos demonstram que, em determinada época e lugar, a humanidade manifestou a sua vontade de se religar aos planos espirituais superiores através dos mesmos princípios, ainda que se utilizando de formas diferentes.

Por isso mesmo, um ritual não pertence nem a um só lugar geográfico nem a um tempo histórico, porque está acima e além de seus aspectos materiais e transitórios. O Ritual de Emulação pertence à tradição e a todos os Irmãos que a ele se sintam ligados, por se constituir num instrumento de regularidade, e de validade iniciática e espiritual.

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


O QUE É MAÇONARIA?

Para definir a maçonaria, numa forma que já se tornou clássica, podemos dizer que é uma sociedade discreta, na qual homens livres e de bons costumes cultuam a liberdade, a fraternidade e a igualdade entre os seres humanos, tendo como princípios a tolerância, a filantropia e a justiça.

Os maçons reúnem-se em um local ao qual denominam de loja, onde praticam seus rituais de reflexão, dirigidos por um mestre maçom experimentado, conhecido por venerável mestre. Suas cerimônias de reflexão e aprendizado são sempre realizadas em honra e em homenagem a Deus. Seus ensinamentos são transmitidos através de símbolos, dando assim um conhecimento profundo e adequado ao nível intelectual de cada indivíduo, combatendo a ignorância em todas as suas manifestações.

A maçonaria tem em mira os três aspectos essenciais: a instrução moral, física e intelectual; a moral abrange a espiritualidade; a física, o conhecimento completo da Natureza e a intelectual, a mística. Os ensinamentos maçônicos buscam sempre nos lembrar os tres deveres fundamentais do ser humano, ou sejam, os deveres para conosco, a humanidade e Deus. Para conosco consiste em estabelecer a mais perfeita conexão entre a personalidade e a individualidade, entre o corpo e a alma, procurando o aperfeiçoamento do nosso ser. Para com a humanidade que compreende a família, a pátria e o universo; reconhecer em cada ser vivo a mesma expressão vital que sente em si mesmo, sendo que deste reconhecimento nasce o respeito pela vida e o amor a todos. Para com Deus que é o princípio de tudo; não podemos reconhecê-Lo como um princípio abstrato, mas reconhecer Sua presença em cada ser vivo, em cada alimento e em cada manifestação da mente humana.

A maçonaria, sob o aspecto filosófico, busca interioridade do saber e a intimidade da ciência, fixando-se no famoso dito socrático, lema muito usado na linguagem maçônica: “Conhece-te a ti mesmo”. Este pensamento de Sócrates, filósofo nascido em Atenas aos 470 a.C., poderia significar “Torna-te consciente de tua ignorância”, ou seja, temos de ter consciência racional de nós mesmos, para podermos organizar racionalmente a própria vida.

A Maçonaria, ensinando através de símbolos, deve muito à Escola Pitagórica, fundada por Pitágoras, que nasceu na Grécia aos 570 a.C.. A Escola de Pitágoras reconhecia na alma duas partes: inferior, a da paixão, e superior, a da razão. As paixões devem ser dirigidas e governadas pela razão, harmonizando-as; esta harmonia se chama virtude.

Os discípulos de Pitágoras não se dedicavam somente à Astronomia e Matemática; aplicavam-se ao estudo da organização social e política. As tentativas de Pitágoras numa nova organização social são notadas através das condições que impunha aos discípulos: viver em comunidade, ao trabalho, à contemplação e à instrução em geral, visando um aperfeiçoamento da sociedade. Atribui-se a Pitágoras o famoso teorema geométrico da definição do ângulo reto, onde “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, donde emanam vários ensinamentos para a Arquitetura material e espiritual.

O grau de Companheiro, juntamente com os graus de Aprendiz e de Mestre, são denominados de graus simbólicos; os demais 30 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito são conhecidos como os graus filosóficos. O grau de Companheiro tem como objetivo o estudo das Ciências Naturais e a investigação da origem de todas as causas e as coisas. Procura conhecer o homem como ser útil à Sociedade, buscando colocá-lo a serviço da Humanidade, para semear bem estar através do Trabalho, da Ciência e da Virtude.

A virtude é um impulso natural interior que induz à prática do bem. O bem não é um ideal distante a ser buscado, ele se compõe de pequenos eventos que se materializam em cada ação construtiva e em cada passo do homem durante a sua vida. A primeira expressão de virtude é o reconhecimento instintivo que responde à tradicional questão “de onde viemos?”. Esta expressão é denominada de fé, envolvendo confiança interior em verdades que a nossa razão não tem a capacidade lógica de entendimento. É importante que a fé seja uma resposta de todo o ser vivo diante da mensagem divina, na qual ele sente o significado profundo de sua existência e a grandeza de seu destino.

O maçon deve preservar a própria dignidade expressa em uma vida honesta e produtiva, contando com o respeito e o reconhecimento espontâneo da sua comunidade. A calúnia e a maledicência são adversárias frequentes da honra, da verdade e da convivência fraterna, impulsionadas pela inveja, pelo ressentimento, pela ociosidade e pela ignorância. A maledicência é uma falha moral de caráter. Nas cerimônias maçônicas a doutrina do silêncio ensina-nos que a palavra só se justifica quando for mais útil que o silêncio. Ela deve ser verdadeira, construtiva e fraterna.

PEDRO JUCHEM
M.’.M.’., Loja Venâncio Aires II, nº 2369 – G.’.O.’.B.’. / RS, Brasil


O PRINCÍPIO CRIADOR – DEUS

Nem a alma, princípio dos fenômenos da vida e do pensamento, nem a matéria, princípio dos fenômenos sensíveis, bastam para se explicar a si próprias. Por isso mesmo, ambas devem a sua existência a um outro ser. Conhecer este ser pré-existente, razão última de toda a existência, é conhecer a unidade absoluta a que chamamos Deus.

A Teodiceia é a ciência que estuda a existência de Deus, única e exclusivamente à luz da razão. Ela se distingue da Teologia, que se ocupa de Deus com o auxílio da razão, esclarecida pela fé.

Segundo a Teodiceia, Deus é o ser absoluto, existente por si mesmo e independente de qualquer outro ser; é o ser perfeito que contém em si a plenitude de todas as outras perfeições, o alfa e o ômega de toda a existência.

A EXISTÊNCIA DE DEUS
Será necessário, e será possível demonstrar a existência de Deus? Duas classes de filósofos pretendem que esta verdade á absolutamente indemonstrável: uns por a considerarem demasiado evidente, e outros por achá-la demasiado elevada.

Os ontologistas e os partidários da evidência imediata afirmam que, sendo Deus o ser primeiro, Ele é também a primeira de todas as verdades e o primeiro de todos os princípios. Assim sendo, a sua existência é evidente por si mesma e, como conseqüência, é impossível demonstrá-la.

Segundo estes filósofos, Deus é a primeira verdade e o princípio de todo o ser existente. Por outro lado, à luz da razão, esta verdade necessita ser conhecida e racionalmente demonstrada. Esta demonstração, à luz da razão humana, inexiste para os positivistas, que afirmam que esta questão é racionalmente impossível, porque o ser que é objeto de hipótese ou de esperanças não pode ter uma certeza científica.

Segundo Pascal, o ser humano é incapaz de conhecer o que é Deus e por isso não pode afirmar que ele existe. Por sua vez, Kant afirma que a existência de Deus é um postulado da lei moral, e o dever de observar esta lei nos obriga a crer na existência de Deus; mas não podemos demonstrar esta verdade.

Para a grande maioria dos filósofos que viveram ao longo dos séculos, a razão humana tem, ao mesmo tempo, a necessidade e a possibilidade de demonstrar a existência de Deus.

As provas da existência de Deus são de três tipos: provas físicas, morais e metafísicas.
As provas físicas se baseiam na natureza. Pode-se considerar no mundo externo a sua existência real, os movimentos ou mudanças nele produzidos e também a ordem que nele existe. Daí se originam as três provas físicas da existência de Deus:

1. A prova baseada na existência do universo.
2. A prova fundada no movimento, no primeiro motor.
3. A prova originada na ordem do universo, ou prova das causas finais.

A EXISTÊNCIA DO UNIVERSO PROVA A EXISTÊNCIA DE DEUS
O universo se compõe de seres que existem, mas que poderiam também não existir. Logo, estes seres não têm em si próprios a razão da sua existência. Se todo o ser existente tem a sua razão para existir, e se não a tem por si mesmo, tem-na em um outro ser do qual recebe a sua existência, Deus. Segundo os panteístas, este ser primeiro não é Deus; é o próprio universo, considerado como ser único, infinito, tão perfeito ou imperfeito como o é cada uma das suas partes, mas que possui o poder de se aperfeiçoar com toda a sua independência.

Kant, o dekantado filósofo da Crítica da Razão Pura, refuta todas as provas físicas da existência de Deus, afirmando que nenhuma desta provas tem valor por não serem demonstráveis pela razão, mas tão somente são admissíveis como postulado da lei moral.

Na realidade, o universo, no seu conjunto, é apenas uma soma de seres ordenados entre si, numa série continua ou circular, onde cada ser conseqüente tem as características do seu antecedente, mas todos são distintos uns dos outros e, como conseqüência, a sua existência exige uma causa primeira, distinta do próprio universo. E esta causa é Deus.

O MOVIMENTO PROVA A EXISTÊNCIA DE DEUS
O argumento do primeiro motor, formulado pela primeira vez por Anaxágoras (500-428 a.C), foi retomado por Platão no Livro das Leis, e foi desenvolvido por Aristóteles no XII Livro da sua Metafísica. Este argumento recebeu a sua forma perfeita e definitiva dos escolásticos, sobretudo de S.Tomás de Aquino.

Segundo Aristóteles, o movimento, entendido no sentido mais geral e metafísico, pode ser definido como “a passagem da potência ao ato”. Sabe-se que é princípio básico que nada pode passar da inércia para a ação senão através de uma causa inicial: “A água, só se aquece pela ação do fogo, que possui a energia calórica”; do mesmo modo, “o ignorante só se torna sábio pelo ensino do que, ou de quem, está de posse da ciência”. E esta causa somente pode ser encontrada no ser que se move sem ser movido, Deus.

O movimento físico, que é diferente do movimento metafísico, também constitui uma prova da existência de Deus. Se admitíssemos, como Descartes, a inércia absoluta da matéria, considerá-la totalmente passiva e somente capaz de transmitir um impulso recebido, ainda assim, como o movimento físico da matéria existe, ele provém do movimento metafísico, isto é, da ação da vontade, que por meio desta se reduz ao primeiro motor, Deus.

A ORDEM DO UNIVERSO PROVA A EXISTÊNCIA DE DEUS
Este argumento ou prova remonta à mais alta antiguidade. Podemos seguir-lhe os vestígios, desde Bossuet até Platão e Sócrates, que o recebeu de Anaxágoras. Deste último disse Aristóteles: “Quando um homem veio dizer que havia na natureza uma inteligência, causa da disposição e da ordem do universo, pareceu que só este homem tinha conservado a razão, no meio das loucuras de seus predecessores”. O próprio Irmão Voltaire levava este princípio em consideração:

L’univers m’embarrasse et je ne puis songer
Que cette horloge existe et n’ait point d’horloger

O universo me intriga e eu me ponho a pensar
Como existiria este relógio, se não existisse o relojoeiro?

E o próprio Kant, apesar das restrições que inicialmente fez a esta prova, no final admitiu-a como a mais antiga e clara das provas da existência de Deus. O fim de uma coisa é aquele para a qual essa coisa é feita. Assim, o fim dos relógios é indicar a hora, e o fim das facas é cortar. Antes de existir fisicamente, a finalidade dos relógios já existia na intenção do relojoeiro. O fim, a sua finalidade, é, portanto, a verdadeira causa da construção dos relógios.

Assim, fica fácil de entender que toda a finalidade, toda a causa final, supõe uma inteligência que a conceba. É nisto que se baseia a prova das causas finais. A este respeito, Bossuet afirma: “tudo o que mostra ordem, proporções bem estabelecidas, meios próprios para obter determinados efeitos, mostra também uma intenção, um desígnio pré-concebido e, por conseqüência, uma causa inteligente”, Deus.

Existem relações entre a estrutura e a função, entre a anatomia e a fisiologia, seja do globo ocular, seja do estômago, seja do fígado, etc. Isto exige o concurso regular e constante de uma infinidade condições, todas elas necessárias. A verificação destas condições deve ser vista como a pré-figuração do futuro: a célula-ovo contém um adulto com suas características já determinadas: e tanto a célula-ovo, como o seu desenvolvimento, são o resultado de forças puramente físicas, específicas e determinadas.

Foi necessário que através das forças da natureza, e entre a multidão infinita de combinações possíveis, um delas chegasse a vingar, não uma só vez, mas constantemente, de modo a dar sempre aos elementos de um órgão de um ser vivo a disposição que permita o seu desenvolvimento posterior; mas este órgão contêm, de antemão, a função que virá a desempenhar.

Esta disposição ou pré-ordenação constante, e a sua preparação para o futuro, é ininteligível, e não tem uma razão suficiente sem uma inteligência ordenadora. Neste caso, a finalidade é evidente, e o termo futuro é a causa de uma disposição anterior; é a causa final. Só a inteligência pode conceber de antemão a idéia do fim que deve ser atingido.

A ordem do universo, por si só prova, contra os materialistas, a existência de uma inteligência superior, sapientíssima e ordenadora da matéria. Daí, poder-se dizer que a prova das causas finais é o complemento metafísico do qual se conclui, racionalmente, a existência de uma causa infinita, criadora, única, Deus.

AS PROVAS MORAIS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
Estas provas, que são deduzidas da natureza moral do homem, são a prova social ou histórica, que se funda na universalidade da crença em Deus; a prova psicológica, que se baseia nas aspirações da razão humana, e a prova propriamente moral, deduzida da existência do dever.

É uma realidade: a humanidade, no seu conjunto, admite com unanimidade a existência da divindade; esta unanimidade supõe a verdade do seu objeto: logo, Deus existe. A unanimidade é provada pela História das Religiões: em toda a parte encontramos a idéia de Deus, sem que seja possível verificar como ela se formou; esta fé em um Ser Supremo é o fundamento da religião dos povos primitivos. A Escola Evolucionista inglesa, a Escola Etnológica católica, afirmam esta verdade. Este deísmo se encontra em todas as civilizações históricas: China antiga, Assíria e Babilônia, raças semíticas, Fenícias, Egípcias, e Indo-Européias. Se das massas humanas, passamos ao escol intelectual, veremos que a esmagadora maioria dos inventores das ciências positivistas adoravam a Deus. Pesquisa feita no século XX mostrou que só 4% dos cientistas eram ateus, os demais 96% eram crentes em Deus.

A universalidade da crença em Deus mostra a alma humana em sua busca da verdade, tentando apreender o que está encoberto sob as aparências, isto é, mostra a sua busca pela razão última das coisas, Deus. É uma realidade a tendência constante do homem para o infinito, com todas as forças de sua alma. É o amor do Ser Supremo, que nos é tão íntimo como a nós mesmos. A presença em todo o ser humano desta profunda aspiração é a prova psicológica da existência do Grande Geômetra, Deus.

A obrigação moral é uma realidade. Não somos moralmente livres para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa. O bem moral e a ordem moral, impõem-se como prioritários; só depois disso se apresenta a razão, para comprovar e sancionar determinada ação. Estamos todos submetidos a uma lei moral, que nos é imposta pela nossa vontade, e que não podemos abolir ou mudar. A essência da Moral consiste em preferir tudo o que é nobre, elevado e racional. A Moral estabelece a natureza e as conseqüências do Dever. Por estar sujeito à Lei do Dever, o ser humano é um ser Moral.

Cícero, orador e escritor romano, escreveu há mais de 2.000 anos: “A Moral é uma Lei comum a todos os homens. Ela é racional, impõe-nos a virtude e nos proíbe a injustiça. É uma Lei que não pode ser impunemente transgredida ou modificada. Nem o povo, nem os legisladores, nem os magistrados têm o poder de isentar das obrigações que ela nos impõe”.

Esta prova, fundamentada no dever é, juntamente com a prova das causas finais, a que mais impressionou Kant.

PROVAS METAFÍSICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
Estas provas vêm diretamente do raciocínio lógico, sem nenhum recurso à experiência. São elas: a prova ontológica, pela análise da idéia de perfeito; a prova cartesiana, pela origem da idéia de perfeito.

A prova ontológica é célebre na história da filosofia, pelas discussões a que deu origem. Esboçou-a S. Agostinho, porém foi S. Anselmo (1033-1109) que lhe deu a sua forma rigorosa. S. Anselmo começa a sua obra pelas palavras da Escritura: Não há Deus. E empenha-se em provar que negar a existência de Deus é uma loucura e contra-facção revoltante.

Todo o homem possui a idéia de um ser tão perfeito que não pode conceber outro melhor. Este ser existe, este ser é perfeito, este ser é Deus. Descartes disse: “Deus é o ser que possui todas as perfeições; a existência é perfeição; portanto, Deus existe”. Em vão Leibniz e Kant tentaram anular esta prova. Só conseguiram mostrar, mais uma vez, que o argumento ontológico é ineficaz para provar a existência real e concreta de Deus.

Eu duvido, diz Descartes; ora, duvidar é imperfeição, porque é muito melhor chegar à certeza sem passar pelo estado de dúvida. Portanto, sou um ser imperfeito. Mas, a idéia de imperfeito supõe também a idéia de perfeito, de que é a negação; isto porque, em todas as coisas, só se concebe a negação pela afirmação, – a obscuridade pela luz, a morte pela vida, a ignorância pela ciência, etc. Deste modo, diz Descartes, a idéia da imperfeição foi introduzida em mim por um ser realmente perfeito, Portanto, Deus existe.

Relanceando a vista sobre as provas concludentes da existência de Deus, verifica-se:

a) Que todas são a posteriori, isto é, todas partem da observação: existência do ser contingente, existência do movimento e da ordem, nas provas físicas; existência da crença unânime, da tendência irresistível, da obrigação indeclinável, nas provas morais;
b) Que todas as provas se estribam no princípio da razão suficiente; porque se limitam a estabelecer que estes fatos de ordens tão diversas não têm, nem podem ter razão de ser senão em Deus e por Deus.

Estas provas estão intimamente relacionadas entre si, completam-se umas às outras, e cada uma delas revela-nos Deus sob um aspecto diferente. Consideradas em si, as provas físicas levam à conclusão de que existe um Ser Supremo, distinto do universo, causa eficiente, matriz e ordenadora do universo visível.

Quanto a se saber se este Ser tão poderoso e tão inteligente é eterno, infinito, perfeito e absoluto, a resposta é totalmente positiva. Será este um ser moral, Será Deus justo e bom, em que a humanidade espera? A prova moral suprime esta última incerteza. A dificuldade de alguns em aceitar a existência de Deus reside em que nada há de absoluto em nosso conhecimento da criação, do mesmo modo que nada há de absoluto em nossa idéia sobre o Criador.

Não é necessário se perder no labirinto do desconhecido para chegar à certeza da existência de Deus. Nada de sistemas! A mais absoluta independência deve estar sempre presente na busca da verdade. O esforço do homem para conhecer o absoluto deve estar baseado no teísmo ontológico, o teísmo racional. O teísmo é a filosofia da busca da verdade, da busca de Deus. A razão do homem, em seu inevitável desenvolvimento e em seu divino amor pela liberdade, derruba todas as barreiras e se liberta dos obstáculos e dos conceitos preconcebidos.

Kant, na Crítica da Razão Pura, demonstrou que o homem está invencivelmente disposto a julgar reais os objetos de sua crença, ao passo que esses objetos são puramente subjetivos. Hegel adotou a grande máxima apregoada por Protágoras, que diz que “o homem é a medida de todas as coisas”, e ensinou que o Universo marcha para a perfeição. Esta tendência ao progresso não é explicada sem a existência de um pensamento diretor.

A escola que se intitula positivista, pela primeira vez resolveu o problema de construir uma religião atéia. Este sistema não deixou de adorar a um Deus. Este Deus é a humanidade, e Aguste Comte é o seu profeta. Em seus fundamentos, o positivismo/materialismo apregoa que “no princípio era o átomo, e o átomo existia por si mesmo, e o átomo é o primeiro gerador do universo”. Segundo os materialistas, Deus é tolice e é fraqueza: Deus é hipocrisia e é mentira; Deus é tirania e miséria; Deus é o mal. Em vez de chamar Deus à direção das forças que regem o universo, os materialistas ateus atribuem a inteligência Suprema à própria matéria.

São estes os que, em 1877, criaram a Summa Divisio na Maçonaria, ao retirar da Constituição e dos Rituais do Grande Oriente de França todas as referências a Deus, o Supremo Arquiteto do Universo. O primeiro dos cinco Princípios Fundamentais da nossa Ordem proclama a existência de um Princípio Criador, sob a denominação de Grande Arquiteto do Universo. Sábios foram os nossos antigos Mestres ao proclamarem este Princípio.

Por isso mesmo, o estudo de Deus e da Verdade, deve constituir um dos deveres do Maçom. Sem o estudo deste tema transcendental, o maçom se arrisca a bloquear o seu aperfeiçoamento moral e espiritual. Elifas Levi disse em sua Historia da Magia que “o sábio apóia-se no temor do verdadeiro Deus, enquanto que o insensato é esmagado pelo medo de um falso deus, feito à sua imagem”. Deus é a Luz. Caminhemos para ela.

Bibliografia
Kant – Crítica da Razão Pura
Hegel – Enciclopédia das Ciências Filosóficas
Descartes – Discurso do Método
Anaxágoras de Clazômenas – Doxografia
Camillo Flammarion – Deus na Natureza
Aristóteles – Metafísica
Augusto Comte – Curso de Filosofia Positiva
Tomás de Aquino – Compêndio de Teologia
Valério Alberton – O Conceito de Deus na Maçonaria
Nicola Aslan – Dicionário de Maçonaria Simbólica
Leibniz – O Conhecimento
Platão

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


O PODER DA PALAVRA E AS PALAVRAS SAGRADAS NA MAÇONARIA

“ Disse Deus: Faça-se a Luz, e a Luz se fez.”

Ao abordar, ainda que timidamente, o tema do poder da palavra, me deparo com a história da Criação, com os muitos mistérios contidos nos símbolos, passo pela abordagem ocultista dos campos de vibração e simultaneamente com a eficácia dos rituais, meto-me na tradição do longínquo Oriente e suas formas manifestas através dos mantras, vindo pouco a pouco a entender um pouco mais das palavras sagradas na Maçonaria Cósmica.

Talvez seja impossível, para nós Ocidentais, iniciar um pequeno estudo que seja, sobre o poder da palavra sem nos remetermos imediatamente ao “Fiat Lux” contido no Gênesis. E começo pelo Fiat Lux porém não posso parar por aí. Para aqueles, fiéis ou estudiosos do Antigo Testamento, o Gênesis, do início ao fim, trata de um diálogo, conversa, entre o Deus Manifesto (GADU) e seus agentes.

A Obra da Criação, de forma alguma é realizada no silêncio absoluto, senão que este silêncio primordial, é o pano de fundo que possibilita ouvir a Voz do Criador, do Geômatra. Note que, a única Voz é a de Deus sendo que Ele manifesta a criação através de algo (Elohim) além dele próprio, senão que sentido haveria em dizer: Faça-se a Luz, Ele simplesmente pensaria a criação e ela estaria criada. E não haveria ruído algum…

Posso tentar entender isto da seguinte forma:

  1. O pensamento (vibração potencial) necessita ser Verbalizado (vibração dinâmica) caso contrário não existe a Manifestação.

  2. A verbalização, para que possa ser entendida, necessita de quem A Escute. A Primeira atitude do Criado portanto, é Escutar.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Nesta passagem retrata-se a possibilidade, o potencial porém, efetivamente nada havia sido realizado. O Verbo só pode manifestar-se no momento da Diferenciação Divina, onde o Um torna-se Dois e neste instante materializa-se. Concluo que, a verbalização é o ato de Criar e nele, neste processo, existe um Emissor e um Receptor. Sem os Dois, o Um não Verbaliza e portanto nada Cria.

Seguindo pelos campos da Vibração, rememoro o poder contido nos símbolos sagrados.

Os antigos, sabedores que eram do imenso poder contido na Palavra e, à fim de, por um lado, levar aos profanos a Sabedoria Divina e, por outro, velar as palavras para que não pudessem ser utilizadas de maneira leviana, criaram os símbolos.

Em linhas gerais, os símbolos são representações (vibração) de grandes verdades e possuem um poder oculto (vibração) que é manifestado pelo Iniciado através do uso de palavras adequadas. Todo e qualquer Rito, utiliza-se dos símbolos, formas brandas do verdadeiro conhecimento e mais, se mantiveram mais ou menos intactos o porquê deste uso dos símbolos, utilizam-se das palavras e tons adequados gerando grande energia e Poder.

Muito comum, por exemplo, o uso do tom “Fá” nas Orações e Preces.

Os rituais, símbolos e signos que são, do Poder do Mais Alto, têm sua eficácia garantida quando, através de postura adequada, palavras certas e tom apropriado revivem à luz do dia. Aliás, talvez existam poucos exemplos mais belos e antigos do que os mantras do hinduísmo ou bramanismo. Estes constituem-se em verdadeira chave de poder, induzindo à um estado de consciência em particular e desenvolvendo características no estudante ou devoto.

Os Mantras, fórmulas repetitivas, justamente unem em si 3 elementos formidáveis: a vibração, a repetição da vibração e a atitude mental. Com eles, pode o ser humano retrabalhar inclusive traços do que considera “seu jeito de ser” e que na verdade se trata apenas de sua personalidade corrente. Atualmente, os mantras são utilizados largamente em muitas escolas e/ou religiões, com outras palavras diferentes. Não obstante, o uso de palavras antigas terem uma eficácia fantástica, podemos utilizarmo-nos de, por exemplo, uma curta oração que atinja nosso coração e enleve nossa alma e repeti-la, bem baixinho, na nota “Fá” durante algum tempo. O efeito ao longo do tempo será sem dúvida maravilhoso.

A Maçonaria, talvez mais do que qualquer outra Ordem, possui em sua essência e formação a Palavra e a Divina Vibração oriunda dela.

Na História que conta a morte do Mestre Hiram, os assassinos, os profanadores, tentaram tomar-lhe, à todo custo, a Palavra. Mestre Hiram morreu ao que parece sem revelá-la. Notemos aqui o Poder de quem detém a Palavra e, a angústia daqueles que fracos de caráter, nunca poderão obtê-la. E não podendo obtê-la (pois na verdade não sabem onde procurá-la) desejam matar quem a detém. Morre porem o detentor da Palavra, mas nunca a Palavra!

Nesta história, o Mestre de Todos os Maçons, cioso do poder da Palavra, deu-a como Perdida e recria o Mito de posse de outras palavras, mais humanas, mais comuns. Lembremos que, nossa mística missão é recuperar a Palavra Perdida e dá-la, neste novo ciclo que ora inicia-se à verdadeira Humanidade.

Outro exemplo da cerimônia que encerra a Palavra na real Ordem, é o Ritual de Instalação da Loja que antecede todas as nossas sessões. Do Venerável, guardião do Delta Luminoso, emana a Palavra que, de Irmão em Irmão, por ele designado, chega até o Segundo Vigilante que retorna aclamando: “Tudo esta Justo e Perfeito”. Só após isso é que o Venerável invoca o Grande Arquiteto do Universo pois a Palavra criou “o pano de fundo” apropriado à um trabalho de Ordem Superior.

O uso dos malhetes e sua peculiar vibração também é exemplo de Palavra e Poder. Desta feita, a palavra não é dita com os lábios mas sim, vibradas nos ritmos apropriados do “bater dos martelos”.

A Palavra de Passe do Grau 2, por outro lado, cumpre 2 funções, sendo a primeira e mais importante, a de criar, sonoramente, uma certa predisposição mental no Irmão que a profere e, em segundo lugar por sua peculiar forma de ser pronunciada remete-nos ao Livro dos Juizes, no Velho Testamento, na Batalha entre os Efraimitas e os Galeaditas.

Inúmeros são os exemplos que aqui poderíamos colocar, porém exigem outro espaço em outro momento.

O importante e fundamental é termos claro que a vibração tornada palavra torna o Mundo que conhecemos tal qual ele é. Vejam só a nossa imensa responsabilidade. Sem dúvida, por isto mesmo, é que a primeira Lei Oculta seja: Calar e Escutar.

MARCELO MARSIGLIA SIDOTI
M.’.M.’., Loja Ypiranga 83 – Cruz da Perfeição Maçônica, Brasil


O LIVRE ARBÍTRIO

A vontade quer o bem. Mas os bens deste mundo são muitos, são imperfeitos e são diferentes; a vontade pode escolher entre eles: daí o livre arbítrio de que é dotado o ser humano. Em geral, a liberdade é o poder de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Estar livre é estar isento de vínculos; daí, serem tantas as formas de liberdade quantos são as espécies de vínculos, que podem ser classificados em físicos e materiais, que forçam à inércia ou ao movimento, e em morais, que prescrevem certos atos e proíbem outros, sem tirar ao homem o poder de os omitir ou de os executar; estas, são as leis e as obrigações, ou deveres. O maçom precisa ser não só livre de vínculos, mas precisa também ser de bons costumes.

O livre arbítrio é o poder que tem a vontade de se determinar por si mesma, por sua própria escolha, a agir ou não agir, sem ser constrangida a isso por força alguma, externa ou interna.

Assim, entre dois ou mais pensamentos que nos solicitam em sentidos opostos, o livre arbítrio decide qual deles seguirá. Do mesmo modo que, em um litígio, as partes recorrem a um árbitro, assim também atua o livre arbítrio, que decide em favor de uma ou de outra parte.

Ele – livre arbítrio – é prerrogativa essencial do ser humano; a violência pode privá-lo da liberdade física e a autoridade pode restringir a sua liberdade moral; no entanto, o seu livre arbítrio está acima de tudo; enquanto conservar a razão, ele será sempre livre para querer ou não querer.

AS PROVAS MORAIS
As provas morais da existência do livre arbítrio baseiam-se no fato da obrigação e da responsabilidade (o remorso e o mérito são conseqüências da responsabilidade).
Com efeito, só nos sentimos moralmente responsáveis pelos atos de que somos a causa livre, isto é, pelos atos cuja execução – ou não execução – só dependem de nós. Os atos de que não podemos nos abster, podem se constituir em motivo de alegria ou de tristeza, mas não serão motivos de remorso ou de insatisfação moral.

AS PROVAS SOCIAIS
Todas as sociedades possuem sanções que têm por objeto a recompensa ou a punição de certos atos. O castigo só é justo, e a recompensa só é lisonjeira, quando são merecidos; por sua parte, o mérito supõe o livre arbítrio.

Leibniz e os deterministas não admitem esta prova. Para eles, o castigo se justifica como meio de defesa para a sociedade e como meio de intimidação para aqueles que pensam em prejudicá-la. Leibniz conclui que os castigos e as recompensas seriam justificados, ainda que as ações do homem fossem motivadas pela necessidade.

O livre arbítrio se demonstra também pelas promessas e pelos contratos, por meio dos quais os homens se comprometem mutuamente a cumprir certos atos em determinadas circunstâncias. É evidente, com efeito, que não podemos nos comprometer com antecipação a um ato, se não estivermos certos de que esse ato depende da nossa livre vontade.

A PROVA METAFÍSICA
O homem não conhece somente os bens particulares e concretos; por meio da razão, graças à noção abstrata do bem, eleva-se à noção do bem absoluto, no qual não existe o mal. Deste modo, a escolha fica restrita a bens particulares que se opõem, mas que sempre são bens, ainda que de outra ordem.

Assim, o ser humano se encontra sempre em presença de uma ou outra escolha, e a indeterminação da sua vontade mantém-se até ele a quebrar, decidindo-se por um ou outro bem; nisto consiste precisamente o livre arbítrio. Exposta a natureza do livre arbítrio, demonstrada a sua existência, resta conhecer um pouco os sistemas que o rejeitam.

O DETERMINISMO
Determinismo é todo o sistema que nega o livre arbítrio, e afirma que o homem está submetido a certas influências. Chama-se Fatalismo à forma especial de determinismo, que atribui todos os nossos atos voluntários a uma causa transcendente, superior a toda a regra.

As teorias deterministas podem reduzir-se a três tipos: o Fatalismo Teológico, que se fundamenta nos argumentos da natureza de Deus; o Fatalismo Científico, que se baseia nas leis gerais do mundo; e o Fatalismo Psicológico ou Fisiológico, que se baseia nas leis da natureza humana.

O FATALISMO PANTEÍSTICO
É evidente que todo o sistema panteísta leva à negação do livre arbítrio. Esta espécie de fatalismo refuta-se do mesmo modo que o panteísmo em que se origina, pela consciência da nossa livre personalidade.

O panteísmo é a teoria que afirma a identidade substancial de Deus e do mundo, isto é, Deus e o mundo são uma só e a mesma substância, considerada sob diversos aspectos.

Na história da filosofia o panteísmo aparece sob duas formas:

a) O Panteísmo naturalista, que absorve o infinito no finito, Deus no mundo, e tende assim ao materialismo e ao ateísmo.
b) 0 panteísmo idealista, que absorve o finito no infinito, o mundo em Deus, e leva ao puro fenomenismo. Também neste caso, o ateísmo é a alternativa.

FATALISMO TEOLÓGICO
Segundo este fatalismo, Deus, inteligência infinita, conhece, desde a eternidade, os nossos futuros atos. Como diria um muçulmano, Maktub – estava escrito e determinado por Deus no livro do destino. Esta teoria não se sustenta, porque Deus não está submetido à duração sucessiva do tempo, porque nem o futuro nem o passado existem para Deus, mas tão somente o presente eterno, o qual, na sua indivisível simplicidade, abraça todos os tempos passados e futuros. Assim sendo, Deus não prevê o que sucederá; Ele vê o que existe, como existe, e porque existe. Deste modo, sendo a presciência divina e a liberdade humana duas verdades igualmente certas, nada autoriza a negação de nenhuma destas verdades.

O LIVRE ARBÍTRIO E O DETERMINISMO UNIVERSAL
É princípio fundamental que os fenômenos estão unidos entre si por meio de relações necessárias, de modo que cada um deles tem a sua razão necessária e suficiente naquele que o precede. Isto não se verifica no ato suposto livre, que é, por definição, um fenômeno que não está ligado – necessariamente – a nenhum dos seus antecedentes.

Considerando que a vontade, colocada sucessivamente em circunstâncias idênticas, pode tomar decisões opostas, conclui-se que o ato livre não está em oposição ao princípio de causa e efeito.

O LIVRE ARBÍTRIO E A CONSERVAÇÃO DA ENERGIA
Nada se perde e nada se cria na natureza; não existem senão transformações, princípio este que se aplica às forças e às substâncias. Se é verdade que esta lei se aplica no domínio da física e da química, o mesmo não acontece no domínio da atividade livre. A decisão livre em si mesma, como força imaterial, escapa à lei da conservação da energia; a força corporal necessária à execução da vontade, já existe nos músculos do corpo e se alimenta pela nutrição; O papel da vontade livre se limita a dirigir, neste ou naquele sentido, a transformação destas forças.

O DETERMINISMO FISIOLÓGICO
O determinismo fisiológico diz que os atos voluntários são apenas as reações do organismo, que resultam das influências exteriores. Neste caso, a vontade nada mais é do que a resultante de todas as forças que atuam sobre o ser humano. E se os homens não atuam todos do mesmo modo é porque são diferentes em sua conformação. Assim pensaram Cabanis, Broussais, Taine, e todos os materialistas.

A verdade é que, pela reflexão, o homem tem o domínio de si mesmo, e a sua vontade conserva sempre o poder de resistir aos incitamentos, quaisquer que sejam eles. Para o determinista fisiológico, a virtude se confunde com um temperamento sadio, e o vício se confunde com a doença. Esta teoria materialista suprime a moral por completo.

O DETERMINISMO PSICOLÓGICO
Este sistema, desenvolvido por Leibniz, afirma que as decisões da vontade são sempre determinadas por um forte motivo. Segundo Leibniz, a vontade é uma atividade inteligente, e nunca se decide sem um bom motivo. Neste caso, se uma decisão é tomada tendo por base um forte motivo, então esta decisão não é tomada livremente, segundo o princípio do livre arbítrio.

A verdade é que nem sempre se faz o que se julga ser o melhor. A consciência nos diz que uma decisão não é função de um impulso, mas sim o resultado de um ato livremente praticado. Leibniz andou longe da verdade quando comparou a vontade a uma balança, que pende sempre para o lado que estiver mais pesado. Sem dúvida, a decisão consiste em pesar os motivos; mas não se pode esquecer que esta operação é da inteligência, cujos juízos são determinados pela evidência. Mas não é por isso que a vontade fica menos senhora de suas decisões, apesar do atrativo mais intenso do prazer, do conselho mais ajuizado do interesse, ou da ordem mais forte do dever. É precisamente nisto que consiste o livre arbítrio.

Concluindo, pode-se dizer que o livre arbítrio é uma faculdade da vontade humana, e da sua capacidade de escolher entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. O livre arbítrio consiste em escolher entre os impulsos dos desejos, os cálculos do interesse, e as idéias da razão. É, assim, a condição da moralidade, que quer o bem pelo próprio bem. Passível de variações de pessoa para pessoa, o livre arbítrio varia de acordo com o desenvolvimento da reflexão e do domínio que o homem possa ter sobre os seus apetites e os seus desejos. Ele é mais forte na idade madura do que na infância, pode ser aperfeiçoado, mas nunca suprimido pelo temperamento, pelas paixões, pelo caráter ou pelos hábitos, que são os princípios das virtudes e dos vícios.

Em síntese, o livre arbítrio é a principal ferramenta que o maçom precisa usar no desbaste da Pedra Bruta, no seu aperfeiçoamento como ser humano, na subida da Escada de Jacó, na busca do Eu Superior, o Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia
Descartes
Hobbes
Kant
Leibniz
Locke
Spinoza
Schopenhauer

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


O JURAMENTO E ALTAR SAGRADO

Para enfrentar o tema, temos que definir o que é juramento e o que é o Altar onde se jura. Podemos fazer uma analogia grosseira com um contrato. Um contrato sempre é bilateral, isto é, tem duas partes, o sujeito ativo e o sujeito passivo, e é a manifestação DA vontade não viciada de ambos, exteriorizando , a intenção DA realização de um negócio, que gera um compromisso, onde OS interesses se cruzam : um de vender e outro de comprar.

No direito Romano o termo “pacta servanda” é o que designa a responsabilidade contratual, ou por outras palavras, informa que o contrato faz Lei entre as partes e só poderá ser alterado, com a autorização de ambas as partes. O altar dos juramentos é o lado visível, de um outro lado invisível, onde celebramos um contrato espiritual com Deus, por assim dizer, comprometendo-nos, em presença de testemunhas, em não profanar as instruções, rituais, sinais e etc., neste ponto já podemos visualizar a bilateralidade do juramento. O altar é equivalente às ermidas sagradas das religiões, e seu significado primitivo e contemporâneo é uma estrada já pavimentada pelos antigos caminhantes, que conduz a transcendência subjetiva, que leva o viajante à realidade ou Deus e a obra de Deus que é o mundo, através do despertar espiritual ou consciência de is mesmo ou ainda a consciência DA alma, progressivamente. A legalidade que buscamos no altar é espiritual e a importância do juramento advém dos cânones sagrados, deixados por mentes superiores, para a humanidade, como fossem um holofote, iluminando uma platéia escura.

Um juramento é muito mais importante que um contrato, sem , todavia perder seu caráter formal, legal , vinculante e bilateral, FORMAL porque exigem certos ritos, LEGAL porque são baseados em cânones sagrados e na tradição e VINCULANTE, porque comprometem e vinculam, mas OS vínculos aqui, transcendem o mundo físico, pois além de envolver conscientemente um compromisso físico, envolve um compromisso mental, psíquico e espiritual, estabelecendo um vinculo definitivo e envolvente que não pode ser rompido, pois sendo BILATERAL, compromete o próprio Senhor do Universo, respeitosamente designado aqui, com muita justiça, como Supremo Arquiteto do Universo. Mesmo porque, esta escrito, que o que ligarmos, na terra, será ligado no céu, e o que desligarmos na terra, será desligado no céu, compreendendo-se a princípio, que este céu, pode ser, a mente do homem singular e coletivo, para depois haver um transbordamento para a mente Cósmica. Este é o principal fundamento bíblico-legal e espiritual do juramento. Quando Jesus disse : “amigo, com um beijo atraiçoas o filho do Homem”, Judas caiu em is, acordou de seu sono, dormia no ego e acordou no EU desperto, só então viu o que fez, e não teve mais Paz, a vaidade , o egoísmo e a ambição exarcebados de seu ego, lhe custou à vida, tirada por suas próprias mãos, dado o desgosto que lhe sobreveio e com o qual não podia conviver.

A traição e o perjúrio podem levar , o que não é raro, ao que assim se comporta, a um grau de arrependimento e sofrimento tamanho, que, não diferente de Judas, muitos acabam direta ou indireta, preferindo de livre consciência e por is mesmos, à morte, à vida, tamanha a vergonha DA desonra, e a impossibilidade de conviver com a mesma, ou de perdoar a is próprio, mesmo obtendo-se o perdão do ofendido. Sabendo disso o rei dos Mestres, instruiu o homem ordinário a não jurar. No livro de Thiago em 5-12, lemos: “Mas, sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem façais qualquer outro [juramento]; seja, porém, o vosso sim, sim, e o vosso não, não, para não cairdes em condenação.” Efetivamente, advertiu Jesus, como vimos acima, que um juramento não deve ser quebrado, se feito, instruindo inclusive a todos para que não jurem, para não caírem em condenação, se quebrado o juramento, não condenem a is mesmos, como aconteceu com Judas.

Extrai-se do texto e DA conjuntura das escrituras, que queria exprimir o Mestre, que é mais fácil não jurar do que jurar, pois o juramento, se quebrado, pode levar a condenação. Jesus mais do que ninguém, sabia do que estava falando, sabia que um juramento envolve leis naturais e espirituais ou psíquicas, que pouco conhecemos, por isso, instruiu para o não jurar. A instrução de Jesus, conforme a letra e a hermenêutica bíblica, de acordo com a lógica do novo testamento e sua conjuntura, sintonizadas no velho testamento, não é uma proibição, é antes uma advertência seriíssima , uma exortação e um grave alerta sobre a importância espiritual ou mental, do juramento: como um sinal de transito, numa estrada perigosa.

Conhecendo antecipadamente, OS reflexos e conseqüências graves, se quebrado. Judas Scariotes, apesar de homem de personalidade forte, com excelente formação educacional e moral , tendo estudado nas melhores escolas, Rico de nascença, criado sob o regime DA lei mosaica, escolhido de Jesus, quebrou o juramento e traiu o maior dos Mestres. Porque o fez? Por designo Cósmico ? Por ambição pessoal, já que lucrou 30 moedas de prata? Por motivos políticos? Por afastar-se dos irmãos ? Por possuir uma imaginação descontrolada? Porque se permitiu cair em tentação ? Ao certo não sabemos! Mas sabemos que não pôde conviver, com a sua traição, já que o assassinato de Jesus, estava tramado e seria simplesmente uma questão de dias. E mais, Não foi ele, Judas que o matou.

Existem estudiosos que dão a entender, que Judas não tinha a intenção de trair Jesus, mas sim de precipitar os acontecimentos, na intenção de ver Jesus defender-se no Sinédrio, com obras milagrosas e tornar-se reconhecido em definitivo como o tão esperado Messias ou mesmo o Rei do povo hebreu. Porém os fatos não se realizaram conforme seus planos, Jesus deixou-se sacrificar, em cumprimento aos designos Cósmicos. De toda forma, tendo usado seu livre arbítrio, precipitando os fatos, baseado num plano, sonho ou delírio, sempre IMPRUDENTE do ego, e não do Eu, Judas, com a escolha errada, deixando-se dominar pelo ego e não pelo EU, traiu de fato Jesus e, não suportou o fato desonroso e altamente humilhante de não ter ouvido seu Eu verdadeiro e usado da VIRTUDE DA PRUDÊNCIA, principalmente por isso suicidou-se, não podia superar ou conviver com sua desonrosa covardia – pelo que consta, tentou em vão perdoar-se, devolvendo inclusive, as 30 moedas, mas não conseguiu.

Pessoas existem, que ficam doentes e até não raro, vêem a falecer, por doenças psicossomáticas ou até, suicidam-se, por contratos celebrados no mundo profano. Sabemos que um juramento é muito mais que um contrato profano. Jesus, como sempre estava certo, é mais fácil, não jurar do que jurar. Como legislador que foi, Jesus , não proibiu o juramento, senão o teria expressamente feito. Para não fiquem dúvidas no espírito dos irmãos maçons, que aceitam o cristianismo, como é o meu caso, sobre a questão do juramento e a legitimidade de seu uso, aqui, como juramento maçônico – a própria igreja Católica, em seu catecismo permite o juramento declarando : , “Não jurar nem pelo Criador, nem pela criatura, se não for com verdade, necessidade e reverência”.

Na verdade, irmãos, o Nosso Senhor Jesus Cristo, confirmou sob juramento o seu testemunho supremo, isto é, o testemunho de sua Filiação Divina, quando o Sumo Sacerdote o conjurou a responder “pelo Deus vivo” (Mt 26,63). Por isso a Igreja declara ser lícito o juramento em assuntos de grande relevância. Daí a licitude bíblica dos juramentos: a bandeira, dos juramentos de formatura, de investidura em cargos públicos , o que não exclui o tradicional juramento maçônico. Tal prática é comum no Ocidente.

Ele – Jesus – instruiu, alertou e advertiu, que é melhor não jurar, porque sabia que a juridicidade do juramento não é da legislação profana, mas sim da lei natural transcendente, conforme vimos acima. A natureza do juramento é sempre subjetiva e espiritual. O juramento maçônico é perfeitamente fundamentado no direito natural, sendo absolutamente legítimo, em nada ilícito, em nada conflitante com a Bíblia, ou com qualquer outro livro considerado santo ou sagrado.

Na mesma ordem e para finalizar, a maçonaria é uma instituição que não conflita com qualquer sistema filosófico, místico, espiritual, religioso , psicológico, sociológico ou legal, fundamentados na razão e aceitos modernamente, como dignos ou mesmo razoáveis.

Usamos a régua maçônica avaliamos o lado negativo do juramento, que não deve ser desprezado. E se existe um lado negativo, haverá de existir um lado positivo, a régua maçônica assim nos diz, ela continua infinitamente para frente, Conforme vimos, a maçonaria é uma instituição perfeitamente licita e limpa, sendo uma das melhores , mais antigas e belas construções do cenário social, por conseqüência é uma das melhores obras humanas, para o exclusivo benefício da humanidade. A régua maçônica mostra-nos ainda um lado que nos leva a amizade, a paz e a prosperidade, por outras palavras, ao sucesso, ao bem estar, ao progresso, a proteção , a felicidade e porque não, até a iluminação se assim o quisermos.

Devemos procurar descobrir o lado positivo do juramento maçônico, isso exige esforço, construindo o templo interior, compenetrando-nos no estudo, e ao mesmo tempo, captando o espírito maçônico, transformando-nos pelo SABER – estudando sempre ; OUSANDO pelo FAZER o possível – o bem a nós mesmos e ao próximo; e CALANDO-NOS – quanto aos nossos segredos, tornamo-nos verdadeiramente , em benfeitores de nos mesmos , de nossas famílias, de nossos irmãos e de nossas cidades e países, sabendo separar o possível do impossível, e o primeiro passo desse caminho é envidar esforços sérios, seguidos de mais esforços, para vivermos no Eu e não no ego, só assim poderemos então ser dignos do “nomem” filhos da luz.

Bibliografia:
Bíblia Sagrada – Tradução do padre João Ferreira D”Almeida
Biblia Sagrada – Versão Ave Maria
Catecismo Católico
“O Quarto Caminho”, P. D. Ouspenski – Ed. Pensamento
“Glossário Teosófico”, Helena Blavatski – Ed. Pensamento
“O Drama Milenar do Cristo e Anticristo”, Humberto Rohdem- Ed. Alvorada
“A Mensagem Viva do Cristo”, Humberto Rohden – Ed. Alvorada
Código Civil Brasileiro – Atual – ed. Saraiva
“Vocabulário Jurídico”, Placido e Silva – ed. Forense
“Valores Humanos Num Mundo em Mutação”, Daisaku Ikeda e Bryan Wilson – Record
“O Buda Vivo”, Daisaku Ikeda – ed. Record
“A Vida de Maomé” – Círculo do Livro

MIGUEL AMADOR
M.’.M.’., Loja Rui Barbosa 3419 – Sinop/MT, Brasil


MEDITAÇÃO TRANSCEDENTAL

Os mantras tradicionais, a oração das rosas, como também a recitação do rosário ou terço (esta particularmente é a melhor) ou outra oração já pavimentada (em uso a muito tempo neste mundo, tais orações são como uma estrada já pavimentada ), tais praticas faz bem a você e aos outros.

Funciona em primeiro lugar como um pedido, em segundo lugar como um ANTIVIRUS: traz alívio e confiança; limpa o espírito. Sabendo claramente o que você quer, o complexo de repetições dessas orações , faz fixar no subconsciente sua intenção, pedido, plano,projeto ou visualização, seja: faz seu subconsciente fotografar sua visualização. Isso, sem descartar a ajuda espiritual das hostes Cósmicas. O fato é que o subconsciente ( que num certo sentido, esta ligado ao Cósmos ou a Deus ) com esse complexo de repetições, FICA mais dócil ao recebimento DA visualização.

A entrega total DA visualização, ao subconsciente ou a Deus ou a Santa, lhe trará a vitória total, por isso, quando visualizar algo e entregar ao Cosmos não pegue de Volta. Quando surgir dúvida ou pensamentos desafiadores ou de fraqueza firme-se no sentido de que sua visualização foi entregue ao Cosmos e que o Cosmos esta providenciando, tudo esta no departamento Cósmico competente, não é mais problema seu é do Cosmos (Seja: apreenda a confiar (fiar com; isto é a trabalhar com Deus), isto vai fazer sua fé ( sintonia ou intimidade com Deus, se desenvolver). Quando fizer uma oração ou visualização, esta não pode ser egoística, diga-se, não pode ser feita somente para você, visualize ou reze ou ore para mais alguém, diga-se, inclua outros, conhecidos ou, desconhecidos na sua oração, e entregue-a juntamente com a sua, ao Cósmico, isto porque, quem esta a serviço de Deus, total ou parcialmente aqui neste mundo, não tem petições negadas “se Deus é por nós, quem será contra nós…” é uma coisa bíblica, mística e que de fato traz resultados imediatos.

Particularmente eu durante o dia, quando passo em frente de um bar, visualizo aqueles alcoólatras inveteredosou que caminham para isso, definitivamente curados, mentalizando: Deus lhes ajudem; quando vejo um mendingo, visualizo ou faço a prece: Deus te Ajude; Quando vejo pobreza , miséria, visualizo suprimento, com a prece Deus OS ajude, quando vejo doença visualizo cura e repito a prece: Deus o Ajude; quando vejo desarmonia visualizo harmonia, mentalizando Deus OS ajude, desejando sinceramente isso, dessa forma ou de outra , você se coloca ainda mais a serviço de Deus aqui neste plano.

Minha técnica, para entregar uma visualização ou prece particular ao Cosmos ou a Deus, sempre acrescento outra não egoística além DA minha (tipo : Deus ajude DA forma correta , necessária e justa a todos aos quais orei, contatei ou simplesmente vi durante este dia), faço o seguinte: imagino-me com uma petição na Mão,vou ao departamento de protocolo do Cósmico (como se fosse uma central de protocolo de uma repartição publica ou privada ) lá, um visualizo um anjo que imediatamente, recebe minha petição, imagino ele pegando, com suas mãos poderosas, minhas petições ou pedidos e ato continuo registra-a numa maquina ou livro de protocolo.

Uma vez entregue ou recebida a petição, não é mais problema meu, é problema do Cosmos, sei que essa petição foi devida e urgentemente encaminhada ao departamento competente, que tomará todas as providencias para seu cumprimento, firmando-me neste pensamento, não pego de Volta meus pedidos ou petições, já não é mais problema meu, transferi-o para a competência ou jurisdição Cósmica e uma vez que esta devidamente encaminhado, resta a mim confiar, na certeza de que será atendido na medida de meu merecimento ou por misericórdia.

Desse momento em diante, passo a parte pratica, na certeza do apoio espiritual, isto é, vou fazer a parte que me compete: esforços, seguidos de mais esforços sérios, no sentido de buscar aquilo que visualizei – vou a luta. Também é importante ir a um culto ou a missa, pelo menos uma vez por semana, a egregora DA Igreja Católica é reconhecida por todos OS místicos e sábios, como a mais poderosa do mundo, além de receber lá vibrações ( tratadas por OOUSPENSKI no “O quarto Caminho” e outros grandes autores também como INFLUENCIAS “C” , que são, eminentemente essenciais a vida e ao Progresso, pois: “ nem só de pão, vive o homem…” . A ORAÇÃO diária, para is e para OS outros e A PARTICIPAÇÃO DA MISSA OU CULTO semanalmente, juntas, funcionam também como: defesa contra correntes psíquicas e espirituais, é isto que significa estar em dia com suas orações, o que também é bíblico… “ velai e orai…”.

Daniel o bíblico rezava, orava ou meditava 3 vezes por dia (de manhã ao se levantar, ao meio dia e antes de dormir), por isso, foi jogado na cova dos leões e nada lhe aconteceu, mas seus inimigos foram trucidados, por esses mesmos leões. Independentemente de sectarismo religioso, pois todas as religiões tradicionais são boas e levam ao Criador ou G.:A.:D.: U.: , elaborei o texto como Cristão, mas pode ser praticado e adaptado por adeptos de qualquer religião, ou até mesmo por alguém sem religião, tratando-se de praticas saudáveis, que nada tem a perder para a meditação transcedental .

O que ficou consignado acima, sobre o complexo de repetiçoes de uma oração, como a recitação do rosário ou terço diariamente, é que, para os que acreditam em Deus funciona, e da mesma forma, funciona para os que não acreditam, pois repito, para não afirmar para os agnósticos que trata-se de meditação transcedental, afirmo que a técnica da recitação do terço católico diariamente, é igualzinha a meditação transcedental, onde recita-se diarimanete um mantra : tipo “om mani padmi um” e trás os mesmos efeitos: nos torna , mais atentos, mais inteligentes , mais produtivos ,mais competitivos, mais confiantes, mais calmos, melhores pessoas e mais humanos, trazendo ainda grande alívio, como disse de começo, é igual a passar um ANTIVIRUS em você mesmo, e este software é de graça.

Aproveite quem puder.

MIGUEL AMADOR
M.’.M.’., Loja Rui Barbosa 3419 – Sinop/MT, Brasil


HUZZÉ

A palavra HUZZÉ tem origem hebraica, embora em árabe seja pronunciada “HUZZA”, para os antigos árabes ‘HUZZA” era o nome dado a uma espécie de acácia consagrada ao sol, como símbolo da imortalidade, e sua tradução significa força e vigor, palavras simbólicas que fazem parte da tríplice saudação feita na Cadeia de União: Saúde, Força e Vigor. Na Inglaterra a aclamação “HUZZÉ” tem a pronúncia UZEI, tomada do verbo TO HUZZA (aclamação) como sentido “viva o rei”.

Significados:

  • No pequeno Vademecum Maçônico do Ir.´. Ech Lemos: “Houzé” – Grito de alegria dos maçons do rito escocês .

  • No dicionário de maçonaria do Ir.´. Joaquim Gervasio de Figueiredo: Houzé – Grito de aclamação do maçon escocês.

  • No dicionário maçônico do Ir.´. Rizzardo da Camino, Huzzé é apresentado como uma corruptela de HUZZA, que seria a expressão de alegria e louvor usada pelos maçons ingleses traduzida por “viva”.

  • Biblicamente, HUZZÉ era o nome de uma personagem.

Pronúncia:
Deve-se pronunciar “HUZZÉ”, dando ênfase ao som da letra “H”, a qual exige um sopro mais forte, e “ZZÉ” como afirmação, como que solfejando um Dó bem longo e terminando em Fá, tendo a sensação de estar passando do escuro da noite para o alaranjado da manhã, da dúvida para a certeza, da angústia para serenidade.

Em maçonaria, HUZZÉ é uma exclamação, e como tal, deve ser clamada com um sopro forte, quase gritado, em dois sons, para que possa ser respeitada a harmonia musical do vocábulo, a fim de que se conserve todo efeito esotérico desta saudação ao GADU.´., significando que Deus é sabedoria, força e beleza. HUZZÉ, HUZZÉ, HUZZÉ, ou seja, salve o GADU.´. , salve o GADU.´. , salve o GADU.´.

O valor do HUZZE está no som, a energia provocada elimina as vibraçõesw negativas. Quando em Loja, surgirem discussões ásperas e o V.´.M.´. receiar-se que o ambiente posssa ser ‘perturbado” suspenderá os trabalhos, e comandará a expressão HUZZÉ, de forma tríplice, reiniciando os trabalhos, o ambiente será outro, ameno e harmônico.

Dentro de Loja, o V.´.M.´. comanda no início dos trabalhos a exclamação HUZZÉ, que deve ser pronunciada em uníssono. Essa exclamação prepara o ambiente espiritual, afastando os resquícios de vibrações negativas trazidas para dentro do templo pelos IIr.´.

Ao término dos trabalhos é exclamado para “aliviar” as tensões surgidas. Toda liturgia maçônica compreende os aspectos místicos, físicos e psíquicos.

O HUZZÉ que provoca a expulsão do ar impuro, substituído pelo “Prana” que se forma no Templo, harmoniza o ambiente numa escala única, num nivelsalutar, capacitando o maçon para receber em seu interior os benefícios da Loja.

Quando um maçon é solicitado a exclamação o HUZZÉ que o faça conscientemente para obter, assim, os resultados mágicos dessa manifestação física de seu organismo, portanto deve ser aprendida e ensinada, para que possas ser exercitada com Sabedoria Força e Beleza.

Bibliografia:
“Simbolismo do Primeiro Grau” – Rizzardo da Camino
Bíblia – Livros 2 – Samuel, cap. 06
“Dicionário Maçônico” – Rizzardo da Camino
“Dicionário da Maçonaria” – Joaquim Gervasio de Figueiredo

MANOEL JÚNIOR
C.’.M.’., Loja Verdadeiros Amigos – São Paulo/SP, Brasil


HERMES TRISMEGISTO

 

O MITO E A REALIDADE
Filho de Zeus e de Maia, a mais jovem das Plêiades da mitologia grega, Hermes nasceu num dia quatro (número que lhe era consagrado), numa caverna do monte Cilene, ao sul da Arcádia.

Divindade complexa, com múltiplos atributos e funções, Hermes foi no início um deus agrário, protetor dos pastores e dos rebanhos. Um escrito de Pausânias deixa bem claro esta atribuição do filho de Maia: “Não existe outro deus que demonstre tanta solicitude para com os rebanhos e para com o seu crescimento”. Mais tarde, os escritores e os poetas ampliaram o mito, como por exemplo, Homero, nos seus poemas épicos Ilíada e Odisséia. Na Odisséia, por exemplo, o deus intervém como mago e como condutor de almas (nas Rapsódias X e XXIV).

Protetor dos viajantes, Hermes é também o deus das estradas. Nas encruzilhadas, para servir de orientação, os transeuntes amontoavam pedras e colocavam no topo do monte a imagem da cabeça do deus. A pedra lançada sobre um monte de outras pedras, simbolizava a união do crente com o deus ao qual elas estavam consagradas. Considerava-se que nas pedras do monte estavam a força e a presença do divino.

Para os gregos, Hermes regia as estradas porque andava com incrível velocidade, por usar as sandálias providas de asas. Deste modo, tornou-se o mensageiro dos deuses, principalmente de seu pai, Zeus. Conhecedor dos caminhos, não se perdendo nas trevas e podendo circular livremente nos três níveis (Hades ou infernos, Terra ou telúrico e Paraíso ou Olimpo), Hermes tornou-se um deus condutor de almas.

A astúcia, a inventividade, o poder de tornar-se invisível e de viajar por toda a parte, aliados ao caduceu com o qual conduzia as almas na luz e nas trevas, são os atributos que exaltam a sabedoria de Hermes, principalmente no domínio das ciências ocultas, que se tornarão, na época helenística, as principais qualidades do deus.

A partir deste ponto, Hermes se converteu no patrono das ciências ocultas e esotéricas. É ele quem sabe e quem transmite toda a ciência secreta. O feiticeiro Lúcio Apuléio declara em seu livro de bruxaria (De Magia) que invocava Mercúrio – o Hermes dos romanos – como sendo aquele que possuía os segredos da magia e do ocultismo.

Hermes Trismegistos é o nome grego dado ao deus egípcio Thoth, considerado o inventor da escrita e de todas as ciências a ela ligadas, inclusive a medicina, a astronomia e a magia. Segundo o historiador Heródoto, já no séc. V a.C. Thoth era identificado e assimilado a Hermes Trismegisto, i.e., ao Três Vezes Poderoso Hermes.

A pedra de Roseta, gravada no ano 196 a.C também identifica Hermes como Thoth. A tradução dos hieróglifos das câmaras mortuárias do Vale dos Reis permitiu dividir os escritos atribuídos a Hermes-Thoth em dois tipos principais: o Hermetismo “popular” que trata da astrologia e das ciências ocultas, e o Hermetismo para os “cultos”, que trata de Teologia e de Filosofia.

Do renascimento até ao final do século XIX pouca atenção foi dispensada aos Escritos Herméticos populares. Estudos recentes mostraram, no entanto, que a literatura popular hermética é anterior ao Hermetismo dito culto, e reflete as idéias e convicções dominantes no império romano.

Os Escritos Herméticos sobre Teologia e Esoterismo constam de dezessete tratados, que compõem o Corpus Hermeticum. Este conjunto de Escritos reúne as compilações feitas por Stobaeus e por Apuleius. A compilação de Apuleius for traduzida para o Latim por Asclepius. Estes escritos são datados dos três primeiros séculos da era cristã e foram escritos em língua grega, embora os conceitos neles contidos sejam de origem egípcia.

O Corpus Hermeticum reúne a Hermética e a Tábua de Esmeralda. Estas duas obras são trabalhos estritamente herméticos sobre os quais se fundam a ciência e a filosofia alquímicas. A Hermética consta de uma série de livros, dos quais o mais importante é Livro I, Pimandro, que é um diálogo de Hermes consigo mesmo.

O Hermetismo foi estudado durante séculos pelos árabes, e por seu intermédio chegou ao Ocidente, onde influenciou homens como Albertus Magnus. Em toda a literatura Medieval e do Renascimento são freqüentes as referências a Hermes Trismegistos e aos Escritos Herméticos, estudados e aprofundados, principalmente, pelos Alquimistas e pelos Rosacruzes. Para os Rozacruzes, Hermes Trismegistos foi um sábio. O Dr. H. Spencer Lewis, escritor e Grande Mestre da Ordem Rosacruz, se referia a Hermes como uma pessoa real.

No mundo greco-latino, sobretudo em Roma, com os gnósticos e neoplatônicos, Hermes Trismegisto se converteu num deus cujo poder varou os séculos. Na realidade, Hermes Trismegisto resultou de um sincretismo com o Mercúrio latino e com o deus egípcio Thoth, o escrivão no julgamento dos mortos no Paraíso de Osíris, e patrono de todas as ciências na Grécia Antiga.

Em Roma, a partir dos primeiros séculos da era cristã, surgiram muitos tratados e documentos de caráter religioso e esotérico que se diziam inspirar-se na religião egípcia, no neoplatonismo e no neopitagorismo. Esse vasto conjunto de escritos que se acham reunidos sob o nome de Corpus Hermeticum, coleção relativa a Hermes Trismegisto, é uma fusão de filosofia, religião, alquimia, magia e astrologia, e tem muito pouco de egípcio.

Desse Corpus Hermeticum muito se aproveitou a Gnose (conhecimento esotérico da divindade, transmitido através dos ritos de iniciação). Os gnósticos, com seu sincretismo religioso greco-egípcio-judaico-cristão surgido também nos primeiros séculos da nossa era, procuraram conciliar todas as tendências religiosas e explicar-lhes os seus fundamentos através da Gnose.

As sandálias de Hermes eram dotadas de asas, separavam a terra do corpo pesado e vivente, e daí vem a importância simbólica das sandálias depostas, rito maçônico que evoca a atitude de Moisés no monte Sinai, pisando descalço a terra santa. Descalçar a sandália e entregá-la ao parceiro era, entre os judeus, a garantia de cumprimento de um contrato.

Para os antigos taoístas, as sandálias eram o substituto do corpo dos imortais, e seu meio de deslocamento no espaço. Em Hermes e Perseu, as sandálias aladas são o símbolo da elevação mística.

O caduceu significa em grego bastão de arauto. Símbolo dos mais antigos, sua imagem já se acha gravada, desde o ano 2.600 a.C., na taça do rei Gudea de Lagash. São várias as formas e múltiplas as interpretações do caduceu. Insígnia principal de Hermes, é um bastão em torno do qual se enrolam, em sentidos inversos, duas serpentes. Enrolando-se em torno do caduceu, elas

simbolizam o equilíbrio das tendências contrárias em torno do eixo do mundo, o que leva a interpretar o bastão do deus de Cilene como um símbolo de paz. A serpente é um símbolo encontrado na Mitologia de todos os povos. Todas as grandes idéias surgidas no início da Civilização foram representadas pela serpente: o Sol, o Universo, Deus, a Eternidade. Enroscada no Tau, a serpente é o símbolo do Grau 25 do REAA.

Também se pode interpretar o caduceu como sendo o símbolo do falo ereto, com duas serpentes acopladas. Esta interpretação do caduceu é uma das mais antigas representações indo-européias, sendo encontrado na Índia antiga e moderna, associado a numerosos ritos, bem como na Grécia, onde se tornou a insígnia de Hermes. Espiritualizado, esse falo de Hermes penetra no mundo desconhecido em busca de uma mensagem espiritual de libertação e de cura. Hoje em dia o caduceu é o símbolo universal da Medicina.

O esoterismo maçônico, com a sua tradução em rituais, símbolos e ensinamentos, é criação de grandes pesquisadores, colecionadores de livros e de manuscritos raros, e grandes estudiosos das culturas da antiguidade. Elias Ashmole, Desaguilliers e Francis Bacon foram alguns destes homens, Rosacruzes e grandes conhecedores do hermetismo e da transmutação alquímica dos metais, através da Pedra Filosofal. Eles introduziram na Maçonaria os mesmos conceitos filosóficos, utilizando agora os instrumentos da arte de construir, como símbolos da regeneração e do aperfeiçoamento moral e espiritual do Homem.

Hermes Trismegisto foi, na Mitologia Grega, o deus que reuniu os atributos que todos os grandes pensadores e iniciados desejaram transmitir às futuras gerações. Ele foi um deus tão importante que na cidade de Listra, a multidão, ao ver o milagre realizado pelo apóstolo Paulo, tomou-o por Hermes e gritou entusiasmada, pensando estar diante de um deus sob forma humana.

Obras consultadas
Hermes Trismegisto – Ensinamentos Herméticos AMORC Grande Loja do Brasil
Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia – Nicola Aslan
La Franc-Maçonnerie Rendue Intelligible à Ses Adeptes – Oswald Wirth
Encyclopaedia Britannica – Volume XI
O Vale dos Reis – O Mistério das Tumbas Reais do Antigo Egito – John Romer
A Doutrina Secreta – Volume V – H.P.Blavatsky
Odisséia – Homero

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


ÉTICA E VIRTUDE MAÇÓNICAS

O conceito de Ética apareceu com a formação dos primeiros grupos humanos primitivos quando, para a sobrevivência de seus membros, era fundamental que todos agissem de modo a preservar a vida e a permitir a expressão das diversas necessidades, pessoais e coletivas.

A vida humana se caracteriza por condutas racionais que são a base da Ética: toda a ação é realizada de acordo com uma decisão mental anterior; o que não significa que todas as pessoas ajam de modo igual e racional, nem que as suas ações sejam sempre baseadas no raciocínio. Isto porque a conduta humana resulta de tensões e motivações de natureza emocional, afetiva, sentimental ou de impulsos biológicos.

Apesar disso, pode-se afirmar que a conduta do ser humano, além do fato de ser tomada racionalmente ou que seja provocada por motivações afetivas, sentimentais ou emocionais, é sempre o tipo de conduta que deve estar subordinada aos princípios da Ética. Por isso mesmo, o comportamento do ser humano está, ou deveria estar sempre, em conformidade com a sua razão. Este comportamento é diferente de tudo o que os impulsos ou as emoções inicialmente recomendam. Deste modo podemos assim definir a Ética como o resultado do controle mental sobre os mecanismos biológicos, caracterizados pela reação “estímulo-resposta”.

Por outro lado, deve-se ressaltar que a criança não nasce com o conhecimento inato da Ética. Este conhecimento é adquirido pelo aprendizado, pela educação, de modo a desenvolver a sua capacidade de escolha e, assim, passar a se comportar de maneira racional, tendo como base os valores e princípios Éticos aos quais ela está exposta em sua vida em sociedade.

Ético, enfim, é todo o comportamento racionalmente escolhido e que, sem uma aprendizagem ética eficaz, tendo como base que a conduta do ser humano não pode ser regulada pelos seus impulsos biológicos. Em um ambiente onde predominam os conceitos éticos, o ser humano aprende a utilizá-los para viver em sociedade.

Entretanto, é fato que nem todos seguem os princípios da Ética de maneira constante, em todas as situações que enfrenta em sua vida. A personalidade ética, ao contrário, está sempre orientada para agir em conformidade com estes princípios. Assim, vive conforme a Ética todo aquele que, antes de agir, submete as suas ações ao juízo racional e Ético.

É lamentável que nem todos ajam assim e que se utilizem da Ética para alcançar os seus objetivos de vida. Porém, aqueles que submetem os seus atos aos princípios éticos, destes se pode dizer que têm uma personalidade virtuosa. O seu comportamento é sempre direcionado para o exercício da virtude.

Pode-se entender a virtude como a maximização dos princípios éticos. Em outros termos, a virtude é a plena realização dos princípios éticos. O ser humano virtuoso não só vive conforme os princípios éticos, como os pratica em sua plenitude, fazendo da prática da virtude o objetivo de sua vida.

Se a ética é entendida como a expressão da noção do bem, o homem virtuoso é o que age de modo a que a prática do bem seja o objetivo maior da sua vida. Assim, viver para a virtude é o ideal que faz superar todos os condicionamentos biológicos. Este homem chega até a negar o impulso primário da própria sobrevivência física, como é o caso dos heróis e dos mártires, que chegam a sacrificar o seu maior bem, que é própria vida. Sem dúvida o bem ético supera todo o bem biológico e estimula o homem a praticar a virtude em sua conduta rotineira, até ao limite de se sacrificar em benefício do seu próximo.

Na Maçonaria, a via ética é ligada diretamente ao princípio fundamental da busca da Verdade. Assim sendo, a conduta ética maçônica deve ser praticada em conjunto com a busca da verdade. Em outros termos, na vida esotérica e iniciática a Ética e a Verdade estão intimamente ligadas e constituem um duplo objetivo na vida maçônica.

Um ideal ético herdado da tradição platônica e pitagórica, na qual a busca da verdade não está separada do comportamento direcionado à prática do bem, assim como a conduta voltada para o bem não está separada da busca da verdade.

Sob este ponto de vista, não se pode imaginar um maçom que somente se comporte de maneira correta ou que esteja apenas voltado para a busca da verdade. No primeiro caso, ele seria apenas uma pessoa de bons costumes, mas não completaria o ideal maçônico da busca da verdade; no segundo caso, embora estimulado para a busca da verdade e praticando os bons costumes, não perseguisse o objetivo de viver pela virtude, objetivo principal da vida maçônica.

A verdade e a virtude são os dois pólos de uma única busca que caracteriza a via ética de natureza iniciática. Adicionalmente, também se pode dizer que a busca da verdade já é uma das virtudes do maçom. O caminho para a prática da virtude se inicia no rito de iniciação e se desenvolve através dos trabalhos ritualísticos em Templo. Falamos de um caminho que é gradualmente percorrido na busca do aperfeiçoamento individual, no qual os princípios éticos devem ser praticados, tanto em Loja quanto no mundo profano.

Toda a postura de natureza iniciática considera a Ética como sendo uma bagagem de princípios que tem caráter universal e que pertence à história do ser humano. Assim, o maçom deve considerar a Ética como princípio que não pode ser colocado em dúvida e que deve ser o ponto de partida para as suas ações. Por isso, ele se propõe a praticar os princípios éticos, em paralelo com o desenvolvimento da cultura e da tecnologia humana. Estes princípios são universais e sempre válidos, mas novos princípios éticos podem e devem ser criados de modo a atender às novas condições culturais da humanidade.

O ideal do aperfeiçoamento interior deve contemplar o progresso e a sua maturação, e assim também se aplica ao mundo da Ética, que para o maçom não é constituído de um mundo fechado e definitivo. Por isso, a Ética de natureza iniciática, que supõe um comportamento racional, também se aplica na área sentimental.

Como para a busca da verdade, também a Ética iniciática se fundamenta na capacidade intelectual do ser humano, permitindo-lhe compreender os princípios éticos, de modo a evidenciar a sua aplicação no mundo profano, e a formular novos valores para as condições atuais e as da Humanidade do futuro. A conduta ética maçônica, por isso mesmo, possui dois aspectos: em primeiro lugar, o maçom deve viver não só segundo os seus princípios, mas deve perseguir a prática da virtude; em segundo lugar, a maturação de uma atitude que seja voltada para compreender a Ética e a sua adequação às continuas mudanças na coletividade humana.

Sob este ponto de vista, a Ética maçônica, fundamentada na íntima relação entre a virtude e a verdade, é um sistema de princípios aberto, ao qual todo o maçom oferece a sua contribuição, de modo a adequá-los ao bem pessoal e social. Para o iniciado, o bem pessoal não se restringe somente ao seu comportamento em Templo, senão também à compreensão da essência da realidade e do sentido da vida humana no mundo em que vive.

O bem individual do maçom torna-se assim o bem de todos os maçons, unidos pelo ideal iniciático, que se manifesta nos valores fundamentais que são expressos na noção de Irmandade. Isto significa não só dividirem entre si os princípios esotéricos, sentimentais e éticos, mas também a sua participação em um processo de aperfeiçoamento baseado nos conhecimentos recebidos em Loja. Um processo que sai dos Templos e do trabalho ritualístico e se estende a toda a Humanidade.

Devido a isso, o conceito de Irmandade é ampliado e envolve a toda a comunidade humana. Neste sentido, a Maçonaria não é uma comunidade devocional, na qual o trabalho sacro se aplica somente a quem dele participa. O trabalho ritualístico em Loja não termina com vantagem individual para nenhum maçom, porque dele se beneficiam igualmente todos os Irmãos e todos os seres humanos.

A Ética maçônica, por isso mesmo, não reduz a noção do bem só ao maçom como indivíduo ou aos demais membros da Ordem, mas se amplia e envolve toda a Humanidade. Daí podermos dizer que a Maçonaria se volta, de maneira sempre progressiva, ao bem comum, ao bem concreto, atual e futuro de todos os homens, independente de quais sejam as suas culturas, países, etnias ou religiões.

A vida do maçom envolve o seu trabalho em Loja e a sua atuação no mundo profano, no qual a sua postura deve ser profundamente Ética e Tolerante, de modo a modificar o mundo segundo a máxima: alcançar o maior bem possível para o maior número de pessoas.

Devido a isso, à Ética maçônica não satisfaz ideais religiosos. Ao maçom interessa não só o seu próprio bem, mas também, como seu máximo ideal, o bem de toda a Humanidade. É pela sua ação no mundo profano que os conhecimentos adquiridos em Loja, e que não são mero exercício pessoal, encontram sentido, na ampla comunidade coletiva de todos os seres humanos.

Somente assim se justifica a frase do ritual que diz que o maçom trabalha para levantar Templos à Virtude, cavar masmorras ao vício e trabalhar pelo bem e pelo progresso da Humanidade.

ANTÓNIO ROCHA FADISTA
M.’.I.’., Loja Cayrú 762 GOERJ / GOB – Brasil


ESPIRITUALIDADE MAÇÓNICA

Nesta pequena prancha, irei tentar falar-vos de Espiritualidade, entendendo-a como a vida do espírito, e este, como o poder de pensar. Não deveremos confundir Espiritualidade com religião, que é apenas uma das maneiras de a viver, ou com espiritualismo, que é apenas uma das maneiras de a pensar.

Entendo que a espiritualidade é uma dimensão da condição humana, mais do que o bem exclusivo de Igrejas, Religiões ou Escolas de pensamento.

Tomo como pressupostos que existe uma Espiritualidade religiosa, que pode ser comandada por razões de fé, ou seja, de carácter esotérico, ou por razões de temor, ou seja, de carácter exotérico; e que existe também, entre outras, uma Espiritualidade totalmente diferente, de carácter individual, mas não solitária, libertária na sua essência, a que irei chamar Espiritualidade Maçónica.

Será possível uma espiritualidade laica? Provavelmente, mais do que uma espiritualidade clerical ou do que uma laicidade sem espírito! Será possível uma espiritualidade sem Deus? Porque não? É aquilo a que tradicionalmente chamamos a Sabedoria, pelo menos numa das suas vertentes. Será necessário acreditar em Deus para que viva um espírito em nós?

Passemos à etimologia. A palavra vem do latim spiritus, o que em grego seria traduzível por psukhê (a etimologia, nestas duas línguas, faz referência ao sopro vital, à respiração) e também por pneuma. Isto significa que a fronteira entre o espiritual e o psíquico é porosa… O amor, por exemplo, pode pertencer a ambos. A fé é um objecto psíquico como outro qualquer. Mas é também uma experiência espiritual. Digamos que tudo o que é espiritual é psíquico, mas nem tudo o que é psíquico é espiritual. O psiquismo é um conjunto cujo vértice ou extremo seria a Espiritualidade…

Na prática, fala-se de Espiritualidade para a parte da vida psíquica que nos parece mais elevada: aquela que nos confronta com Deus ou com o absoluto, com o infinito ou com o todo, com o sentido ou a falta de sentido da vida, com o tempo ou com a eternidade, com a oração ou o silencio, com o mistério ou o misticismo, com a oração ou a contemplação. É por isso que os crentes se sentem tão à vontade com ela. É por isso que os ateus têm (ou sentem?) tanta necessidade dela. Da Espiritualidade!

A Espiritualidade, para os crentes, tem um objectivo claramente definido (mesmo que não conhecível), que será um sujeito, que será Deus. A Espiritualidade é aqui um encontro, um diálogo, uma história de amor ou de família. “Meu Pai”, dizem eles. Será isto espiritualidade ou psicologia? Mística ou afectividade? Religião ou infantilismo?

O ateu é menos despojado ou menos pueril. Ele não busca um Pai, nem o encontra. Não instaura um diálogo. Não encontra um amor. Não habita uma família. Mas sim o Universo, o Infinito, o Silencio, a presença do Todo. Não uma transcendência, mas sim a imanência. Não um Deus, mas o devir universal, que o contém e transporta. Não um sujeito, mas a presença universal. Não um Verbo ou sentido, mas a verdade universal. Mesmo que conheça apenas uma ínfima parte dela, isso não impede que ela o contenha completamente…

Uma espiritualidade sem Deus? Será uma espiritualidade da imanência, mais do que da transcendência, da meditação mais do que da oração, da unidade mais do que do encontro, da fidelidade mais do que da fé, da “enstase” mais do que do “êxtase”, da contemplação mais do que da interpretação, do amor mais do que da esperança, e que será igualmente motivadora de uma mística, ou seja, de uma experiência da eternidade, da plenitude, da simplicidade, da unidade, do silêncio…

Estou em crer que é exactamente na síntese destes dois extremos que se situa aquilo a que ouso chamar a Espiritualidade Maçónica. Mas antes de a procurar definir, deverei afirmar que é apenas no trabalho maçónico que ela poderá ser verdadeiramente aprofundada.

Em primeiro lugar, importa esclarecer que a Maçonaria não sendo uma religião, é profundamente religiosa. É também pressuposto, em particular no nosso Rito, que o trabalho maçónico seja feito à glória do G.’.A.’.D.’.U.’.. No entanto, a Maçonaria não revela nenhuma verdade superior. Pelo contrário, convida os seus membros a procurarem a verdade para a realizarem em si mesmos, o que é profundamente diferente, colocando-os na via dessa procura e dessa realização, situando-se aqui o verdadeiro significado da iniciação.

É na sua própria interioridade que cada Maçon deve descobrir a verdade, longe de qualquer ensinamento ou sistema dogmático que lhe seja administrado do exterior. Ao contrário da maioria das religiões ocidentais, a Maçonaria ensina-nos que a verdade é algo que se deve procurar! Não existe, contudo, qualquer incompatibilidade, para cada Maçon, entre o método maçónico (chamemos-lhe assim) e a verdade revelada da sua religião (se ele a tiver), desde que ele se mantenha um livre pensador…

(Não sendo eu membro ou fiel de qualquer religião organizada, admito que seja possível, por exemplo, um aprofundamento da espiritualidade religiosa para um cristão, através de uma busca interior no do trabalho de Loja. É de qualquer modo inquestionável a origem cristã da Maçonaria, apesar de uma progressiva descristianização, por um lado, na Maçonaria inglesa, para uma melhor inserção dos judeus no seu seio, e na francesa, por outro lado, por influência do iluminismo. Esta temática caberá, contudo, noutro contexto).

A tolerância é uma das principais virtudes da Maçonaria e do Maçon. Trata-se de uma atitude interior que repousa no respeito pela pessoa humana, pela liberdade de pensamento e pelo percurso intelectual e espiritual de cada um. É neste pressuposto que assenta a minha afirmação de que a Espiritualidade Maçónica é uma Espiritualidade Libertária: ao sugerir um caminho individual para a descoberta da verdade, constrói também um percurso libertador. Esse percurso adquire uma força particular no momento do diálogo: “P: Que vimos buscar em Loja? R: A LUZ!”. É essa Luz, que só o trabalho de Loja é capaz de nos transmitir, que permite a cada um de nós o aprofundamento da nossa própria espiritualidade.

E o que é esse Trabalho de Loja senão o da Construção do Templo? Os Franco-Maçons colaboram conjuntamente na construção de um Templo, o que é determinante do carácter essencialmente colectivo da iniciação maçónica, (contrariamente por exemplo à alquimia, que é uma via iniciática solitária). Assim, se é no interior de si próprio que o Maçon encontra a sua espiritualidade, é no trabalho colectivo da Loja que ele absorve o método para a aprofundar.

A colaboração no mesmo projecto permite a construção de uma unidade fraternal e espiritual, que assenta na harmonia da Loja, como nós bem sabemos. A construção dessa unidade fraterna e espiritual que é a Loja é o primeiro nível em que se edifica o Templo em que trabalham todos os Maçons. O segundo nível é o da Ordem no seu conjunto. O terceiro, o da Humanidade no seu todo, através da irradiação que os Maçons devem exercer em seu torno, no mundo profano. Reside aqui o verdadeiro significado simbólico e operativo da Cadeia de União.

Poderemos, deste modo afirmar, em jeito de síntese, que a Espiritualidade Maçónica consiste na busca individual da Verdade, que se atinge através da Luz, assente num trabalho colectivo que consiste na construção de um Templo à glória do G.’.A.’.D.’.U.’., e pressupondo o desbaste da pedra bruta que é cada um de nós, tendo por base a tolerância.

Esta tarefa é libertadora porque nos ajuda a combater a injustiça, os preconceitos e os erros, e realiza-se no espaço infinito do Templo, que é cada um de nós, a Loja, a Maçonaria Universal e toda a Humanidade, e na trilogia do tempo, que a nossa língua permite integrar: o metereológico (a coberto), o cronológico (do meio dia até à meia noite) e o kairológico (em cada momento é o tempo certo).

Porque a harmonia é um acordo feliz e agradável entre vários elementos simultâneos mas independentes uns dos outros, que condiciona a Beleza…, a vontade, a perseverança e o trabalho são o verdadeiro sustentáculo da Força…, atingiremos um dia a Sabedoria, através da busca da Verdade, que consiste no aprofundamento da nossa Espiritualidade individual!

L.’.C.’.
M.’.I.’., Loja Convergência (G.’.O.’.L.’.) – Lisboa, Portugal