Todos os artigos de Luis de Figueiredo

Solidariedade

Recebemos, frequentemente, emails que nos pedem ajuda para as mais variadas causas; será que fazemos tudo o que nos é possível para ajudar? É nesse espírito que se abre esta secção do Portal Maçónico. Sempre que seja comunicada uma causa que mereça a nossa atenção, esta será aqui divulgada; desta forma, apelo a Si, que conhece alguma causa que julgue dever ser divulgada, que ma faça chegar, para que este veículo de informação possa também ser um veículo de entreajuda. Obrigado!

Comité Português para a UNICEF

A UNICEF acompanha a situação no Afeganistão há já bastante tempo. A seca prolongada e a guerra civil deixaram as crianças afegãs numa situação de extrema debilidade. O recente conflito armado desencadeado após os atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque veio somente agudizar a situação.

Donativos
Pode fazer o seu donativo para o Comité Português para a UNICEF utilizando umas das seguintes vias:

– Transferência bancária junto do Banco Sotto Mayor – Agência Fontes Pereira de Melo, para o NIB 00.33.0000.50131901229.05 (pode efectuar esta transferência pela Internet através do site do seu banco)

– Por cheque passado à ordem do Comité Português para a UNICEF e enviado para a Avenida António Augusto de Aguiar, 56-3º. Esqº., 1069-115 LISBOA

– Por vale postal

Para mais informações, consulte o Site do Comité Português para a UNICEF, em http://www.unicef.pt/.

AMI

A AMI é uma Organização Não Governamental com estatuto jurídico de Fundação, privada, apolítica e sem fins lucrativos. Desde a sua fundação pelo Dr. Fernando Nobre, em 5 de Dezembro de 1984, a AMI assumiu-se como uma organização humanitária inovadora em Portugal, destinada a intervir rapidamente em situações de crise e emergência, tendo o Homem como centro de todas as suas preocupações.

A AMI tem como objectivo lutar contra a pobreza, a exclusão social, o subdesenvolvimento, a fome e as sequelas da guerra, em qualquer parte do Mundo.

Link: Fundação AMI

Amnistia Internacional

A Amnistia Internacional é um movimento mundial independente e imparcial, desempenhando um papel muito específico na protecção internacional dos Direitos Humanos. Os prisioneiros são o centro de todas as actividades desenvolvidas pela organização.

Exige a libertação imediata e incondicional dos prisioneiros de consciência, isto é, pessoas encarceradas pelas suas convicções, cor, sexo, origem étnica, idioma ou religião, desde que não tenham usado ou advogado a violência; Exige julgamentos rápidos, justos e imparciais para todos os presos políticos e actua em nome de pessoas detidas sem acusação formal ou julgamento. Opõe-se à pena de morte e à tortura ou qualquer outro tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante de qualquer preso, sem excepção e qualquer e qualquer que tenha sido o crime praticado ou a acusação de que é alvo. Trabalha pelo fim dos desaparecimentos e execuções extrajudiciais.

A Amnistia Internacional é financiada através da quotização e de donativos dos seus membros e simpatizantes em todo o mundo. Como salvaguarda da independência da organização, todas as contribuições são estritamente controladas por directrizes do Conselho Internacional, publicando-se anualmente um relatório financeiro relativo às receitas e despesas da organização.

Link: Amnistia Internacional- Secção Portuguesa

Cancro da Mama

Anualmente, cerca de 43.300 mulheres são vitimas de Cancro da Mama – isto representa uma mãe, irmã, filha ou amiga a cada 12 minutos. Junte-se à Cadeia de Esperança do Site do Cancro da Mama (The Breast Cancer Site’s Chain of Hope) e ajude a salvar vidas.

Em poucos segundos, e sem qualquer custo da sua parte, poderá providenciar ajuda na detecção prematura da doença a mulheres carenciadas. Basta que visite o Site do Cancro da Mama (http://www.thebreastcancersite.com/home) diariamente e clique em «Fund Free Mammograms» para quie essa ajuda possa chegar a quem dela precisa.

O seu clique não implica qualquer custo; todos os fundos são angariados através de patrocinadores, que monitorizam os cliques recebidos. Com a sua ajuda, a vida de cerca de 2.000 mulheres carenciadas – ou mais – poderão receber ajuda em 2002, graças aos fundos do Site do Cancro da Mama; quantos mais clique forem recebidos, mais ajuda poderá ser recebida. Passe também a palavra aos seus amigos, familiares e conhecidos; no site encontrará um formulário para enviar, via email, uma mensagem nesse sentido.

http://www.thebreastcancersite.com/home

“Delicate threads of hope, patiently woven, become the strong fabric of our faith.”
– Janet L. Weaver


NÚMEROS E ESOTERISMO – PARTE II: OS NÚMEROS SINTÉTICOS

NÚMEROS E ESOTERISMO – PARTE II
OS NÚMEROS SINTÉTICOS
A Maçonaria, com sua iniciação cerimonial, pode ser considerada uma corporação especializada na arquitetura sagrada onde elementos pitagóricos estão intimamente ligados ao simbolismo típico do trabalho maçônico: esquadro, compasso, perpendicular, etc. Consequentemente, a compreensão dos números sagrados à Maçonaria se torna mais fácil na medida em que são compreendidos os números pitagóricos. Tal estudo tem que ser realizado não apenas do ponto de vista aritmético ordinário, mas também do ponto de vista da aritmética simbólica (ou aritmética formal), correspondente à função filosófica e espiritual que Platão atribuía à geometria. Ambos os sentidos estão intimamente conexos no desenvolvimento da antiga aritmética pitagórica e por isso torna-se essencial analisar o significado dos números da década.
A unidade (mônade) é representada graficamente por um ponto como o yodh hebraico cursivo no tetragrama IHWH (yodh hé waw hé) que literalmente significa: “Eu sou aquele que sou”. No um são concentradas todas as potencialidades do ser e todas as cosmogonias explicam a criação do universo a partir do um cuja explosão cria o espaço-tempo e as demais dimensões do cosmo. Por sua vez a mônade, ou Unidade, tem a capacidade de gerar (e não de criar) a díade, cujo aparecimento é apenas uma alteração, mais aparente que real, da Unidade, proveniente de uma distinção que a mônade opera sobre si mesma.

Os pitagóricos ensinavam que a díade era gerada mediante um processo de cisão, ou diferenciação, da Unidade; um processo que, no pensamento moderno, pode ser comparado ao de divisão celular ou até à fissão nuclear. Na Cabala, dois é o Sefirot Chokmah (a sabedoria) e é um principio feminino. Nos monumentos sagrados do antigo Egito duas colunas principais, representando respectivamente os Reinos do Norte e do Sul, simbolizavam a estabilidade política e espiritual de toda a nação. O Rei Salomão mandou que o arquiteto Hiram Abiff erguesse duas colunas de bronze (Jakim e Boaz) diante do templo de Jerusalém. Na tradição maçônica a unificação dessas duas colunas, que sempre aparecem nas lojas, é símbolo de solidez . O três representa a síntese entre a mônade e a díade: se assiste assim à manifestação (ou epifania) da mônade no mundo superficial em forma de trindade, entidade sagrada cuja perfeição torna-se ainda mais evidente no momento em que ela é representada em forma de um triângulo equilátero. Os Celtas representavam a divindade mediante três raios correspondentes a três sons pronunciados simultaneamente e toda a filosofia daquele antigo povo podia ser resumida em três séries de 3 x 3 x 3 tríades chamadas Tríades dos Bardos. Essencialmente, em todas as religiões do mundo as energias formadoras do universo atuam em conjunto de três e, obviamente, os “três pontos” maçônicos tiveram origem nessa cosmogonia numeral. As partículas elementares contidas no núcleo atômico, próton e nêutron, são, por sua vez, compostas por três quarks.

Enquanto o três só pode ser logrado somando a mônade com a díade, os números 4, 6, 8 e 9 podem ser obtidos por multiplicação e por isso são chamados de números sintéticos.

O quatro era considerado um número perfeito não apenas pelo fato de ser o último número da tetraktys e simbolizar o tetraedro, mas principalmente por ser ele um quadrado algébrico (2 x 2). O quatro é também o único número da década a ser um número sintético e, ao mesmo tempo, fator de outro número da década (2 x 4 = 8). Pitágoras distinguia quatro aspectos do espírito: Hile, Psique, Nous e Agaton, e a Cabala descreve quatro mundos nos quais se inscrevem os dez Sefirot: o mundo da emanação, o da criação, o da formação e o da ação. Na Física as leis que governam completamente a interação eletromagnética são contidas nas quatro equações de Maxwell. O DNA é formado pela repetição de quatro nucleotídeos (guanina, adenina, timina e citosina).

O seis resulta da multiplicação da díade (princípio feminino) com a tríade (princípio masculino) e, por tal motivo, era o número consagrado a Afrodite (deusa do amor) e o símbolo da vida orgânica. Nesse sentido constatamos uma coincidência surpreendente com o carbono (número atômico = 6), único elemento cujas características químicas permitem a existência da vida orgânica no universo. Os pitagóricos dividiam os números em três categorias: os números elípticos (menores que a soma de seus divisores), os números hiperbólicos (maiores que a soma dos divisores) e os números matematicamente perfeitos iguais à soma de seus divisores. O seis não só é perfeito nesse sentido (1 + 2 + 3 = 1 x 2 x 3), mas é o único número cujos fatores são números consecutivos. O seis é geralmente simbolizado pelo “Selo de Salomão”, que é um dos símbolos mais conhecidos do esoterismo.

O terceiro número da década que é obtido mediante multiplicação é o oito. Sendo um número cúbico (2 x 2 x 2) era considerado perfeito mesmo sendo par, pois os números cúbicos crescem conservando a regularidade da forma. Na cosmogonia chinesa o mundo é criado e regido por oito trigramas fundamentais dispostos simetricamente em volta de um Taijitu, uma díade simbolizando a união dos princípios antagônicos yin e yang. Na doutrina dos antigos Druidas o iniciado tinha que passar por oito estados de consciência antes de chegar à libertação espiritual . Observamos enfim que a maioria dos batistérios tem planta octogonal e que o oito em posição horizontal é encontrado na Corda Maçônica.

Quanto ao nove, sendo ele o quadrado de um número perfeito é duplamente perfeito. Na Maçonaria o nove tem uma importância peculiar na determinação das idades iniciáticas dos vários graus do Rito Escocês como, por exemplo, na lenda da morte e ressurreição de Hiram Abiff. Isso se justifica se consideramos que o nove é o primeiro número quadrado ímpar e que ele pode ser dividido em três tríades que, por sua vez, se dividem em três Unidades. Na mitologia clássica, nove são as Musas, filhas de Zeus e Mnemósine. De acordo com Aristóteles, todas as criaturas espirituais são divididas em três principados, cada qual composto de três ordens. Portanto o conceito cristão dos nove céus não pertence unicamente à tradição judaica, e sim à concepção metafísica pagã e, mais precisamente, àquela pitagórica.

Observamos que os quatro números sintéticos (4, 6, 8, 9) formam, por sua vez, uma nova tetraktys cuja soma dá como resultado 27, isto é o cubo de três. Então, também o 27 deve ser um número perfeito. Quanto aos números cinco e sete, eles serão tratados posteriormente.

O nove é o último dos números monádicos, ou seja composto de um só dígito, e como tal encerra a série dos números pitagóricos, sendo o dez a nova Unidade. Por essa razão o pitagórico Nicômaco de Gerasa afirmava: “O número dez é o mais perfeito dos números possíveis… A década é o Todo pois ela serviu de medida para o Todo, como um esquadro e um nível nas mãos do Ordenador”.

O dez é o quarto número triangular, símbolo da tetraktys pitagórica: enquanto os quatro primeiros números são o resumo final de toda a cosmologia numeral, o dez simboliza o retorno à Unidade depois de um ciclo completo de criação. Para Dante Alighieri o décimo céu é o empíreo, ou esfera do fogo, onde se encontra a Cidade Santa. Mas enquanto os nove céus inferiores são animados de moto rotatório que transmite ao cosmo a fluência do tempo, o décimo permanece imóvel, num eterno presente sem passado nem futuro. Para Pitágoras o cosmo era envolvido pela esfera do tempo, ou periekon, e Arquitas afirmava que além do periekon existia uma esfera caracterizada por um tipo diferente de tempo que ele chamava de tempo psíquico. Na Divina Comédia, Dante mostra como, passando da consciência humana à consciência divina (localizada no décimo céu) se torna possível a conexão entre o tempo físico e o tempo psíquico. Nesse tempo psíquico o princípio e o fim se reúnem garantindo assim a solução do problema da mortalidade física dos seres humanos.

Ninguém sabe exatamente o que existe além dos extremos limites do universo, mas a cosmologia moderna nos oferece uma visão extremamente sugestiva. Cerca de 13,8 bilhões de anos atrás, uma explosão primordial (Big Bang) deu origem não apenas ao mundo material como também ao cenário onde o cosmo está mergulhado, os seja o espaço-tempo. Desde o instante inicial do Big Bang o espaço-tempo tem se propagado com a velocidade da luz uniformemente em todas as direções fazendo com que o universo ocupe agora um volume imenso, mas limitado, embora ainda em expansão. É claro, então, que além dos limites do universo sempre se encontrará algo de indefinível, mas que não é espaço vazio, pois o espaço-tempo ainda não chegou lá. Nessa região, que envolve totalmente o cosmo, o tempo não transcorre porque lá ele não existe. Assim, a visão cosmológica dos antigos pitagóricos apresenta, pelo menos na questão do tempo, uma considerável analogia com a estrutura do universo proposta pelos cientistas modernos.

 

FIM DA PARTE II

Prof. Dr. Alberto Malanca
Parma, Itália

 


BIBLIOGRAFIA:

  • A. Reghini. “La tradizione Pitagorica Massonica”, Fratelli Melita Editori, Genova (1988).

  • F.X. Chaboche. “Vida e Mistério dos Números” Hemus Editora, São Paulo (2005).

  • M. Chown. New Scientist, 24 October 1998, pp. 29-32.

  • C. Knight, R. Lomas. “La Chiave di Hiram” Mondadori, Milano, (1997).

  • A.L. Lehninger. “Biochemistry” Worth Publishers, Inc., New York (1972).

  • J. Gleick. “Caos” – RCS Libri S.p.A., Milano (1997)

  • M. Du Sautoy. “L’Enigma dei Numeri Primi” RCS Libri S.p.A., Milano (2004).

  • I Vangeli Apocrifi Giulio Einaudi editore, Torino (1990).

  • K. Ford. “The world of elementary particles” Blaisdell Publishing Company (1963).


ÁMON


Entre os cerúleos pilares de lápis- lazuli do enleante templo dos céus, o Sol, sedutor feiticeiro do Infinito, transfigurava, através da mística alquimia da luz, a noite da inexistência, perpétuo algoz da alma humana, no resplandecente dia da vida eterna. E seus lábios luzentes, pétalas de luz da fragrante rosa de fogo que a aurora desfolhava sobre o leito do horizonte, na ânsia de perfumar as núpcias do céu e da terra, albergavam o berço da humanidade e a matriz da perfeição universal. No Antigo Egipto, Ámon- Ré, imanente incarnação do astro- rei, era soberano do sublime éden de fruição espiritual, de cujo seio de apoteoses divinas brotava o fruto da harmonia cósmica que deuses e homens cobiçavam. Ávidos de saciar a sua sede no néctar de paz intemporal dele resvalado, estes coroavam os céus com arco –íris talhados em hinos esplendorosos que exaltavam a magnificência do excelso regente dos deuses: “Único é o oculto que permanece velado para os deuses, sem que a sua verdadeira forma seja conhecida. Nenhum deles conhece a sua verdadeira natureza que não é revelada em nenhum escrito. Ninguém o pode descrever, é demasiado vasto para ser apreendido, demasiado misterioso para ser conhecido. Quem pronunciasse o seu nome secreto seria fulminado.” (Hino a Ámon).

Todavia, oráculo algum preconizara que tal deidade, quase escrava do anonimato total no Antigo Império, viria a coroar-se “rei dos deuses” (nesu- netjeru) e incontestável soberano do vasto reino dos céus. Com efeito, é apenas no decorrer do Médio Império, que Ámon, efígie do Sol criador, após haver vagueado, enquanto peregrino de luz, pelos ignotos céus do desconhecimento, alcança por fim o santuário de magia imarcescível, erguido no horizonte da fé em honra do panteão egípcio, onde, volvida uma viagem mágica, que lhe permitiu a absorção de diversas outras deidades, o deus solar renasce, cantando a Aurora do seu poder como divindade nacional, dinástica, universal e criadora. Os jardins onde a mitologia egípcia semeou as origens de Ámon constituem ainda um paraíso proibido, cujos encantos florescentes se oferecem somente à nossa Imaginação nómada. Porém, alguns egiptólogos crêem que originalmente Ámon não era senão uma deidade do ar, que no Infinito nas crenças egípcias, partilhava as características de Chu, estatuto do qual não jamais viu-se privado, mesmo após a sua meteórica ascensão até ao trono celeste. É, de facto, como rosa de vento, orvalhada de doces brisas, que Ámon desabrocha para a Primavera da popularidade na região tebana de Ermant. Esta teoria é, contudo, contestada por uma fracção oponente, a qual defende que Ámon, na realidade, floresceu na mitologia egípcia enquanto um dos membros da Ogdóade de Hermopólis, formando assim com Amonet, sua parceira feminina, um dos quatros casais que a constituíam. Nesta representação, Ámon e a sua esposa incarnam os princípios primordiais, suspensos nos braços da escuridão, que se transfiguravam num hipotético dinamismo criador. A introdução de Ámon na região tebana ofereceu-lhe uma inaudita ascensão no seio da Ogdoáde, ao indigitá-lo líder dos deuses que a formavam. 

Independentemente das dúvidas que, quais planetas perdidos no Universo da História, orbitam em torno da fulgurante estrela que exaltara o nascimento de Ámon, é certo que este deus manteve-se cativo do cárcere do anonimato até ao Império Médio. Com efeito, a partir da XII dinastia, o seu culto desenvolve-se de forma surpreendentemente célere, permitindo a Ámon ser consagrado soberano incontestável do panteão egípcio. Despindo a mortalha de nuvens que obliterava o seu rutilante corpo de Sol, Ámon inundou de luz as almas dos monarcas egípcios que, em retribuição, permitiram que o sublime pulsar do coração da eternidade entoasse até ao seu atroz eclipsar, a maviosa sinfonia composta pelo doce epíteto do deus criador. Assim, em Karnak foram edificados templos, cujo esplendor conquistou o tempo e desafiou a morte. Concomitantemente, o faraó torna-se filho carnal de Ámon, proclamando-se assim emissário dos deuses entre os homens e vice- versa. Em Tebas, cidade cuja cosmogonia combina elementos oriundos de Hermopólis, Heliópolis e Mênfis, Ámon tange no doce harpa do coração da doce deusa Mut a harmoniosa melodia do amor. Com ela e com Khonsu, fruto dos seus esponsais, formará uma poderosa tríade. Na qualidade de deus patrono da capital egípcia (Tebas), Ámon é coroado regente dos deuses. 
Contemplando a surpreendente ascensão ao trono dos céus do agora prestigiado deus criador, o clero abraça a resolução de talhar na sua coroa de luz a jóia rara de uma teologia apta a exaltar o fastígio da sua soberania, facto facilmente constatável através da leitura e análise do seguinte mito. Canta a lenda que a serpente Kematef, ou seja, “a que cumpre o seu tempo”, emergiu de Nun, o excelso oceano de energia primordial, no local exacto da cidade de Tebas, brindando os céus com o nascimento de Irta, isto é, “aquele que fez a terra”, para de seguida desbravar o paraíso indómito dos sonhos. 

Por seu turno, Irta, sublime ourives da Criação, converteu as trevas do nada no sumptuoso tesouro do Universo, principiando por esculpir a terra, eterna barca de rubis navegando nos mares de pérolas negras do Infinito e, acto contínuo, os já citados oito deuses primordiais que se dirigiram a Hermopólis, a Mênfis e a Heliópolis para sonharem o esplendor da luz divina que do áureo corpo do Sol se desprendia (Ptah e Atum). Traídos pela sua obra colossal, que no decorrer da sua concepção todas as suas forças havia furtado, as oito deidades retornaram a Tebas, onde, à semelhança de Kematef e Irta, saborearam as nascentes de fruição espiritual que brotavam do éden das quimeras. No cosmos deste mito, a constelação de Ámon brilhou enquanto ba (poder criador) de Kematef, o que cimentou a sua posição fautor das maravilhas da Criação. Gradualmente, Ámon fundiu a sua identidade com a de Ré, senhor de Heliópolis, concebendo assim a deidade Ámon- Ré, suprema incarnação do astro- rei. Esta conotação solar do deus tebano é enfatizada pelos seus adoradores: “Tu és Ámon, tu és Atum, tu és Khepri”, numa clara oblação às inúmeras metamorfoses vividas pelo deidade solar, principiando pelo seu derradeiro mergulho no oceano do horizonte, enquanto Sol poente (Atum), até à sua ressurreição sob a forma de Sol nascente (khepri).

Conquistando igualmente aparência e funções de Min, deus da fertilidade, Ámon, agora, Ámon- Min, incarna os elementos primordiais da Criação. De facto, algumas das primeiras representações de Ámon em Karnak, datadas do início da XII dinastia, representam o deus tebano, enquanto fruto da sua fusão com Min. Através da associação ecléctica às mais proeminentes deidades do panteão egípcio (Ré, Ptah e Min), Ámon conquista a dádiva do poder, inevitavelmente depositada no sumptuoso altar de sua alma iluminada, bordando nas sedas consteladas que velam a etérea silhueta do Universo a poesia da sua sublimação, enquanto divindade nacional, primordial e demiúrgica. Durante o reinado de Akhenaton, em meados do séc. XIV, o deus tebano é alvo da perseguição do regente, quiçá numa represália contra o intimidatório poder do clero amoniano, que aumentara proporcionalmente ao prestígio da deidade em questão. Após uma noite de cerca de quinze anos, uma aurora adornada de paradoxos e controvérsias canta a ressurreição do Sol, que uma vez mais se apodera do trono dos céus, sob a forma de Ámon. Este converter das trevas na luz deve-se à alquimia secreta de um único faraó: Tutankhámon (reinado: 1337- 1348 a . C.).

Um orvalho cristalino, eivado de mil enigmas, perla a rosa da fortuna, em cujas pétalas repousa o simulacro incerto do príncipe Tutankháton, espírito isento de origens concretas. Teria o futuro faraó despontado dos braços de Akhenaton ou do seio de uma família nobre? Um vórtice de conjecturas enlaça igualmente o significado do seu nome, sendo “ imagem viva de Áton” ou “poderosa é a vida de Áton” as traduções mais credíveis. Após a extinção de Akhenaton, o trono do Egipto oferece-se ao olhar hesitante de Tutankháton, uma criança de apenas nove anos, que, contudo, havia já desposado a terceira filha do faraó falecido. Inebriado pelo fausto de jogos e festas, enclausurado num débil esboço de uma personalidade esbatida, Tutankháton prostra-se diante dos conselhos de um preceptor, possivelmente, o alto- dignitário Ay, ignorando as ferozes querelas entre os partidários de Ámon e de Áton, cujo fulgor torna-se num sorriso da heresia. Gradualmente, a influência do clero enleia, irreversivelmente, o ingénuo jovem, depositando na sua alma ainda perfumada pela infância, o desejo de retornar ao seio da primordial religião, tecida em torno de Ámon. Por conseguinte, o jovem altera o seu nome para Tutankhámon, entregando cada suspiro do seu império aos lábios de nácar do politeísmo. Desta forma, no regaço de seu reinado o compasso do tempo esculpiu o sepulcro da excelsa “Cidade do Sol”, cujo fulgor foi extinto com o fito de restituir a soberania à olvidada cidade de Tebas, no seio da qual o faraó se reinstalou, concedendo, uma vez mais, imensuráveis poderes aos sacerdotes que se prostravam diante do divino simulacro de Ámon. Submissamente, todos aqueles que haviam ornado de vida a quimérica cidade de Akhenaton seguiram a família real, entregando Armana aos nefastos braços da decadência. As carícias letais do vento árido arrebatou o fastígio dos templos e palácios, resumindo-os a lúgubres escombros, no coração da areia enclausurados. Somente após 3000 anos, a alma desta cidade foi enfim libertado do seu lúrido cárcere.

Intoxicado pelo incenso celestial queimado sobre a cidade de Tebas, Tutankhámon não empreendeu qualquer campanha militar, impedindo assim uma ascensão do Egipto no plano internacional. Privado do seu antigo poder, o exército egípcio entrega-se aos braços da decadência. Na realidade, somente a contínua vigília de Horemheb, a quem Tutankhámon havia entregue plenos poderes, impediu toda e qualquer invasão do território egípcio. Este general encontrava-se deveras distante da imagem de soldado grosseiro e rude que inúmeras vezes lhe é atribuída na actualidade. Trata-se, na verdade, de um escriba, um letrado, cuja alma se encontra escravizada pelo amor ao direito e à justiça. Ao completar quinze anos, no ano 6 do seu reinado, a consciência dos seus deveres fende as pálpebras outrora cerradas de Tutankhámon, Desprendendo-se do torpor da infância, o jovem faraó principia a mergulhar nos seus ofícios de soberano, recorrendo ao pronto auxílio de seus mentores Ay e Horemheb, detentores de um poder imensurável, concedido pelo próprio regente. Surpreendentemente, Tutankhámon lida, habilmente, com a política externa, solucionando diversas questões pendentes. Simultaneamente, almeja restituir ao Egipto o seu esplendor estonteante, pelo que ordena a restauração e construção de monumentos e o levantamento de ruínas. De seu espírito resvalaram rasgos de luz, orvalhados pelo gotejar da independência, que fenderam enfim a sufocante influência que Ay e Horemheb possuíam sobre o faraó e sobre o destino do Egipto. Porém, quando Tutankhámon completou dezoito anos, a auspiciosa melodia entoada pela sua fortuna extinguiu-se nas trevas de uma sinfonia de silêncio, concebida pelas lúgubres carícias da morte… 

Intrigados com tão suspicaz falecimento, os egiptólogos lançaram-se numa desesperada procura pela verdade, já sepultada entre as valsas do tempo. Por fim, após um inexaurível rol de pesquisas e investigações, uma autópsia realizada à múmia do faraó concedeu-lhes o fulgor da solução que tanto haviam cobiçado: uma fractura na base do crânio de Tutankhámon comprovava que este havia sido, brutalmente, assassinado. Porém, que mãos cruéis e isentas de compaixão haviam desferido o golpe fatal que oferecera aos lábios sequiosos da morte o travo da vida de Tutankhámon? Os sacerdotes tebanos, movidos pelo temor de que o regente, agora livre igualmente da sua influência, abraçasse os devaneios de Akhenaton? Ou aquele que queimara o incenso da sua vontade sobre o débil altar da alma de Tutankhámon, submetendo-a aos seus caprichos e alentos: o divino- sacerdote Ay, tornado mais tarde em sucessor do faraó falecido? A verdade oferece-se ao olhar daqueles que pressentem os silvos das conjecturas, em cujo regaço quase sentimos o toque do sangue do jovem faraó tingir as mãos do ambicioso Ay. Na realidade, sobre a imagem de Tutankhámon baila um inexorável paradoxo, delineado pela imensurável fama que este insigificante faraó alcançou na actualidade. Indemne à acção dos inúmeros saqueadores, o seu túmulo, descoberto em 1822 por Howard Carter, derramou sobre a alma perplexa da humanidade a fragrância do fausto e fastígio do Antigo Egipto. Jamais houve uma descoberta mais preciosa do que a do túmulo de Tutankhámon. A grácil beleza dos móveis e as suas obras de arte ultrapassaram tudo o que até então fora encontrado no Egipto. Graças ao túmulo do jovem faraó, o único encontrado intacto, a cultura egípcia atraiu muitos mais admiradores do que no passado; admitiu-se que esta cultura havia exercido sobre os povos vizinhos uma influência muito mais profunda do que então se cogitara. Ao contemplarem-se as excelsas riquezas que um faraó considerado verdadeiramente irrelevante, cujo reinado prolongou-se por um escasso período de tempo, levava para a sua derradeira morada, calcula-se o esplendor que brincaria nos túmulos de poderosos faraós como Tutmés III, Amenófis II, Seti I e Ramsés II.

No paraíso de seu reinado, brotou a cobiçada fonte da ressurreição, onde Ámon, outrora cativo do sepulcro do esquecimento, saciou a sua sede de vida. Durante cerca de meio século, mais precisamente de 1000 a.C. até 525 a.C., data da invasão persa, a soberania da sumptuosa cidade de Tebas não foi senão dança ritmada da melodia de luz reflectida pelos cristais de Sol, que no olhar de uma magnificente dinastia de mulheres haviam esculpidos pela benção do astro- rei. A estas mulheres, intituladas “Adoradoras Divinas” ou, em egípcio, duat- netjer, o faraó havia concedido, sem hesitar, um poder espiritual e régio sobre a principal cidade santa do Alto Egipto. 
Sacerdotisas iniciadas nos mistérios de Ámon, a quem se uniam em esponsais divinos, com o fito de lhes prestarem um culto ornado de um certo erotismo, as Adoradoras Divinas eram regra geral provenientes de famílias nobres. Em diversas representações, contemplamos o rito que permitia à dama despertar na carne e espírito do deus tebano os ardores da paixão. Sob a liderança desta casta de mulheres viviam sacerdotisas, contempladas como o “harém de Ámon”, a quem era também confiada a incumbência de semear o desejo no peito do rei dos deuses e preservar a harmonia entre os céus e a terra. Enquanto esposas de Ámon, as Adoradoras divinas, não obstante não serem coagidas a celebrar votos de castidade, eram privadas não de vincular um casamento humano, mas também de ter filhos. De facto, a herdeira do seu cargo era a sua filha espiritual, elevada a este estatuto através da adopção.
Consagrando-se exclusivamente ao culto da deidade, as Adoradoras Divinas, excelsas instrumentistas que na harpa do cosmos fazem vibrar a energia celestial, garante da vida terrena, embora não fossem reclusas, usufruíam da maior parte do seu tempo no interior do templo de Ámon em Karnak, onde todos os dias persuadiam o deus a exprimir de forma benéfica o seu poder criador. 
Personalidades proeminentes no seio da cidade tebana, as Adoradoras Divinas eram incontestáveis proprietárias de casas, terrenos, servidores e diversos outros bens que contribuíam para a sua comodidade e autonomia.

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
Amonet- Deusa constituinte da Ognóade de Hermopólis. É frequente depararmo-nos em Tebas com efígies suas, enquanto versão feminina do deus Ámon, papel geralmente concedido a Mut. Diversos textos da dinastia ptolomaica apresentam-nos Amonet ou Amaunet como incarnação do vento do Norte, a mãe primordial que “é pai”, isto é, aquele que sem intervenção masculina se encontra apta a conceber os seus filhos. Algumas fontes revelam que Amonet deu à luz Ré, ou, segundo outras vozes, Ámon, enquanto personificação de Ré. É exequível aventurar que o culto dedicado à deusa ultrapassa o da sua versão masculina em antiguidade.
Identificamos Ámon nas diversas representações que o honram, como um homem ostentando sobre a sua cabeça uma coroa com duas plumas (kachuti) e em suas mãos (consoante as circunstâncias em que é invocado) o signo da vida (ankh), uma cimitarra (khopech) ou o ceptro uase, entre outros. O seu trono assenta sobre uma esteira que, por seu turno, se encontra sobre um pedestal dotado dos símbolos da deusa Maet.
Ámon, “aquele cuja natureza escapa ao entendimento”, é representado por um carneiro de chifres curvos ou, pontualmente por um ganso. Com frequência, as díspares formas de animais adoptadas por um deus confere-lhe o poder para se tornar irreconhecível ou apto a ser confundido com outra deidade. A imagem do carneiro simboliza o conjunto das forças criadoras, quer aquelas incarnadas pelo Sol, quer aquelas que permitam garantir a reprodução dos seres vivos.
“Tu és o deus oculto (Ámon), Senhor do silencioso, que acorre ao apelo do humilde, tu que dás alento a quem dele é privado” (Estela de Berlim).
 

Verónica Freitas


NÚMEROS E ESOTERISMO – PARTE I: TETRAKTYS PITAGÓRICA E DELTA MAÇÔNICO

NÚMEROS E ESOTERISMO – PARTE I
TETRAKTYS PITAGÓRICA E DELTA MAÇÔNICO

Tanto os antigos rituais como as mais antigas constituições maçônicas afirmam conjuntamente que a Maçonaria tem como finalidade o aperfeiçoamento do homem. Também os antigos Mistérios Clássicos tinham o mesmo objetivo e conferiam a “teletè”, ou seja, a perfeição iniciática. Esse termo técnico era, de acordo com o pitagórico Plutarco, etimologicamente associado a três significados: fim, morte e perfeição. Um manuscrito, achado pelo Locke  em 1696, enuncia expressamente a existência de uma relação entre a Maçonaria e a Escola Itálica fundada por Pitágoras mais de 25 séculos atrás. As mesmas Constituições de Anderson mencionam Pitágoras e o manuscrito de Cooke afirma ser a Maçonaria a parte principal da geometria. Fica, portanto, comprovado que a arte geométrica da Maçonaria deriva, direta ou indiretamente, da geometria e aritmética pitagórica.

Pitágoras (580-490 a.C.), discípulo dos mestres do Egito, da Grécia e da Caldéia, afirmava que a aritmética e a geometria não ficavam confinadas apenas no mundo da lógica. Muito pelo contrário, religião, moral, política, música, física, etc. unificavam-se no espírito cosmológico de uma autêntica teologia racional. Em particular, a geometria era a ciência que tinha por objeto o estudo do cosmo sob o aspecto da posição e da estensão. A aritmética era a ciência do ritmo, do número, do tempo, do intervalo, e o pitagórico Arquitas discriminava entre um tempo físico e um tempo psíquico.

Os números não eram considerados apenas em suas propriedades abstratas, mas também, e principalmente, em suas dimensões simbólicas, psicológicas, metapsíquicas e esotéricas. Portanto os números representavam as virtudes intrínsecas e efetivas do Grande Arquiteto do Universo, gerador e garantidor da ordem e da harmonia cósmica . Para os adeptos da Escola Itálica o um, a unidade (mônade), não era um verdadeiro “número”, mas o princípio gerador de todos os números. Analogamente o dois (díade) era tido como o gerador de todos os números pares. O primeiro verdadeiro número, o três (tríade), surgia da interação entre a mônade e a díade. Assim, todos os demais números podiam ser obtidos por simples adição a partir da unidade, criando assim uma progressão linear de números inteiros.

Todavia, a partir do três, os números podem também ter uma representação superficial. De fato o três pode ser imaginado como um terno de pontos dispostos nos vértices de um triângulo equilátero (número triangular). Assim, considerada a unidade como potencialmente triangular e o três como segundo número triangular, pode-se obter uma série ilimitada de sucessivos números triangulares mediante o desenvolvimento de um triângulo equilátero a partir de um de seus vértices. Aritmeticamente, escrita numa primeira linha a sucessão dos números lineares, pode-se deduzir a sucessão dos triangulares escrevendo a unidade sob a unidade e, sucessivamente, obter o triangular sucessivo como soma do triangular que o precede com o correspondente linear na mesma coluna na qual iremos escrever o novo triangular. Ou seja:

ass

Existe uma maneira simples para verificar se um número qualquer é triangular? A resposta se encontra na fórmula em baixo onde P(3,n) representa o número a ser investigado, 3 significa que é um triangular de ordem n. Verificamos, por exemplo, se 15 é triangular e qual a ordem dele. Substituindo e desenvolvendo obtemos que n=5, ou seja é um triangular de ordem 5, e, com efeito, o 15 se encontra na quinta coluna da lista representada acima.

Inserindo na fórmula outro número que não seja triangular, por exemplo 20, obtemos n=5,844… ou seja um número decimal. Isso quer dizer que o número examinado não é triangular.

Em geral, cada número natural pode ser escrito como soma de, no máximo, três números triangulares (eventualmente repetidos); trata-se de uma propriedade descoberta por Gauss, e é um caso particular do teorema de Fermat sobre os números poligonais.

Virtualmente existem infinitos números poligonais construídos a partir do triângulo, do quadrado, do pentágono, hexágono, e assim por diante. Do ponto de vista algébrico, todos podem ser representados por meio da expressão P(l,n), onde P significa número poligonal, l é o número dos lados do polígono e n a ordem. Em consideração da importância especial dos números pentagonais, é aqui transcrita a fórmula que permite verificar rapidamente se um determinado número é pentagonal e a ordem dele.

O leitor poderá imediatamente constatar que, por exemplo, os números 35 e 70 são pentagonais respectivamente de ordem 5 e 7. Uma relação bonita entre o 5° pentagonal e o 7° quadrado, na qual se evidencia uma ulterior ligação entre os números quatro, cinco e sete, é a seguinte:

A partir do quatro os números admitem também uma representação espacial. Temos assim os números tetraédricos, piramidais, cúbicos, etc. É fácil observar como para delimitar um segmento de reta são necessários dois pontos, enquanto para delimitar uma porção de plano precisamos, no mínimo, de três pontos. Analogamente o número mínimo de planos ocorrentes para delimitar uma porção de espaço é quatro. O sólido formado pela interseção de quatro planos é o tetraedro e, como nesse poliedro existem quatro vértices, apenas quatro pontos (tétrade) são necessários e suficientes para defini-lo univocamente. Segundo Platão o tetraedro é a última partícula que constitui os corpos: o átomo da Natureza.

Em síntese, acrescentando uma unidade à unidade se passa do ponto à linha, delimitada por dois pontos; acrescentando a esses dois pontos um terceiro ponto se passa ao plano definido pelo triângulo. Enfim, acrescentando mais uma unidade se passa ao espaço mediante o tetraedro e nessa altura o processo pára, pois não faz sentido acrescentar mais um ponto fora do tetraedro. O conjunto formado pela mônade, díade, tríade e tétrade compreende tudo: o ponto, a linha, a superfície e o espaço. De consequência, no pensamento filosófico pitagórico a “tetraktys” (grupo de quatro) dos números 1, 2, 3 e 4 é perfeita porque compreende todos os aspectos do universo material sólido. Sobre essa tetraktys os pitagóricos prestavam juramento com essas palavras:  “Eu juro por aquele que transmitiu à nossa alma a tetraktys, na qual se encontram a fonte e a raiz da eterna natureza“.

Como a soma 1 + 2 + 3 + 4 = 10, obviamente dez é um número perfeito. A perfeição, ou seja, o completamento da manifestação universal, é portanto alcançada com o número 10. A década, que corresponde ao quarto número triangular, contém tudo, da mesma forma que a mônade contém potencialmente tudo. A representação geométrica do quarto número triangular é a seguinte:

Essa reprodução da tetraktys é um verdadeiro símbolo enquanto representa contemporaneamente um triângulo equilátero (o mais perfeito dos triângulos) e dez pontos dispostos em quatro linhas contendo respectivamente a mônade, a díade, a tríade e a tétrade. Uma outra importante relação entre o dez e o quatro é que a quarta letra do alfabeto grego, (delta), é justamente a inicial da palavra grega decas (década) e tem a forma de um triângulo equilátero. Sem dúvida, porém, a evidência mais impressionante do caráter globalmente simbólico da tectraktys decorre da relação entre quatro e dez estabelecida pela física moderna. Efetivamente, embora o comportamento macroscópico do universo seja totalmente descrito por um sistema de referência espaço-temporal caracterizado por quatro dimensões (x, y, z, t) , as mais recentes teorias sobre a estrutura submicroscópica da matéria (superstring theories) necessitam de um espaço constituído de dez dimensões . Observamos, enfim, que também para os modelos de supercordas com número de dimensões maior de dez, as dimensões podem ser compactadas a partir do modelo em seis dimensões proposto por Calabi-Yau. Lembramos que o seis é um número triangular.

O símbolo pitagórico da tetraktys, na sua forma esquemática triangular, já existia no santuário de Delpho mais de 2500 anos atrás e coincide manifestamente com o Delta maçônico. Ocasionalmente o Delta tem sido interpretado como um símbolo da Trindade, mas, como observou o ilustre esoterista italiano Arturo Reghini , o caráter esotérico do Delta pitagórico-maçônico nada tem a ver com o cristianismo, sendo a tetraktys um símbolo inegavelmente pagão.

FIM DA PARTE I

Prof. Dr. Alberto Malanca
Parma, Itália

 


BIBLIOGRAFIA:

  • A. Reghini. “La tradizione Pitagorica Massonica”, Fratelli Melita Editori, Genova (1988).

  • F.X. Chaboche. “Vida e Mistério dos Números” Hemus Editora, São Paulo (2005).

  • M. Chown. New Scientist, 24 October 1998, pp. 29-32.

  • C. Knight, R. Lomas. “La Chiave di Hiram” Mondadori, Milano, (1997).

  • A.L. Lehninger. “Biochemistry” Worth Publishers, Inc., New York (1972).

  • J. Gleick. “Caos” – RCS Libri S.p.A., Milano (1997)

  • M. Du Sautoy. “L’Enigma dei Numeri Primi” RCS Libri S.p.A., Milano (2004).

  • I Vangeli Apocrifi Giulio Einaudi editore, Torino (1990).

  • K. Ford. “The world of elementary particles” Blaisdell Publishing Company (1963).


ÁTON


Saciados os céus no faustoso festival de luz que exaltava o excelso palácio do dia, o Sol abdica do seu eterno trono de turquesas e, velando a sua mística silhueta d’ ouro com as exóticas sedas do poente, estira-se languidamente no lendário tálamo do horizonte, preludiando a noite que já brotava no Infinito. À semelhança de tantas outras civilizações da Antiguidade, os egípcios veneravam o Sol como a mais importante deidade da sua inebriante religião, prestando-lhe um culto sincero e apaixonado enquanto deus primordial, ourives da criação que nos primórdios da existência talhara a jóia do universo, fonte da vida e alimento perpétuo.

No panteão egípcio, inúmeras são as deidades que incarnam o sublime regente dos céus, e, em particular, o seu rutilante ceptro de luz ou a força criadora que em seu extasiante esplendor se renovava, como é o caso de Horakhti, “o Hórus do Horizonte”, identificável como um homem de cabeça de falcão, sobre a qual repousa um disco solar; ou Ámon- Rá, deidade venerada em Tebas, cujo fastígio de luz, cálice solar derramado ao florir da aurora, sublimava o firmamento e conduzia a humanidade até à apoteose divina. Todavia, o desejo de se designar o astro- rei em si ou de evocar o disco solar somente era satisfeito através do pronunciar de uma única palavra: Áton. Enquanto variante aperfeiçoada de Ré- Horakthi, Áton era já alvo de um culto modesto mesmo antes da radical subversão de Akhenaton. Na realidade, as primeiras menções ao seu nome, enquanto designação do globo luminoso, datam do Antigo Império, podendo ser encontradas nos “Textos das Pirâmides”. Porém, é somente na 18ª dinastia, mais exactamente no reinado de Amenófis III, que Áton torna-se no centro de um desafio a toda a realidade conhecida, ao satisfazer o desejo deste faraó e, de seguida, do seu filho Amenófis IV, de centrar a religião egípcia num único deus. Mas que caminhos trilhou Áton até alcançar o estatuto supremo, ou seja, o de divindade dinástica? Ao longo de dezassete anos, a alma do Egipto ardeu no cálido e conturbado vórtice de uma revolução, fruto de paixões férvidas e imensuráveis, concebidas por um coração eivado de poesia e espiritualidade: o de Akhenaton, “O Herético”, faraó cujo reinado se encontra envolto num obscuro véu de densos enigmas, propiciados pela escassez de materiais históricos concretos.

Fruto da união entre o faraó Amenófis III e a rainha Teie, Amenófis IV galgou as veredas da infância e os labirintos da adolescência entre o fastígio do imponente palácio tebano de Malgatta, onde se submeteu a uma educação rigorosa, que visava despertar e esculpir, diligentemente, não somente as suas faculdades intelectuais, como as suas capacidades físicas. O seu mentor, Amenotep, filho de Hapu, inculcou no espírito algo sonhador do jovem príncipe o respeito pela Luz Criadora, cujo fulgor animava igualmente os deveres sagrados inerentes ao trono, que Amenófis IV ocupou em 1364 a . C., quando detinha apenas quinze anos. A seu lado, resplandecia uma jovem de beleza esplendorosa, Nefertiti, a quem, todavia, se havia unido por imposição de dirigentes egípcios, que ignoravam a devastadora paixão que entrelaçaria, posteriormente, as almas dos dois soberanos. Esta jovem rainha, Nefertiti, cujo nome significa “a bela veio”, pertencia, segundo a opinião de diversos historiadores, a uma famigerada família de um poderoso elemento da corte, versão contestada por alguns que afirmam que a soberana era na realidade filha de Amenófis III.

Inúmeras dúvidas adornam o exórdio do reinado de Amenófis IV, uma vez que se coloca a hipótese deste haver governado em simultâneo com seu pai, probabilidade contestada por uma fracção da comunidade egiptóloga. Desta forma, segundo a hipótese escolhida, observa-se uma variação de dados e datas. No quinto ano do seu reinado, o jovem soberano, agora com vinte anos, entrega a sua alma ao deus solar Áton, considerado a fonte de toda a vida, chegando mesmo a renegar o seu nome, com o fito de tomar a designação de Akhenaton, ou seja, “espírito eficaz para Áton” ou “aquele que agrada a Áton”, numa clara homenagem a esta deidade criadora. O seu fulgor fendeu o fausto ostentado pelas demais divindades egípcias, cujos cultos seculares Akhenaton desejou dilacerar, prostrando-os diante da luz que o enfeitiçava. Na realidade, semelhante politeísmo havia sido gerado no exórdio dos tempos pré-históricos, quando o Egipto se compunha de inúmeros reinos exíguos, cada um dos quais protegido por um deus próprio e distinto, geralmente, representado sob a forma de um animal. Todavia, muito cedo os Egípcios principiaram a venerar o Sol como uma deidade, à qual concederam a denominação de deus- sol Rá, uma soberano supremo com o qual gradualmente os deuses locais foram-se identificando e fundindo. Desta forma, o lógico ultimar de tão prolixa evolução deveria ter sido a assimilação dos díspares deuses locais numa só divindade. Porém, tal conclusão mostrar-se-ia deveras inconveniente para os diversos sacerdotes, sustentados pelas oferendas realizadas em honra das inúmeras divindades egípcias, cujo culto se realizava igualmente nos luxuosos templos, que os albergavam.

Ao tomarem Tebas como sua capital, os faraós tornaram Ámon no mais prestigiado dos deuses egípcios, concedendo aos sacerdotes que lhe prestavam culto um poder imensurável, que atingiu o seu apogeu, quando esta divindade se fundiu com o deus- solar Ra. Na verdade, não era contra Ámon, em concreto, que Akhenaton se batia, mas sim, contra a poderosa hierarquia religiosa tebana , que principiava a desafiar, embora subtilmente, a autoridade real. Desta forma, Akhenaton adopta o título de sumo- sacerdote de Heliópolis, denominando-se assim de “o maior dos videntes”, num acto que o prendeu à mais antiga expressão religiosa, considerada mais pura do que a religião tebana. Porém, é em Carnaque, templo dedicado a Ámon, que Akhenaton esculpe a sua visão, ordenando aos escultores que concebessem um ser singular, delineado num vórtice de características masculinas e femininas, que se reflectem, entre outros, num rosto deformado e num ventre saliente evocando uma fecundidade, que pretendia ilustrar que o faraó é mãe e pai de todos os seres.Após ter defrontado uma vez mais os sacerdotes tebanos ao retirar-lhes a gestão de intrínsecos bens temporais, inerentes ao trono do Egipto, Akhenaton reserva-lhes , no sexto ano do seu reinado, um novo sobressalto, ao tomar a decisão de criar uma nova cidade, desenhada na luz sublime de Áton, abandonando, deste modo, Tebas. O local eleito, “revelado pelo próprio Áton”, repousa na orla direita do rio Nilo, entre Mênfis e a antiga capital dos faraós, sendo actualmente conhecido pelo nome de Tell El- Amarna.

Nesta cidade, construída com uma rapidez surpreendente, Akhenaton manda erigir um palácio que o acolha e um tempo onde lhe seja possível prestar culto à luz que o inunda. O esplendor quase celestial de ambas as construções desvaneceu-se no compasso do tempo, restando agora apenas uma ideia prófuga a seu respeito. O faraó concedeu à sua cidade o epíteto de “Cidade do Sol”, jurando jamais abandoná-la, promessa que cumprir até ao eclipsar da sua existência. Diversos funcionários administrativos, escribas, sacerdotes, militares, artífices e camponeses desprenderam-se da sua antiga cidade para seguirem, obedientemente, o faraó. A cidade torna-se acolhedora, detendo largas avenidas, zonas verdejantes, parques sublimes e mansões nobiliárias, que abraçam a divina luz solar. Por seu turno, o referido templo erguido em honra de Áton revela-se díspar dos demais santuários construídos ao longo da décima oitava dinastia, devido à ausência de salas veladas pela escuridão, onde os cultos eram celebrados, quase secretamente. Em contraste, possuía inúmeros pátios brindados pela luz, que conduziam ao altar do deus solar, onde eram depositadas dádivas sumptuosas. Áton, deus de amor e luz, era geralmente representado sob a forma de um disco solar, ornamentado na maioria das vezes com um uraeus, símbolo de soberania, e cujos raios resplandecentes terminavam em mãos que agraciavam a humanidade com carícias celestiais.

Teoricamente, o culto dedicado àquele que se convertera “no pai dos pais e na mãe das mães”, facultava a todos o acesso ao Divino, já que para adorar Áton, bastaria dirigir-se ao magnificente soberano da luz. Contudo, tal ideologia sagrou-se numa utopia impressiva, terrivelmente aparada da realidade, uma vez que a essência de Áton persistia num paraíso proibido aos simples mortais, aos quais era oferecida a presença efectiva do deus no céu, mas não a compreensão do mesmo. Como tal, tornou-se vital a existência de um intermediário, que simultaneamente incarnasse as luzentes manifestações do deus único e permitisse ao mais comum dos mortais com ele comungar. Ocupando este intrínseco papel de mediador, Akhenaton converte-se então no único profeta do seu deus e seu representante junto dos crentes. Estes, por seu turno, prestavam culto a Áton através de uma oblação algo inusitada, que se concretizava numa oração pronunciada em casa, diante da estátua do rei. Na realidade, não se contentando em reformular a religião egípcia, Akhenaton introduziu no panteão artístico, além das insólitas silhuetas andróginas e de ventres salientes que traiam um estado de gravidez perpétuo, crânios alongados e rostos deformados, que se distanciavam deveras dos ideais cultivados anteriormente.

Nefertiti permanece imutavelmente ao lado do seu esposo, a quem dedica um amor imensurável, apenas comparável à devoção que a leva a prostrar-se diante da magnificência de Áton, a cujo culto se entrega, literalmente. Tornada num fascinante símbolo de beleza, a rainha exerce uma vital função religiosa, sendo “aquela que faz repousar Áton com a sua bela voz e as suas belas mãos, que seguram sistros”. Esta soberana, cujas responsabilidades políticas são inegáveis, oferece porém o seu coração ao amor que nutre pela sua família, que, no espírito de Akhenaton, é um estigma da vida divina., cujo esplendor merece ser imortalizado por artistas. Desta forma, os regentes concedem-nos, em diversas representações, a prerrogativa de perscrutarmos o seu lar, onde o enlace entre um homem e uma mulher é contemplado como um enlevo sagrado. Num baixo- relevo, repleno de ternura, Nefertiti, sentada nos joelhos do rei, segura uma das suas seis filhas; noutro, é esculpida a dor ímpar que devastou o casal régio, prostrado diante do féretro da sua segunda filha, perecida em consequência de uma prolongada enfermidade. Sacerdote e profeta de uma deidade nimbada por um halo de energia que concebe a vida, Akhenaton inicia determinados dignitários nos sacros mistérios de Áton, entregando-se, literalmente, a esse papel de mestre espiritual. Concomitantemente, emprega cada lampejo das sua forças à concepção de um sublime hino, que muitos consideram, flagrantemente, semelhante aos Salmos de David, nomeadamente, ao salmo 104.

Hino ao Sol

Bela é a tua alvorada, oh Áton vivo, Senhor da eternidade!
Tu és brilhante, tu és belo, tu és forte!
Grande e profundo é o teu amor; os teus raios cintilam nos olhos de todas as criaturas; a tua pele espalha a luz que faz os nossos corações viver.
Tu encheste as Duas Terras [nota: Akhenaton refere-se ao Egipto] com o teu amor, oh belo Senhor, que a ti mesmo te criaste, que criaste a Terra inteira e tudo o que nela se encontra: os homens, os animais, as árvores que crescem no chão.
Levanta-te para lhes dar vida, pois tu és a mãe e o pai de todas as criaturas. Os seus olhos voltam-se para ti, quando ascendes no firmamento. Os teus raios iluminam toda a Terra; o coração de cada um enche-se de entusiasmo, quando te vê, quando tu lhe apareces como seu Senhor. Quando te pões no horizonte ocidental do céu, as tuas criaturas adormecem como mortos; obscurecem-lhes os cérebros, tapam-se-lhes as narinas, até que de manhã se renova o teu brilho no horizonte oriental do céu.
Então, os seus braços imploram o teu Ka, a tua beleza acorda a vida e renasce-se! Tu ofereces-nos os teus raios e toda a Terra está em festa; canta-se, toca-se música, soltam-se gritos de alegria no pátio do castelo do Obelisco , o teu templo de Akhenaton, a grande praça que tanto de agrada, onde te oferecem alimentos como homenagem…
Tu és Áton, tu és eterno… Tu criaste o longínquo céu para aí te elevares e veres as coisas que criaste. Tu és único e, no entanto, dás vida a milhões de seres, é de ti que as narinas recebem o sopro da vida. Quando vêem os teus raios, todas as flores vivem, essas mesmas que crescem no chão e se abrem quando tu apareces. Com a tua luz se embriagam. Todos os animais se levantam de um salto, os pássaros que estavam nos seus ninhos abrem as suas asas, para fazerem preces a Áton, fonte da vida.

Convidemos, por instantes, este cântico devoto a adornar a nossa imaginação, permitindo-nos pressentir a fé ardente com que era entoado, entre o vibrar das cordas de uma harpa, que brindava cada alvorada e cada crepúsculo com a sua alma melódica. No exórdio das drásticas alterações religiosas, Áton ocupava um lugar de supremacia diante dos outros deuses, com quem, porém, coexistia. Somente após longos confrontos com os sacerdotes, Akhenaton ordenou enfim a supressão de todas as divindades egípcias, à excepção do seu deus- solar, ordenando que os seus nomes fossem apagados dos templos, num linchamento espiritual que principiou com Ámon. As razões e modo de aplicação desta estratégia religiosa encontram-se todavia sepultados sobre os escombros da obscuridade. Apesar da persistência febril do soberano, as divindades que ele tentara aniquilar permaneceram vivas no interior das casas de inúmeros egípcias, que continuaram a prestar-lhes culto, secretamente. De súbito, a alma egípcia colheu do reinado de Akhenaton uma rosa perlada pelo sacrilégio, que havia florescido de um gesto talhado num atroz equívoco: a supressão de Osíris, cujo culto era nimbado pela irresistível fragrância da imortalidade, quimera que escravizava o coração dos Egípcios. Desafiando a reconfortante noite de uma tradição secular com a rutilante aurora de uma herética subversão, Akhenaton concede ao seu deus a prerrogativa de usurpar os atributos e incumbências do venerado Osíris. Por conseguinte, em todas as representações funerárias datadas deste período de tempo, o personagem principal não é senão Akhenaton, mensageiro do deus único tanto na terra como no Além. 

Porém, a récita de indignação que rasgava o peito Egípcio esbateu-se em cânticos de submissão, elevados mesmo no instante em que o soberano proibiu o pronunciamento da palavra “deuses”. Eclipsada pela celestial visão da “Cidade do Sol” e pelo divino alento de enaltecer o esplendor de Áton, a liderança do Egipto tombou, negligentemente, numa remota e obscura lacuna da alma do regente, de cujas mãos sonhadoras resvalaram um imensurável rol de erros. Abominando conflitos ou guerras, Akhenaton adopta uma política de passividade, crendo que o prestígio do Egipto bastará para preservar o equilíbrio no Próximo Oriente. Desta forma, desvanece o halo de protecção que o faraó deve manter em torno dos seus aliados, permitindo que gradualmente o império formado por Tutmósis III se desintegre nas mãos do poderoso povo hitita. Embora tenha já perdido a maioria dos seus vassalos, corrompidos ou ameaçados, Akhenaton continua a ignorar os desesperados pedidos de auxílio provindos daqueles que ainda lhe são fiéis. A morte de Ribaldi, príncipe da Síria, que pagara com a sua vida semelhante fidelidade não rasgam tão denso véu de passividade. Esta ausência de qualquer reacção por parte do faraó fá-lo perder os portos fenícios, acentuar a revolta da Palestina, permitir a atroz chacina que levou ao desaparecimento de Mitanni, aliado do Egipto. O mutismo de Akhenaton talha o brilho feroz das armas dos hititas e assírios, tingidas do sangue de aliados egípcios. Como não conceder à atitude do regente o epíteto de deplorável? Como não condenar o seu reinado, conspurcado pelo travo do sangue? Porém, é possível argumentar a seu favor: talvez os relatórios que repousavam nas mãos fossem incompletos, adulterados ou mesmo falsos. Ter-se-ia ele, de facto, apercebido, da aterradora gravidade da situação? A luz de Áton tornou-se, para os egípcios, num fragmento das trevas, que invadiam, gradualmente, o seu pais, já fustigado por graves perturbações económicas, florescidas da ausência de tributos pagos por aliados. Os inimigos de Akhenaton fizeram ressoar a sua cólera nos murmúrios do rio Nilo, bordando-a, de seguida, num apelido significativo: “O Herético”. Na realidade, somente Akhenaton e um exíguo grupo de fiéis entregavam a sua alma à luz de Áton, deidade incapaz de silenciar os clamores tentadores de Osíris, de cujos braços o povo egípcio não se ousava desprender. 

O Sol do seu reinado extinguiu-se num céu de enigmas. Que sucedeu a Nefertiti após o ano 15 do reinado de Akhenaton? Ter-se-á oposto, igualmente, à conduta de seu esposo ou terá entoado cânticos dedicados a Áton até ao seu derradeiro suspiro? Crê-se que talvez a rainha tenha perecido no ano 13 ou 14 do reinado de Akhenaton, dilacerando o sopro de vida que ainda brincava no semblante do soberano. A sua morte perde-se na fragrância do desconhecido, suspeitando-se apenas que não tenha sido sepultado no túmulo familiar que mandara escavar em Amarna e onde já jazia o corpo da sua segunda filha. A “Cidade do Sol”, sublime oferenda a Áton, foi abandonada à aridez do deserto, sendo considerada como o fruto da heresia.

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
Amarna, cidade localizada na margem direita do Nilo, mais exactamente a cerca de 280 km do Cairo, conquistou o tempo, tornando-o escravo dos seus caprichos, a fim de legar à eternidade algumas das mais magníficas obras de arte egípcia, como é o caso do famigerado busto de Nefertiti, encontrado numa oficina de escultura, e que hoje deslumbra visitantes de todo o mundo, no Museu Egípcio de Berlim. De resto, a luzente “Cidade do Sol” foi igualmente testemunha da subversiva arquitectura dos sumptuosos templos erigidos em honra de Áton. Com efeito, estes extasiantes edifícios a céu aberto contrastam terrivelmente com a arquitectura tradicional característica dos templos dedicados a Ámon.
 

Verónica Freitas


Egipto e Maçonaria

Esta secção refere-nos a ligação entre a Maçonaria e o Antigo Egipto, que tem largamente sido relatada através de lendas, como a do assassínio do mestre Hiram Abiff. Sempre que seja propício, novos artigos serão publicados, tentando estabalecer uma relação mais concreta entre ambos.

I – O ASSASSÍNIO DE HIRAM ABIFF
“A lenda do Mestre Construtor [Hiram Abiff] é a grande alegoria maçónica. Na realidade, a sua história figurativa é baseada numa personalidade das Sagradas Escrituras, mas os seus antecedentes históricos são de acontecimentos e não da essência; o significado reside na alegoria e não em qualquer facto histórico que possa estar por detrás.” – A.E. Waite, New Encyclopedia of Freemasonry 

A lenda de Hiram Abiff está intrinsecamente ligada às origens do Templarismo Germânico. “Alguns deste manuscritos do século XVII [preservando as ‘Old Charges’] não se referem a Hiram Abif, o que levou alguns a crer que esta «personagem» seria uma invenção de um período mais recente. Todavia, o nome Hiram Abif era meramente uma das designações desta figura fulcral; ele é também mencionado como sendo Aymon, Aymen, Amnon, A Man ou Amen e, por vezes, Bennaim. É dito que Amen é a palavra hebraica para ‘aquele em que se confia’ ou ‘o crente’, o que se aplica perfeitamente ao papel de Hiram Abiff. Mas é também sabido que Amon or Amen é o nome do deus ancestral da criação de Thebas, a cidade de Sequenere Tao II. Poderá aqui existir uma ligação ancestral?” – Christopher Knight & Robert Lomas, The Hiram Key: Pharaohs, Freemasons and the Discovery of the Secret Scrolls of Jesus. 

“Para o construtor iniciado, o nome Hiram Abiff significa ‘Meu Pai, o Espírito Universal, uno em essênciao, três em aparência.’ Ainda que o Mestre assassinado seja o estereotipo do Mártir Cósmico – O Espírito crucificado do Bem, o Deus moribundo – cujo Mistério é celebrado por todo o mundo.”

“Os esforços levados a cabo para descobrir a origem da lenda de Hiram demonstram que, apesar da forma relativamente moderna de representação da lenda, os seus princípios fundamentais remontam a uma longínqua Antiguidade. É habitualmente reconhecido pelos estudiosos maçónicos que a história do martirizado Hiram é baseada em antigos rituais egípcios do deus Osiris, cuja morte e ressurreição retratam a morte espiritual do Homem e sua regeneração através da iniciação nos Mistérios. Hiram é também identificado com Hermes através da inscrição na Placa de Esmeralda.” – Manly P. Hall, Masonic, Hermetic, Quabbalistic & Rosicrucian Symbolical Philosophy 

“De acordo com as Escrituras, Hiram não era um arquitecto, mas um mestre no trabalho do latão e bronze. Ele não terá sido assassinado, mas terá vivido para ver o templo construido, tendo então regressado à sua terra natal.” – Baigent & Leigh, The Temple and the Lodge 

“A única explicação razoável para se ter chegado ao verdadeiro nome do heroi maçónico é que Hiram significava ‘nobre’ or ‘real’ em Hebreu, enquanto Abiff foi identificado como sendo francês antigo para ‘o que se perdeu’, originando uma descrição literal de ‘o rei que se perdeu’.” – Christopher Knight & Robert Lomas, The Hiram Key: Pharaohs, Freemasons and the Discovery of the Secret Scrolls of Jesus 

Knight e Lomas avançam a teoria de que Hiram Abif era, na realidade, Sequenere Tao II, o verdadeiro rei egípcio que viveu em Thebas, cerca de 640 kilómetros a sul de Hyksos, capital de Avaris, perto dos limites do reino de Hyksos. Sequenere era o “novo rei do egipto, que não conhecia José”, que foi vizir por volta de 1570 A.C. Apophis, especula-se, quereria conhecer os rituais secretos de Horus, que permitiam ao faraós transformarem-se em Osiris na morte e viver eternamente como uma estrela. Apophis enviou homens a seu soldo para extrair a informação de Sequenere, mas ele mais facilmente morreria com violentas pancadas na cabeça antes de contar alguma coisa; na verdade, foi o que aconteceu. 

A identificação de Hiram Abif como sendo Sequenere baseia-se no crânio da múmia, o qual parece ter sido esmagado por três golpes aguçados, como os que foram deferidos em Hiram Abif. E quanto aos assassinos descritos no folclore maçónico como Judeus? Knight e Lomas sugerem que estes serão dois dos irmãos expatriados de José, Simeon e Levi, auxiliados por um jovem padre de Thebast. Como prova, Knight e Lomas apontam a múmia encontrada ao lado da de Sequenere. O corpo não embalsamado pertencia a um jovem que morreu com os orgãos genitais cortados, e com um estertor de agonia no rosto. Teria ele sido enterrado vivo como castigo pelo seu crime? 

“Os rituais maçónicos referem Hiram Abif como o ‘Filho da Viúva’… na lenda egípcia, o primeiro Horus foi concebido após a morte de seu pai, pelo que a mãe já era viúva mesmo antes da concepção. Parece lógico que, todos os que, daí em diante, se tornaram Horus, i.e., os reis do Egipto, se apelidaram de ‘Filho da Viúva'” [ver «Isis, the Black Virgin» para mais informação.]  – Christopher Knight & Robert Lomas, The Hiram Key: Pharaohs, Freemasons and the Discovery of the Secret Scrolls of Jesus.

 

II – THOTH E ENOCH
“No antigo Egipto, aos engenheiros, projectistas, e maçons que trabalhavam nos grandes projectos arquitectónicos era concedido um estatuto especial. Eram organizados em  corporações (ou associações) de elite…”

“Foram encontradas, pelo arqueólogo Petrie, provas da existência dessas corporações especiais, durante as suas expedições ao deserto do Líbano em 1888 e 1889. Nas ruínas de uma cidade construída por volta de 300 a.C., a expedição do dr. Petrie descobriu diversos registos em papiro. Uma parte descrevia uma corporação que mantinha reuniões secretas por volta de 2000 a.C.. A corporação reunia-se para discutir o nº de horas de trabalho, salários e regulamentos do trabalho diário. Reunia-se num local de culto e providenciava apoio a viúvas, orfãos e trabalhadores em dificuldades. Os deveres organizacionais descritos nos papiros são extremamente semelhantes áqueles atribuidos ao ‘Vigilante’ e ‘Venerável’ num ramo moderno da…. Maçonaria.” – William Bramley, The Gods of Eden 

“Eu sou o grande Deus na barca divina… sou um simples padre no inferno da sagração de Abido, subindo a degraus mais altos da Iniciação… sou o Grande Mestre dos artífices que elevaram o arco sagrado como suporte.” – Thoth to Osiris, The Egyptian Book of the Dead

“De acordo com uma velha tradição maçónica, o Deus egípcio Thoth ‘teve grande participação na preservação do conhecimento do ofício maçónico e na sua transmissão á humanidade após as grandes cheias…’ – David Stevenson, The Origins of Freemasonry

“…O autor de um estudo académico bem fundamentado [The Origins of Freemasonry]… chegou ao ponto de dizer que, no ínicio, os Maçons consideravam Thoth como o seu patrono.”

“…O Livro de Enoch foi sempre de grande significado para a Maçonaria, e… certos rituais anteriores à época de Bruce (1730-1794) identificavam Enoch com Thoth, o Deus egípcio da Sabedoria.” Na Royal Masonic Cyclopaedia há uma entrada referindo que ‘Enoch é o inventor da escrita’, ‘que ensinava aos homens a arte da construção’ e que, antes das cheias, ele ‘temia que os verdadeiros segredos se perdessem – para o prevenir este escondeu o Grande Segredo, gravado numa pedra de pórfiro e enterrado nas entranhas da Terra’.” – Graham Hancock, The Sign and the Seal.


TRÍPLICE ARGAMASSA

“[…].
Conceda-nos o auxílio de Tuas Luzes e dirige os nossos trabalhos a perfeição. Concede que a Paz, a Harmonia e a Concórdia sejam a tríplice argamassa com que se ligam nossas obras.
[…].” 

Por que começo o trabalho pelo final da ritualística meus Irmãos? Por que se pretende fechar a Oficina? Não, de maneira alguma faria tal violação aos nossos mandamentos. É necessário começar pelo fim, pelo encerramento dos trabalhos da Loja por conta da importância da  das palavras e do sentido “tríplice argamassa”.

A própria ritualística nos traz que a “tríplice argamassa” é composta por 3 (três) elementos que são: a “paz, a harmonia e a concórdia”. Mas por que escolher um tema desses para apresentar em Loja? Para responder tal questionamento necessário trabalhar um pouco a simbologia e o significado desses elementos tão importantes.

No Livro escrito por Raymundo D’Elia Júnior, intitulado “Maçonaria: 100 instruções de aprendiz”, há o ensinamento de que uma Loja deve ser edificada a um “templo Interior” diferente do que ocorre com os profanos, ou seja, um Templo onde prevaleça sempre a piedade, a amizade e “sobretudo, extremamente Justo.”  Para o exercício da justiça Irmãos é necessário que tenhamos “paz, harmonia e concórdia”.

Ao longo dos trabalhos que são realizados em grupo, onde cada irmão Mestre tem seu papel fundamental na composição da Oficina, fazendo com que assim, mesmo com o trabalho individual seja composto o “todo”, sendo neste “todo” que as energias começam a fluir e por meio desta energia conseguimos enriquecer o nosso “templo interno”.

O fato dos trabalhos serem em grupo se respeita assim um dos mandamentos da Maçonaria chamado de Landmark. Ainda, não haveria a troca de energias se não existisse o trabalho em grupo, não enriqueceríamos com as experiências dos Irmãos se não estivéssemos em grupo. 

Como ensina D’Elia Júnior, os trabalhos em Loja, em grupo, vertem do Landmark de número 9, com redação da seguinte forma, conforme o referido doutrinador: “Os Maçons se ‘congregam’ em Lojas Simbólicas.”  Logo, toda a Loja deve os Irmãos congregarem e esta congregação deve se dar por conta da argamassa composta pelos 3 (três) elementos, sendo eles: “Paz, Harmonia e Concórdia” que unidos e misturados torna-se a “tríplice argamassa” que une os nossos trabalhos, que une nossas energias, e que une os nossos conhecimentos tirando-nos das trevas. 

Se tivéssemos como sociedade o mesmo proceder que temos em Loja teríamos menos problema, menos desigualdades sociais, menos violência, menos conflito, as relações entre as pessoas seriam mais tranquilas, com base na “Paz, Harmonia e Concórdia”. Essa ‘tríplice argamassa”  nos faz crescer, nos faz termos tolerância e senso de justiça.

Para que os trabalhos ocorram de forma “Justa e Perfeita” é necessário que os Irmãos estejam entrelaçados, unidos por meio da “tríplice argamassa”, pois sem ela não há Loja, se não houver a comunhão em Loja, por meio da União, não há “egrégora”, e não fluindo a energia não passamos de simples (re)produtores de um ritual como tantos presentes na vida profana. Sem esta União e a mistura não há a troca de energias e por conta disso não ocorre o aprimoramento individual, não ocorre o “desbastar a pedra bruta” inclusive.

Vejam Irmãos que o V.’.M.’. evoca ao G.’.A.’.D.’.U.’. que una as nossas obras com a “tríplice argamassa”, sendo ingredientes dessa “argamassa” a “Paz, Harmonia e a Concórdia”, elementos faltantes em nossa sociedade.

Vivemos um tempo de preocupação, um tempo de discórdia e de (des)harmonia, um tempo de desencontros e de individualismo intenso. Estamos na era do consumismo, ou seja, da valorização das pessoas pelo o que elas tem sempre vinculado a um patrimônio ou até mesmo a estética de um poder aquisitivo, isso sempre em detrimento ao que a pessoa é como ser-humano, como ser no mundo.

No contexto social atual por conta da sensação de insegurança, por conta da globalização das informações por meio da tecnologia, vivemos uma relativização do tempo estático e com isso surge também a sensação de que tudo está perdido e que estamos em desordem total. Não podemos esquecer que Illa Priggogine, físico contemporâneo, em seus estudos aponta para ordem inclusive no caos o que é desconhecido por muitos e por conta deste desconhecimento cada vez mais as sensações em sociedade são mais intensas de que vivemos um tempo perdido.

Na contra-mão da atualidade percebemos o significado magnífico que tem a evocação  antes relatada que é parte do Ritual, ou seja, o pedido para que o Grande Arquiteto, que é Deus, nos una por meio das nossas obras, bem em um momento que os profanos parecem estar desencontrados e desorientados.

É nesse momento que lembro a aclamação feita por meio de Carta da Poderosa Assembléia Legislativa Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul, que clamada para que nós tomemos as nossas posições neste mesmo Estado. No entanto, os irmãos podem estar se perguntando e a dúvida pairando sobre os seus pensamentos, pois a aclamação foi para aqueles que possuem um lugar ou tem a possibilidade de tomar seus lugares em uma posição social de relevância no poder estatal. Entendo que a aclamação da Poderosa Assembléia foi no sentido mais latu sensu do que estrictu sensu, pois todos nós possuímos uma posição de destaque no seio social no qual estamos inseridos, desde a simples (que não é tão simples assim) posição de pai, chefe de família, empresário, educador, político e etc; não importa a posição que temos ou podemos exercer, podendo inclusive ser várias ao mesmo tempo. É por meio destas posições e dos atos que delas decorrem que podemos plantar nas pessoas, com nossos exemplos de vida, princípios diferentes do que estes do consumo, do tirar proveito das pessoas, da (in)volução presente na sociedade.

É evidente que falta na sociedade “paz”, bem como também falta a “harmonia”, sem contar a falta de “concórdia”, pois aparentemente tenho a sensação de que estamos na era da discórdia, ou seja, é moda discordar mesmo que não se tenha fundamentos plausíveis e razoáveis para fundamentar tal discordância. Quando não vemos pessoas discordar uma das outras e chegar no calor da problematização partirem para a violência física e verbal.

Fraternos Irmãos é necessário e importante para a evolução de nossa sociedade que passemos exemplos de “paz”, de “harmonia” e de “concórdia”, buscando o consenso e o auxílio do nosso próximo profano. É necessário que venhamos a nos importar com o que acontece em sociedade sob pena de sucumbirmos os mesmos males que vem sofrendo a nossa sociedade, sucumbirmos por valores perdidos.

Bertold Brecht, em um dos seus poemas, retrata da seguinte forma a necessária posição de tomar parte do problema e não ficarmos de braços cruzados para eles, quando necessário for tomemos a dos direitos estabelecidos sob pena de perdermos eles por falta de seu regular exercício, o poema diz o seguinte:

Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego também não me importei
Agora estão me levando, mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo. 

Fraternos Irmãos cada vez mais estou certo de que temos que (re)passar a “paz”, a “harmonia” e a “concórdia” que temos entre nós em Loja para a sociedade que vivemos. Esta (re)passagem se dará por conta dos nossos atos, na nossa probidade, dos nossos ensinamentos aos nossos filhos, aos nossos companheiros de labuta, aos nossos vizinhos, este será o nosso legado e por ele seremos lembrados.

Tiago Oliveira de Castilhos
A.’. M.’. – A.’.R.’.L.’.S.’. Sir Alexander Fleming 1773, OR.’. de Porto Alegre/RS (Brasil)

 

 

 


 

BIBLIOGRAFIA:

  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução da 1ª edição brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi. Revisão da tradução e tradução dos novos textos de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes. 2007.

  • BOUCHER, Jules. Simbólica Maçônica ou a Arte real reeditada e corrigida de acordo com as regras da simbólica esotérica e tradicional: ilustrada com 125 figuras e XI pranchas por Luÿs Rabui. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. 15 ed. São Paulo: Pensamento. 2012.

  • Dicionário da Língua Portuguesa. Caldas Aulete on-line. Disponível em: < http://aulete.uol.com.br/desbastar> Acesso em: 19 mar 2014.

  • D’ELIA JÚNIOR, Raymundo. Maçonaria: 100 instruções de aprendiz. São Paulo: Madras, 2010.

  • Poemas de Bertold Brecht, disponível em: < http://pensador.uol.com.br/frase/NTczNjMz/

     


MAET


Verdade… Etérea harpista de Sol que ritualiza em seu mavioso tocar o florir do dia numa Primavera de Luz, mera melodia de manhãs intemporais, cuja harmonia divina recria a ordem universal, inebria a humanidade com a sabedoria ancestral, semeia no jardim do mundo a rosa da justiça e coroa a árvore da vida com as excelsas flores do equilíbrio cósmico…

No Antigo Egipto, longe de constituir um conceito trivial isento de sentido ou alma, quiçá uma utopia impressiva banalizada pelo tempo, a “Verdade” surgia como o mais sublime caminho para a fruição espiritual. Encarnada pela deusa Maet, a verdade é assim sinónimo de rectidão, lealdade, justiça, em suma, de todos os princípios básicos que asseguram não apenas o equilíbrio cósmico, mas igualmente o aperfeiçoamento intelectual e espiritual do indivíduo. É, por conseguinte, graças ao equilíbrio oferecido por Maet que o mundo organizado mantém a sua integridade e o Universo conserva a harmonia que lhe fora concedida no acto da Criação. Maet parece suspirar-nos que a verdade, a vida e o conhecimento deveriam constituir a nossa religião primordial, que a Justiça deveria por nós ser eleita dogma universal e o que bem e a liberdade deveriam ser abraçados como a base das nossas preces. A deusa Maet, simultaneamente filha e mãe de Rá, num eterno reinventar de um cosmos renascido, era representada como uma jovem elegante, portadora de uma cabeleira que acariciava graciosamente os seus ombros. Na sua cabeça, a deusa ostentava uma pena de avestruz, empregue igualmente pelos egípcios de forma isolada, como símbolo da deusa Maet (nome próprio ) ou do conceito de verdade em si (nome comum). Em suas mãos, a deusa acolhe alguns dos mais eficazes símbolos profilácticos, como é o caso do uase ou uadj, ceptros também empunhados por diversas outras deidades do panteão egípcio.

Principio sagrado entre os egípcios, Maet consistia num rito incontornável não apenas para os simples mortais, mas também para os faraós e até mesmo para os deuses. Com efeito, a maviosa melopeia entoada por esta deusa era brisa sagrada que alimentava, inebriava e renovava os sentidos das restantes deidades, permitindo-lhes assim preservar a harmonia universal que ela encarna. O culto diário prestado aos deuses conhecia o seu apogeu com a oferta de Maet. Relevos de determinados templos tardios permitem-nos conquistar o tempo e, na mais sagrada lacuna da Imaginação, reviver as intrínsecas cerimónias do ofertório, legadas à eternidade nas paredes do mais íntimo dos santuários. Extasiados, quase abraçamos a prerrogativa de encarnar o sacerdote oficiante, eterno representante do faraó, que num rito pleno de magia oferece Maet, sob a forma de uma figurinha transportada num pequeno cesto, à deidade local, saciando assim a sua sede no cálice da ordem Universal, que o entoar de um hino derrama docemente: “(…) Salve a ti, que estás provido de maet, autor do que existe, criador do que és. (…) Tu surges com Maet, tu unes os teus membros em Maet (…)”. É de facto graças a este ritual de uma beleza inefável que Maet, não residindo em nenhum templo específico, se encontra presente em todos os santuários do Vale do Nilo.

Com efeito, nem mesmo o poderoso Rá, mítico regente dos deuses, subsiste quando privado do melífluo fruto da Verdade, pois somente o néctar que dele resvala sacia a sua sede de harmonia, alimenta o seu esplendor e renova a luz que o nimba num halo de espiritualidade (“Tu existes porque Maat existe”, como refere um hino). De resto, era igualmente Maet quem se propunha a confrontar todos os inimigos de Ámon, fulminando-os com a sua cólera, a fim de jamais permitir que o fastígio do deus- solar fosse obnubilado. Não constitui assim qualquer surpresa constatar a presença de Maet na viagem amoniana. Embora somente ao deus- sol fosse concedido o apanágio de desfrutar intimamente da companhia de Maet, muitos outros deuses deixavam-se inebriar pela rima perfeita que a deusa concedia ao sublime verso do cosmos, como é o caso de Toth, que era com alguma frequência contemplado como esposo (ou por vezes irmão) de Maet, dada a sua invejável posição enquanto epítome celestial da precisão, justeza e rectidão. Enquanto Maet zelava pela harmonia celeste, na terra era o regente quem se encontrava incumbido do dever divino de conservar a ordem social e perpetrar as leis “maéticas”, dispondo para tal de um completo corpo de funcionários, de entre os quais se destacava o vízir. Na função de garante da ordem moral, da justiça e da verdade, o vízir, chefe do poder executivo e de toda a área administrativa, abraça o epíteto de “Sacerdote de Maet”, ostentando como insígnia uma pequena figurinha da deusa, geralmente esculpida em lápis- lazuli.

Como aqueles que coroavam o céu da humanidade com o arco-íris da liberdade, da verdade, da justiça e da equidade dos sentidos, os faraós não só não dispensavam maet no seu quotidiano, como também nos seus nomes reais, incluindo assim a deusa ou o próprio conceito que ela encarnava nas suas denominações, na ânsia de que assim lhes fosse concedida a eficácia necessária para uma regência próspera. Podemos evocar o exemplo de Hatchepsut, rainha do Império Novo, cujo pronome não era senão “Maatkaré”, ou seja, “Maet é o alimento de Rá” ou “Maet é o ka (poder criador) de Rá. A sublime praia de Maet, graciosamente formada pelos mais rutilantes cristais de Sol, oferecia-se a todas as almas náufragas que se propusessem a brincar nas ondas de sabedoria ancestral do imponente mar do conhecimento. Para que a espírito algum o acesso a estas águas ornadas de magia fosse negado, os sábios egípcios (como os faraós Amenemhat I e Hor- djedef, filho do famigerado Quéops, entre muitos outros) elaboraram os “Ensinamentos”, fulgurantes estrelas de sabedoria destinadas a guiar a humanidade através da enigmática noite da vida. A leitura destes textos de valor incontestável permite-nos abraçar os fundamentos da solidariedade, da equidade, da justiça e da espiritualidade, indispensáveis para a criação de uma sociedade recta, harmoniosa e subversivamente oposta a isefet, ou seja, ao caos, à desordem, enfim, à pravidade em todos os seus subterfúgios e formas. Logo, todos devem respeitar aquilo que Maet representa, para possibilitar o retorno dos fenómenos naturais que garantem a vida e a vitória sobre as forças do caos que pairam ainda sobre a humanidade.

A presença de Maet, embaixatriz da Verdade e da Justiça, revelava-se vital para o bom funcionamento do tribunal osírico, uma vez que, caso privados da sua benção, os defuntos seriam alvo de um julgamento iníquo e imparcial. Conduzidos por Anúbis, o deus da cabeça de chacal, os defuntos compareciam diante do tribunal de Osíris, onde as suas almas seriam julgadas, revelando o seu destino. O tribunal divino erigia-se na “Sala das duas Justiças”, intermediária entre o além e o submundo, rodeada por 42 demónios (este valor estava relacionado com o número de distritos- 42- que dividiam o Egipto Antigo). Perante cada uma destas temíveis entidades, o morto deveria declarar-se inocente de um pecado, resumindo-se estas 42 faltas em algumas categorias distintas: blasfémia, perjúrio, assassínio, luxúria, roubo, mentira, calúnia e falso testemunho. Para alcançar a absolvição, os réus deveriam não somente afirmar que haviam alimentado os esfomeados, saciado a sede dos sequiosos, entregue roupas àqueles que não as possuíam e concedido auxílio na travessia de um rio a quem não detinha qualquer embarcação, mas igualmente permitir que o seu coração fosse pesado, uma vez que este representava, para os egípcios, o cerne real da personalidade, a base da razão, da vontade e da consciência moral. Desta forma, sobre a vigilância de Anúbis, o coração do defunto (ib) é depositado num dos pratos de uma balança, confrontando o seu peso com o de uma pena de avestruz, símbolo de Maet. Esta prova, a que ninguém se pode eximir para aceder ao reino de Osíris, permite determinar se a alma do defunto se encontra em conformidade com Maet, isto é, se de facto, nela impera a harmonia oferecida pelo cumprimento das normas morais e espirituais que regem a sociedade.

Enfim, os resultados seriam registados por Toth, deus da escrita, para, em seguida, serem comunicados por Hórus a seu pai Osíris, que absolveria o morto, caso os dois pratos se equilibrassem ou se o seu coração se revelasse mais leve do que a pena. Neste caso, seria oferecido ao falecido um sublime paraíso, localizado a ocidente, onde as espigas de trigo elevavam-se a muitos metros do chão e a vida irradiava uma felicidade ímpar e desmedida. Todavia, a “Grande Devoradora”, um misto aterrador de crocodilo, pantera e hipopótamo acha-se, igualmente, presente em todos os julgamentos esperando, impacientemente, pelo deleite de tragar todos aqueles, cujo coração detivesse um peso excessivo. Atormentados com a perspectiva das suas quimeras de ressurreição serem, abruptamente, devastadas pelo aniquilamento das suas existências, os Egípcios entregavam-se, ao longo das suas vidas, a um imensurável rol de precauções. Deste modo, com o fito de auxiliarem os mortos na sua derradeira diligência ao Império dos Mortos, surgiram inúmeras fórmulas mágicas, que, gradualmente, se reuniram no famigerado “Livro dos Mortos”, cujo conteúdo era inculcado num rolo de papiro (embora anteriormente fosse apenas gravado nos caixões ou nas paredes)colocado nos túmulos, junto dos cadáveres. Na realidade, inicialmente apenas os faraós poderiam usufruir das referidas fórmulas de encantamento, mas, mais tarde, estas proliferaram-se, igualmente, pelos funcionários e sacerdotes mais bem sucedidos, que, assim, poderiam, enfrentar os inúmeros demónios, emergidos das trevas sob a forma de serpentes, crocodilos gigantes ou dragões, ao longo de toda a viagem. Porém, devido aos seus elevados custos, o “Livro dos Mortos” manteve-se inacessível para as classes mais pobres.

Aqueles que o procuravam, poderiam adquirir o “Livro dos Mortos”, totalmente pronto, restando-lhes apenas acrescentar o nome do proprietário. A crença popular referia que este documento havia sido concebido pelo próprio Toth, que oferecia aos viajantes o meio de afastarem-se de um passo em falso. Por exemplo, ao serem abordados por um crocodilo, os defuntos deveriam pronunciar as seguintes palavras: “Passa de largo! Vai-te, crocodilo maldito! Tu não te aproximarás de mim, pois eu vivo de palavras mágicas, nascidas da força que está em mim!”. Porém, fundidos com estas fórmulas, também foram registados no “Livro dos Mortos” pensamentos dogmáticos, como o apresentado, seguidamente “O homem deverá ser julgado pela forma como se conduziu na Terra”, que representa uma clara divergência para com os restantes textos, divergência esta que pode ser explicada pelo facto desta obra não merecer, de todo, o epíteto de homogénea, uma vez que os seus capítulos acompanharam os díspares estados de evolução das ideologias egípcias. Com efeito, as partes mais antigas desta obra surgem nas paredes da pirâmide do faraó Unas, derradeiro soberano da Quinta Dinastia, enquanto que as mais recentes datam do século VII a.C. Embora não correspondessem já às concepções religiosas dos Egípcios, os textos mais arcaicos do “Livro dos Mortos” nunca foram retirados do mesmo, graças ao respeito que esta civilização dedicava a tudo o que pertencia ao passado. Como consequência, esta obra tornou-se, progressivamente, num espelho reflector da evolução da religião egípcia.

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
Ao longo de aproximadamente cinco séculos (de 1550 a 1070 a. C.), subsistiu no Antigo Egipto uma confraria, constituída por homens e mulheres extraordinários, simultaneamente artesãos e sacerdotes, da qual brotaram muitas das obras- primas da arte egípcia. Esta confraria, expoente máximo da espiritualidade aliada à criatividade, viveu numa aldeia do Alto Egipto, interdita a profanos, cujo epíteto verdadeiramente excepcional é merecedor da nossa atenção: “Lugar da Verdade”, ou seja, “Set Maet”. O eterno cosmos onde a constelação de Maet reinventava a harmonia da sua luz, de forma a alumiar o universo com uma ordem espiritual inabalável, ainda se oferece ao nosso olhar, caso visitemos a localidade de Deir el- Medina, a oeste de Tebas. Lá, somos tentados a sonhar com todas as obras- primas que a mão humana, orientada pelo ritmo divino, forjou e imortalizou. 
Com frequência, deparamo-nos com as palavras Maet e maet escritas de forma verdadeiramente díspar. Consoante o autor, Maet é apelidada de Maat, Ma-a-at, Majet, Mayet, Maät, etc. Segundo a fracção mais numerosa de egiptólogos envolvidos nesta altercação, Maet, ou seja, a grafia empregue neste artigo, é a mais correcta. Porém, iníquo seria não salientar que egiptólogos tão prestigiados quanto William Hayes e Cyril Aldred optam pelo uso de Maat, grafia apresentada no início do séc. XX. 
Na escrita hieroglífica, a deusa Maet surge como uma figura ajoelhada, ostentando a sua característica pena de avestruz na cabeça e o signo ankh (símbolo da vida) sobre os joelhos.
 

Verónica Freitas


A Quinta da Regaleira

Um dos lugares mais simbólicos da Maçonaria em Portugal
(Clique nas Fotografias para Ampliar)

Memória histórica
A documentação histórica relativa à Quinta da Regaleira é escassa para os tempos anteriores à sua compra por Carvalho Monteiro. Sabe-se todavia que, em 1697, José Leite adquiriu uma vasta propriedade no termo da vila de Sintra que corresponderia, aproximadamente, ao terreno que hoje integra a dita Quinta – a esta data parecem remontar, pois, as origens da quinta em questão.

Francisco Alberto Guimarães de Castro comprou a propriedade – conhecida como Quinta da Torre ou do Castro – em 1715, em hasta pública e, após as licenças necessárias, canalizou a água da serra a fim de alimentar uma fonte ai existente.

Em 1800, a quinta é cedida a João António Lopes Fernandes estando logo, em 1830, na posse de Manual Bernardo, data em que tomou a designação que actualmente possui. Em 1840, a Quinta da Regaleira foi adquirida pela filha de uma grande negociante do Porto, Allen, que mais tarde foi agraciada com o título de Baronesa da Regaleira. Data provavelmente deste período a construção de uma casa de campo que é visível em algumas representações iconográficas de finais do século XIX.

A história cia Regaleira actual principia, todavia, em 1892, alio em que os barões da Regaleira vendem a propriedade ao Dr. António Augusto Carvalho Monteiro por 25 contos de réis (Anacleto, 1994: 241).

O célebre “Monteiro dos Milhões” nasceu no Rio de Janeiro em 1848, filho de pais portugueses, que cedo o trouxeram para Portugal. Licenciado em Leis pela Universidade de Coimbra, Monteiro foi um distinto coleccionador e bibliófilo, detentor de uma das mais raras camonianas portuguesas, homem de cultura que decerto influenciou, se não determinou mesmo, parte bastante razoável do misterioso programa iconográfico do palácio que construiu para si, nas faldas da serra de Sintra

In “Sintra Património da Humanidade”

Maçonaria e a Quinta da Regaleira
Chama-se esotérico a um conhecimento oculto, seja doutrina ou técnica de expressão simbólica, reservado aos iniciados:. O esoterismo é, pois, o conjunto de práticas e de ensinamentos esotéricos, no contexto de uma tradição multifacetada que abrange diferentes épocas, lugares e culturas. A Alquimia, a Maçonaria e os Templários, por exemplo, incorporam teorias, rituais e procedimentos herméticos que se integram no âmbito do esoterismo:.

Na tipologia do misticismo judaico, firmado na procura de Deus e na experiência da divindade, o esoterismo baseia-se, fundamentalmente, na lei das correspondências, que visa encontrar, através do recurso à analogia, relações simbólicas entre o divino e o terreno, entre o transcendente e o imanente, entre o visível e o invisível, entre o homem e o universo:. A passagem de uma a outra dimensão opera-se em cerimónias de iniciação, por meio de encenações e rituais de carácter mágico, nos quais o neófito recebe o segredo da transmutação, aceita a filiação no grupo de companheiros e acede a um nível espiritual superior:.

A Franco-Maçonaria antiga, dita operativa, deriva das confrarias, das corporações, dos agrupamentos profissionais de pedreiros livres e dos construtores das catedrais medievais:. À defesa dos interesses profissionais, juntavam os franco-mações preocupações de carácter filantrópico, moral e religioso:. Os grupos maçónicos, organizados em sociedades secretas e reunindo em lojas, foram perdendo o carácter exclusivamente operativo e começaram a aceitar membros estranhos à profissão mas que perfilhavam os mesmos ideais iniciáticos:.

O declínio das confrarias origina, por filiação directa, o aparecimento em 1717, em Inglaterra, da Maçonaria moderna, dita especulativa, uma vez que já não existe ligação à prática do oficio de construção, tendo utensílios como o esquadro e o compasso adquirido um valor eminentemente simbólico:.

A Maçonaria provocou, praticamente desde o início, a oposição da Igreja Católica, embora muitos dos ensinamentos maçónicos, de inspiração cristã, preconizem a crença nas virtudes da caridade, na imortalidade da alma e na existência de um princípio espiritual superior denominado Grande Arquitecto do Universo:. Grande parte da simbologia maçónica, sobretudo a dos altos graus, inspira-se em correntes esotéricas tais como a alquimia, o templarismo e o rosacrucianismo, inscritas em diversos locais da Regaleira:.

Apesar da diversidade de percursos que a Quinta da Regaleira oferece, todos os caminhos podem conduzir a um aglomerado de pedras erguidas, com a aparência de um menir, num dos locais mais belos da mata:. E eis que uma curiosa porta de pedra roda impulsionada por um mecanismo oculto e nos faculta a entrada para outro mundo:. É o monumental poço iniciático, espécie de torre invertida que mergulha nas profundezas da terra:. A terra é o útero materno de onde provem a vida, mas também a sepultura para onde voltará:. Muitos ritos de iniciação aludem a aspectos do nascimento e morte ligados à terra:.

De quinze em quinze degraus se descem os nove patamares desta imensa galeria em espiral, sustentada por inúmeras colunas de apurado trabalho, que vão marcando o ritmo e o aprumo das escadarias:. Os nove patamares circulares do poço, por onde se desce ao abismo da terra ou se sobe em direcção ao céu, consoante a natureza do percurso iniciático escolhido, lembram os nove círculos do Inferno, as nove secções do Purgatório e os nove céus do Paraíso, que o génio de Dante consagrou na Divina Comédia:.

Os capitéis dos colunelos enrolam longas folhas de acanto:. E lá no fundo, a carga dramática acentua-se:. Gravada em embutidos de mármore, sobressai uma cruz templária, aliada a uma estrela de oito pontas, afinal o emblema heráldico de Carvalho Monteiro:. As galerias conduzem-nos, em autênticos labirintos, pelo mundo subterrâneo, aqui e além porventura povoado de morcegos:. De construção artificial, na sua maioria, estas galerias aproveitam, no entanto, as características geológicas da mancha granítica da Serra de Sintra:. No interior, a abóbada divide-se entre os maciços de rocha mãe, de um granito granular médio, geralmente de cor rosada ou parda, e zonas preenchidas com pedra importada da orla marítima da região de Peniche:. É esta pedra, desgastada pelo mar e pelo tempo, que vai contribuir, sobremaneira, para a sugestão de um mundo submerso:.

Ao chegarmos ao exterior, esperam-nos a luz e os cenários minuciosamente construídos:. São animais fantásticos, artifícios de água em cascata, passagens de pedra que parecem flutuar à superfície dos lagos, ou nuvens silenciosas de vapor que dissimulam as entradas para este universo singular:.

A simbólica alquímica parece estar presente em vários locais da Regaleira:. Desde logo, na Capela, na pintura da Coroação de Maria por Cristo, na qual a Virgem ostenta, para além das três cores da Obra alquímica – o azul ou negro, o branco, o vermelho ou rubro – uma faixa dourada que poderá simbolizar o Ouro Alquímico:.

Também num alto relevo existente nas traseiras da Capela, encontra-se representado um castelo com duas torres, separado por uma zona de labaredas, e uma goela infernal:. Trata-se de uma figuração da tri-unidade do mundo e do homem: o mundo superior ou espiritual, o mundo intermédio da alma e o mundo inferior (“ad infero” ou do inferno) material:. A torre rubra é o Atanor, ou forno alquímico:.

Nas cocheiras, sinais de Alquimia voltam a estar presentes, em duas esculturas que formam símbolos clássicos da Arte de Hermes: a serpente que morde a cauda, simbolizando a Unidade, origem e fim da Obra, e a luta entre as duas naturezas, aqui representada por dois dragões, cada um mordendo a cauda do outro. Igualmente susceptível de uma leitura alquímica é a gruta ogival, onde Leda, segurando uma pomba na mão, aparece numa escultura à beira de um pequeno lago, enquanto Zeus, disfarçado de cisne, a fecunda bicando-a na perna:. Trata-se de uma alegoria pagã ao mito, ou mistério, da Imaculada Conceição, ou concepção, que decorre num lugar escuro e húmido:.

A alquimia tem por objectivo a transmutação real ou simbólica dos metais em ouro e por fim último a salvação da alma:. As operações alquímicas são realizadas num Atanor, ou seja, num forno alquímico de combustão lenta, com um cadinho e um balão nos quais se pretende espiritualizar a matéria e materializar o espírito:. Este propósito essencial da Alquimia operativa, executada em laboratório, é a obtenção da Pedra Filosofal, simbiose entre matéria e espírito, da qual poderia resultar, segundo os alquimistas, além da transmutação dos metais em ouro, a realização de um dos desejos ancestrais da humanidade: o elixir da longa vida, capaz de proporcionar saúde e eterna juventude:. Neste sentido, há quem considere a procura alquímica como uma metáfora da condição humana:. A Alquimia assumiu, depois do século XVIII, um carácter manifestamente religioso, dedicando-se sobretudo ao estudo das relações espirituais e energéticas entre o homem (microcosmo) e o universo (macrocosmo):. A partir de um trabalho erudito de equivalências e analogias, aceita-se que o universo nos engloba e nos interpela num só movimento existencial – ele é ao mesmo tempo transcendência (Outro) e nós próprios:.

Parece evidente que a concepção religiosa do mundo que preside à Regaleira assenta no Cristianismo, mas num Cristianismo escatológico, que tem a ver com o fim dos tempos:. Quer recorramos à lição da escatologia cósmica, que prenuncia o fim do universo e da humanidade, quer nos atenhamos à escatologia individual, que assenta na crença da sobrevivência da alma depois da morte, é a mesma ideia obsessiva que encontramos:. É também um Cristianismo gnóstico, apoiado em discursos míticos e em conhecimentos sagrados que prometem a salvação dos fiéis e o retorno dos espíritos:. É, enfim, um Cristianismo imbuído de ideais neo-templários, associados ao Culto do Espírito Santo, que encontramos na tradição mítica portuguesa:.

Os templários foram monges-soldados, cuja ordem militar, fundada no período das Cruzadas em 1119, visava proteger os lugares santos da Palestina contra o perigo dos infiéis:. Os votos de pobreza e castidade não impediram os Cavaleiros da Milícia do Templo de enriquecer e de desempenhar um importante papel económico e político, tanto no Oriente como na Europa, a ponto de criarem poderosos inimigos, como o rei Filipe IV de França e o Papa Clemente V, que levaram à perseguição e à extinção da ordem em 1314, sob acusações, porventura falsas, de blasfémia e imoralidade:. Em 1317, D. Dinis de Portugal afectou os bens dos templários à Ordem de Cristo, que muitos aceitaram como sua sucessora:.

Desaparecidos os templários não desapareceu o templarismo, cujo espírito, resumido na defesa dos lugares sagrados e na luta contra o mal, renasceu em várias correntes e organizações iniciáticas como sendo a afirmação simbólica da sobrevivência da Ordem do Templo:. A cruz templária no fundo do poço iniciático, a cruz da Ordem de Cristo no pavimento da Capela, bem como todas as outras cruzes dispostas na Capela, testemunham a influência do templarismo no ideário sincrético de Carvalho Monteiro:.

Há ainda, na Regaleira, referências rosacrucianas, em alusão à corrente esotérica iniciada no séc. XVII, de tendência cristã, utilizando os símbolos conjuntos da rosa e da cruz:. O movimento Rosa-Cruz propunha reformas sociais e religiosas, exaltava a humildade, a justiça, a verdade e a castidade, apelando à cura de todas as doenças do corpo e da alma:. Tornou-se grau maçónico de várias Ordens e, ainda hoje, existem escolas esotéricas e sociedades secretas que pretendem assumir-se como reaparições do mito Rosa-Cruz:.

Fotos: Luis Figueiredo © 2004
Textos: website da Quinta da Regaleira (desactivado de momento)

Pode encontrar mais informações (sobre horários, condições, etc) no web site da Câmara Municipal de Sintra.


ANÚBIS


Qual estrela reinventado a imanência da sua luz no cosmos da imortalidade, onde a mítica constelação da vida se traduzia e renovava num fulgor eterno, Anúbis (Anupu em egípcio) iluminava a noite do panteão egípcio enquanto pilar que sustinha o templo de um mito intemporal que prometia às almas a eternidade.

Escravizados pelo alento de vogarem no regaço da imortalidade, superando os próprios limites da existência, os Egípcios conceberam a arte do embalsamamento, que, ao conservar os seus corpos, os arrebatava ao abominável espectro da deterioração, tal como sugere uma das muitas inscrições talhadas sobre os caixões: “Eu não deteriorarei. O meu corpo não será presa dos vermes, pois ele é durável e não será aniquilado no país da eternidade”. Esta arte divina, apta a enfeitiçar o tempo, tornando-o escravo daqueles que a ela recorriam, era ditada, reinventada e abençoada por Anúbis, guardião das sublimes moradas da eternidade, Soberano das mumificações e embalsamamentos, intermediário entre o defunto e o tribunal que o aguardava no Além e deidade cuja aparência é estigmatizada pelas incumbências de que é investido. Por conseguinte, e numa flagrante evocação dos cães e chacais que velavam pelas inóspitas e desérticas necrópoles, esta divindade surge como um animal da família dos Canídeos ou, então, como um homem detentor de uma cabeça de chacal. A mitologia egípcia revela-nos que Anúbis era fruto de uma ilegítima noite de amor vivida por Osíris nos braços de Néftis. 

A lenda revela-nos que tão inusitada união dera-se aquando do retorno do então Soberano do Egipto ao seu magnífico país. Extenuando de uma viagem que o mantivera longe da sua pátria por uma eternidade, Osíris ardia em desejo de sentir o Sol que raiava no olhar de Ísis despir a mortalha de nuvens, tecida pela saudade, que vestia e sufocava os céus de sua alma. Ao vislumbrar Néftis, o deus enlaça-a então em seus braços, tomando-a pela sua esposa. E os seus sentidos, cegos pela paixão, revelam-se impotentes para lhe desvendar a traição que ele cometia, antes desta encontrar-se consumada. Graças a uma coroa de meliloto abandonada por Osíris no leito de Néftis, Ísis abraça a percepção de que o seu amado esposo havia-lhe sido infiel e, desesperada, confronta a sua irmã, que lhe revela que de tão ilídimas núpcias nascera um filho, Anúbis, o qual, temendo a cólera do seu esposo legítimo, Seth, ela havia ocultado algures nos pântanos. Ísis, a quem não fora concedido o apanágio de conceber um filho de Osíris, enleia então a resolução de resgatá-lo ao seu esconderijo, percorrendo assim todo o país até encontrar a criança. Acto contínuo, e numa notória demonstração da benevolência que lhe era característica, a deusa amamenta Anúbis, criando-o para tornar-se o seu protector e mais fiel companheiro.

A lenda de Osíris comprova que Ísis foi coroada de sucesso, uma vez que, após o desmembramento do corpo de seu esposo, Anúbis voluntariou-se prontamente para auxiliar a deusa a reunir os inúmeros fragmentos do defunto. Posteriormente, Anúbis participa com igual dedicação nos rituais executados com o fim de restituir a Osíris o sopro de vida e que lhe facultaram a concepção da primeira múmia, facto que legitimou a sua conversão no venerado deus do embalsamamento, eterno guia do defunto no Além. A sua crescente influência garantiu-lhe um posto relevante no tribunal composto por quarenta e dois juizes que julgava os recém- inumados. De facto, é ele quem conduz o morto até Osíris, apresentando-o ao tribunal por ele presidido, para de seguida proceder à pesagem do coração. Se porventura o morto desejar mais tarde regressar à terra, é Anúbis quem ele tem a obrigação de notificar previamente, dado que esta surtida só será exequível com o seu consentimento expresso, formalmente consignado sob a forma de um decreto.

As suas múltiplas funções permitem a este deus deter diversas denominações, embora todas elas se encontrem intrincadamente relacionadas com o seu papel na vida póstuma dos egípcios. Assim, Anúbis é reconhecido como “o das ligaduras”, como patrono dos embalsamadores, “presidente do pavilhão divino”, enquanto soberano do edifício onde a poesia da mumificação era declamada por peritos, “senhor da necrópole” ou então “aquele que está em cima da montanha”, designações que exaltavam a sua posição enquanto guardião dos túmulos e condutor dos defuntos nos traiçoeiros labirintos do mundo inferior. Como tal, não é de todo inusitado o rol interminável de hinos e preces a ele destinados, que encontramos não raras vezes nas paredes das mastabas mais antigas e igualmente no famigerado “Texto das Pirâmides”.

Anúbis constitui igualmente a deidade tutelar da décima sétima província do Alto Egipto, cuja capital, Cinopólis (“A Cidade dos Cães”), era o âmago do seu culto, não obstante a sua imagem ser também uma constante em relevos e textos figurativos existentes nas sepulturas reais ou plebeias do vale do Nilo. Com efeito, ao longo de toda a época faraónica, Anúbis usufruiu de uma inefável popularidade que se reflectiu na sólida implantação do seu culto nos díspares centros religiosos do país, particularmente em Tebas ou Mênfis. Em Charuna, localidade próxima do seu principal santuário, deparamo-nos com uma necrópole de cães mumificados, os quais eram venerados enquanto animais sagrados do deus.

Mas afinal que arte era esta que Anúbis protegia e representava? Originalmente, antes de haverem alcançado o seu meticuloso método de mumificação, os Egípcios envolviam os seus defuntos numa esteira ou pele de animal, visando que o calor e o vento dissecassem os cadáveres. Após um moroso processo evolutivo, os embalsamadores conseguiram enfim obter de forma artificial tal conservação natural, mediante um prolixo tratamento, que se prolongava por setenta dias. Uma vez ser necessário quantidades abundantes de água para lavrar os corpos, este ritual era realizado na margem Ocidental do rio Nilo (a considerável distância das habitações), onde os embalsamadores trabalhavam numa tenda arejada. Ultimado o referido período de tempo, os defuntos seguiam para as designadas “Casas de Purificação”, meras salas reservadas para as práticas de mumificação, onde cada gesto dos embalsamadores era talhado no olhar vigilante dos sacerdotes. Segundo inúmeros baixos-relevos e pinturas, estes primeiros ostentavam máscaras com a efígie do deus- chacal Anúbis, a deidade protectora dos mortos, talvez num desejo de atrair a sua benevolência. 

O único exemplar que se conserva de semelhante máscara leva a crêr que esta servisse igualmente de protecção contra os diversos cheiros que fustigavam os embalsamadores. Alguns momentâneos descuidos destes levaram-nos a esquecerem-se, por vezes, de determinados instrumentos no interior das múmias, o que nos permite conhecer, aprofundadamente, os seus diversos utensílios de trabalho: ganchos de cobre, pinças, espátulas, colheres, agulhas, vasos munidos de bicos para deitar a goma escaldante sobre o cadáver e furadores com cabeça de forcado, para abrir, esvaziar e tornar a fechar o corpo. Dada a ausência de qualquer informação legada pelos Egípcios sobre as suas técnicas de embalsamamento, é necessário recorrer aos relatos de historiadores gregos, como Heródoto, para que a nossa curiosidade seja saciada. As suas descrições permitem-nos vislumbrar cada movimento dos embalsamadores. Em primeiro lugar, estes extraíam o cérebro do defunto pelas narinas, com o auxílio de um gancho de ferro. Seguidamente, “com uma faca de pedra da Etiópia” (segundo refere Hérodoto) efectuavam uma incisão no flanco do defunto, pelo qual retiravam os intestinos do morto. 

Após terem limpo diligentemente a cavidade abdominal, lavavam-na com vinho de palma e preenchiam o ventre com uma fusão de mirra pura, canela e outras matérias odoríferas. Deixavam então o corpo repousar numa solução alcalina, baseada em cristais de natrão seco, onde permanecia durante setenta dias, ao fim dos quais a múmia era envolvida com mais de vinte camadas de ligaduras e coberta por um óleo de embalsamamento (uma mistura de óleos vegetais e de resinas aromáticas- coníferas do Líbano, incenso e mirra), que endurecia, rapidamente. Todavia, as suas propriedades anti-micósicas e anti-bacterianas não protegiam a estrutura do corpo esvaziado, dessecado e leve, facto comprovado pelo incidente ocorrido com a múmia do jovem faraó Tutankhámon, que se fragmentou, quando a tentaram remover do seu caixão. As faixas que envolviam o defunto eram, preferencialmente, de cores vermelho e rosa, jamais sendo utilizado para a sua concepção linho novo, mas sim, aquele que era obtido a partir das vestes que o morto envergava em vida. À medida que as ligaduras eram colocadas em torno dos defuntos, os sacerdotes presentes pronunciavam fórmulas sagradas. Simultaneamente, depositavam-se nos leitos de linho inúmeros amuletos profilácticos, tendo mesmo sido encontrada uma múmia com cerca de oitenta e sete destes objectos de culto. Entre estes encontrava-se ankh (vida), uma das mais preciosas dádivas oferecidas aos homens pelos deuses; o olho de oudjat, ou olho de Hórus, símbolo de integridade, que selava a incisão feita pelos embalsamadores, para retirar as entranhas do morto; um amuleto em forma de coração, concebido para assegurar que os defuntos seriam bem sucedidos nos seus julgamentos; e o escaravelho, esculpido em pedra, barro ou vidro. Este insecto enrola bolas de esterco, onde depõe os ovos. Os Egípcios creiam que um escaravelho gigante gerara o Sol de forma similar, rolando-o em direcção do horizonte, até ao firmamento. Uma vez que todas as manhãs este astro soberano desprende-se de um abraço de trevas, o escaravelho tornou-se num símbolo da ressurreição dos mortos. 

No exórdio da civilização egípcia, ultimados os seus processos de mumificação, as pessoas notáveis eram inumadas num caixão de forma rectangular, depositado num sarcófago de pedra, considerado como depositário das vida. Porém, ao longo da história, os caixões sofrem diversas metamorfoses, que alteraram, radicalmente, os seus simulacros. No Médio Império, os caixões tornaram-se antropomórficos, aumentando a sua produção. A própria múmia principiou a ter uma máscara de linho estucado, isenta de qualquer semelhança com o defunto. Na realidade, inúmeras múmias eram sepultadas em diversas urnas, sendo colocada uma dentro da outra, à semelhança das bonecas russas. Deste modo, a urna interna, mais ajustada, deveria encontrar-se apertada atrás. Durante muito tempo, os sarcófagos eram construídos em madeira. Não obstante, num período mais tardio, as urnas interiores eram efectuadas com camadas de papiro ou linho, o que se tornava mais economicamente acessível. Junto aos túmulos, repousavam cofres de madeira, que guardavam quatro recipientes, desde o mais humilde pote de barro ao mais faustoso vaso de alabastro. Estes canopes, cujo nome advém de Kanops, cidade situada a leste de Alexandria, continham as vísceras do defunto, uma vez que sem estas, o corpo não se encontraria completo. Inicialmente, esta pratica consistia em mais uma prerrogativa reservada aos soberanos do Egipto, mas com alguma rapidez estendeu-se igualmente aos sacerdotes e altos funcionários e, por fim, no Novo Império, a todos os egípcios abastados. 

O fígado, o estômago, os pulmões e os intestinos eram envolvidos separadamente em tecidos de linho, formando embrulhos que eram, em seguida, depositados no interior dos díspares canopes, após terem sido impregnados com resina de embalsamamento. Em contrapartida, o coração, símbolo da razão, cerne do encontro do espírito e simulacro da alma, após ser submetido a um rigoroso tratamento que visava a sua conservação, era sempre recolocado no corpo do defunto, que iria necessitar dele, ao longo do seu julgamento no Além. Por seu turno, as intrínsecas vísceras eram entregues a quatro deidades protectoras, filhos de Hórus, cujas cabeças ornamentavam frequentemente as tampas dos canopes: Amset, com cabeça de homem, (cujo nome resulta de aneth, uma planta conhecida pelas suas propriedades de conservação), tornado protector do estômago; Hápi, possuidor de uma cabeça de babuíno, que vela pelos intestinos; Duamoutef, que ostenta uma cabeça de cão e cuja missão é proteger os pulmões; e Quebekhsenouf, detentor de uma cabeça de falcão, que preserva o fígado. A partir do Novo Império, eram representadas nas arestas dos canopes deusas protectoras, que, com as asas abertas, resguardavam os seus conteúdos. As mesmas deusas surgiam ajoelhadas nos cantos dos sarcófagos. Nut, a deusa da abóbada celeste, adorna a face interior do tampo do caixão.

Paradoxalmente, os mais humildes eram privados de qualquer prerrogativa, sendo sepultados no deserto, envoltos numa pele de vaca, uma vez que não possuíam meios para pagar o avultado preço da imortalidade.

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
Djed- eternidade;
Keres- caixão;
Na Época Greco-Romana, Anúbis foi investido de novas incumbências, incarnando numa deidade cósmica, regente dos céus e da terra.
Etimologicamente, o epíteto “Anupus” pode possuir a sua origem na palavra inep, empregue com o significado de “putrificar”.
A imagem de Anúbis, nas suas díspares representações, é uma constante não apenas nas múmias e sarcófagos, mas também nas vinhetas dos papiros funerários. A estatueta de Anúbis com cabeça de cão selvagem constituía igualmente um amuleto, que colocava os defuntos sobre a protecção do deus. Evoca-se como exemplo o túmulo do jovem Tutankhámon, entre muitos outros.
A famigerada múmia do faraó Ramsés III sobreviveu indemne durante quase 3000 anos, graças à arte egípcia do embalsamamento e à preservação do deserto. Porém, alguns meses de permanência num museu teriam causado a sua total destruição, caso inúmeros egiptólogos não houvessem agido, prontamente. 
out- embalsamadores
vabet- lugar de purificação, ‘Casa da Purificação’
 

Verónica Freitas


O Rosacrucismo

A FRATERNIDADE ROSACRUZ
No mosteiro dos Albijenses, o filho mais novo do nobre Germelshausen, sem o ambiente castelão em que nasceu, privado dos carinhos da sua família que foi destroçada, no meio e homens de vida extremamente austera, não teve a infância de todas as crianças. Por isso a sua mente excepcional teve de centrar-se nas ideias que os monges tinham e viviam! No mosteiro aprendeu grego e latim. Muito jovem tinha formado com quatro monges um grupo que se dedicou ao estudo das ciências que se cultivavam no mosteiro e justificavam a sua existência. Mas era necessário ir às fontes dos conhecimentos que ali se estudavam e viviam.

Quando o jovem tinha quinze anos, o grupo deixou o mosteiro e iniciou sua marcha em direcção à Terra Santa. Para evitar suspeitas dos discípulos de S. Domingos não viajaram juntos. Em Chipre faleceu o velho monge que ia com Germelshausen. O jovem, porém, não desanimou e prosseguiu a viagem afrontando todos os inconvenientes e perigos. Em Damasco encontrou um Centro de Iniciação e aí ficou. Era o que pretendia: viver entre sábios. Poucos anos depois tinha atingido a graduação necessária e resolveu partir. De Damasco passou ao Egipto e deste país foi viajando pelo mediterrâneo até Fez. Daqui resolver passar a Espanha e juntar-se aos Alumbrados, que o receberam mas acharam os seus pontos de vista demasiado avançados, não o aceitando! A partir de Espanha, Germelshausen adoptou o nome simbólico de Cristão Rosacruz (Christian Rosencreuz).

Nesse tempo a “Santa Inquisição”, fundada por S. Domingos para reduzir a cinzas todo aquele que ousasse perfilhar ideias diferentes das que eram impostas pelo Catolicismo, obrigou Cristão Rosacruz a abreviar a estadia em Espanha e França e a dirigir-se para a Turíngia, na Alemanha, sua pátria, regressando ao mosteiro albijense em que fora criado. Até hoje não foi possível determinar em que ponto de Espanha era a sede dos Alumbrados, que tiveram uma existência de séculos, tendo sido exterminados pela “Santa Inquisição”, durante o século XVI.

Na Turíngia, Cristão Rosacruz foi encontrar os três antigos companheiros e com eles, mosteiro, estabeleceu a Fraternidade Rosacruz. Mais tarde foram admitidos novos membros ficando a Fraternidade com oito membros. Anos depois a Fraternidade Rosacruz tinha treze membros e não podia ultrapassar esse número. Estava estabelecida no estilo usado por Jesus: doze membros, simbolizando os doze signos do Zodíaco e o Sol, que formava o 13º.

Crê-se que os Iluminados (ou Alumbrados) se estabeleceram em Espanha durante invasão dos árabes. Admitimos, porém, que a sua existência é anterior, pois os Iluminados eram cristãos e os árabes não aceitavam organizações cristãs. E ao Catolicismo até o colectavam, em pé de igualdade com os estabelecimentos do comércio. O que dissemos a respeito dos cristãos primitivos, na crónica anterior, revela a existência de núcleos de nazarenos na Hispânia, muito particularmente na orla marítima, pois a Galiza foi colonizada pelos Fenícios e Gregos, entre os quais viriam nazarenos. daí as referências de S. Paulo à Espanha.

Convém não esquecer que os povos célticos, antigos povoadores de grande parte da península Hispânica, tinham usos e costumes tão semelhantes aos dos cristãos, que ao ser-lhes imposto o cristianismo, pelos Romanos, receberam-no sem resistência.

(Francisco Marques Rodrigues, Revista Rosacruz, nº 266, Outº-Dezº, 1977)

 

NASCIMENTO DA ORDEM ROSACRUZ
Ao começo da segunda década do século XVII, reuniram-se representantes de todas as organizações que congregavam Essénios ou Cátaros e os cristãos esotéricos (que são aqueles que continuaram a Escola Cristã fundada por Jesus) espalhados pelas várias cidades da Europa, com a finalidade de constituírem uma única associação que lhes permitissem maior apoio, disciplina no estudo dos mistérios e mais segurança na guarda e difusão do imenso tesouro espiritual que possuíam. Para escaparem à ferocidade da “Santa Inquisição” reuniram-se numa caverna existente nas montanhas do Tirol, entre Salzburgo e Munique. Depois de longos debates assentaram no estabelecimento de um estatuto único para regência de todos. Como no espaço sidério se congregavam os divinos seres a que chamamos Irmãos Maiores, por pertencerem a uma humanidade anterior à nossa e serem os condutores da evolução de todos os seres que existem na Terra, à nova organização foi dado o nome de Ordem Rosacruz.

Entre estes grandes seres há humanos que já se elevaram acima da vulgaridade pela sua bondade e pureza de alma. Muitos são médicos que exercem a sua profissão como se fora um sacerdócio, no estado de vigília e no de sono, sempre no seu mister em favor da saúde e bem estar dos seres terrenos e assim merecem a amizade dos Irmãos Maiores, que os fizeram seus cooperadores permanentes. Foi por esta razão que os agrupamentos de estudantes de ocultismo deixaram de usar os seus títulos antigos e se constituíram em Ramos da Ordem Rosacruz, ministrando um ensino bem definido e igual. Os seres humanos que trabalham com os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, são os chamados Irmãos Leigos. Foram altamente qualificados pelos Irmãos Maiores, que pelas suas altas qualidades os colocaram ao seu serviço.

Desta maneira os adeptos do grande filósofo, ocultista e místico que se chamou Paracelso – famoso como médico e alquimista, sábio cultor da astrologia – os Paracelsianos, bem como os Hermetistas, os Pictóricos, os Alquimistas e os Gnómicos, grupos de estudos esotéricos, parecem ter desaparecido. Na realidade apenas abandonaram as antigas designações para se integrarem na Ordem Rosacruz. Desde a sua existência, conhecida entre os hebreus, no tempo de Moisés (entre os Essénios), até ao fim do século XIX, a Ordem Rosacruz foi uma associação secreta, por os seus ensinamentos serem tão profundos que rareavam extraordinariamente as pessoas dignas de os receber! Se não foram a sua grande prudência no ministério da Sabedoria dos Rosacruzes, esta teria sido aplicada desonestamente, como acontece com a astrologia e outros ramos do saber oculto, na posse de pessoas sem as qualidades morais e intelectuais necessárias a tão elevados conhecimentos. Durante os séculos XVII e XIX a Ordem Rosacruz reunia grande número de pessoas escolhidas da Europa, e daqui irradiou os seus Ramos de estudo para a América do Norte.

(Francisco Marques Rodrigues, Revista Rosacruz, nº 267, Janº-Marº, 1978)

 

A FRATERNIDADE ROSACRUZ
No final do século XIX a humanidade apresentava um notável avanço na senda da evolução, pelo que os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz (celeste) resolveram abrir as portas dos seus templos de sabedoria ao maior número possível de estudantes da sua filosofia. Porém, os dirigentes da Ordem Rosacruz (terrena) fieis ao princípio estabelecido no Estatuto da Ordem, não acediam às instruções vindas dos seus monitores divinos. Então, para vencerem a cristalização dos princípios estabelecidos desde a mais alta antiguidade, os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz (celeste), resolveram criar uma nova organização, aberta a todas as pessoas que sinceramente desejassem receber os seus ensinamentos. Eles ficariam guardando a pureza da doutrina, que só é comunicada quando se reconhece o mérito necessário.

Depois e várias diligências de carácter iniciático foi escolhido Max Heindel, para fundar a nova organização. E foram-lhe conferidos os necessários meios para essa finalidade. E, deste modo, nasceu a Fraternidade Rosacruz, em inglês The Rosicrucian Fellowship, restaurando-se a antiga denominação que havia sido adoptada no século XIII, mas liberta de todos os preconceitos antigos, só interessada em actualizar o método Rosacruz, tornando-o actual, progressivo, de modo a mantê-lo sempre actualizado através dos tempos vindouros, completamente despido de arcaísmos inúteis, pertencentes ao passado.

Foi no decurso do ano de 1909 que Max Heindel, inspirado pelos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz (celeste), deixou a Sociedade Teosófica da América do Norte (onde era vice-presidente de um Ramo) e começou a fazer conferências. Publicou o primeiro livro sobre filosofia Rosacruz, o Conceito Rosacruz do Cosmo, que lhe foi inspirado pelos Irmãos Maiores e fundou The Rosicrucian Fellowship – Fraternidade Rosacruz, que ficou estabelecida no monte sobranceiro à cidade de Oceanside, debruçada sobre o Ocenao Pacífico. A este monte, coroado pelo templo de doze faces, foi dado o nome de Monte da Igreja. Daqui irradiou Max Heindel a sua fecunda e salutar filosofia Rosacruz, que havia de levar a quantos a recebem com sinceridade e pureza de intenções a mais íntima satisfação.

A Fraternidade Rosacruz tem os seus ramos estendidos por todo o mundo e admite no seu seio, gratuita e amorosamente, todos os que solicitam a sua admissão ao estudo das suas disciplinas. Quem entra nesta respeitável organização não fica com encargos de quotas, nem de jóias, nem outros que envolvam dinheiro. Tudo, aqui, se faz gratuitamente, em obediência ao preceito: “dái de graça o que de graça recebeste”. Todas as suas despesas são custeadas com as dádivas voluntárias dos seus membros, que o possam e queiram fazer, e pelas daquelas pessoas que, não sendo membros, simpatizam com a Grande Obra e dela recebem, também, calor e protecção.

Tudo quanto é Rosacruz não suporta o negócio nem o dinheiro! Também não se praticam aqui actos que possam induzir os seus membros em erro ou a caírem nos tenebrosos meandros do ocultismo prático. O que procuram os rosacrucianos é emancipar os seus membros de superstições e crendices, que só inferiorizam e enfraquecem. E, por isso, tudo fazem no sentido de ajudar o desenvolvimento harmonioso do ser humano.

(Francisco Marques Rodrigues, Revista Rosacruz, nº 268, Abril-Junº, 1978)

 

HISTÓRIA RECENTE EM PORTUGAL
Em 21 de Março de 1926, os rosacrucianos dispersos por todo o território nacional, metropolitano, insular e ultramarino, deliberaram apresentar-se publicamente e, entre as decisões tomadas, constava a de editar uma revista, que reunisse parte dos documentos que circulavam internamente entre os membros. E assim nasceu a Revista ROSACRUZ. Na década de 60 as actividades rosacrucianas, mesmo as que envolviam actos de solidariedade social, eram cuidadosamente vigiadas. As obras destinadas à instrução e pesquisa, importadas do estrangeiro, se não vinham registadas desapareciam; se vinham sob registo não nos eram entregues. Quando reclamadas pelos remetentes eram então devolvidas com a declaração, humilhante para o prestígio do país: CIRCULAÇÃO INTERDITA POR CONTER LITERATURA ROSACRUZ.

Os rosacrucianos são encarados com respeito e admiração em todo o mundo, porque a sua actuação é benéfica para a disciplina e harmonia social. Por esse motivo são-lhes concedidas facilidades diversas, de natureza fiscal e outras. Em Portugal, até ao dia 24 de Abril de 1974 os rosacrucianos não se podiam apresentar como tais! No dia 17 de Junho de 1966, pelas 7 horas da manhã, foi a sede da Fraternidade Rosacruz de Portugal, simultaneamente residência do seu Presidente, assaltada por um grupo de treze agentes da PIDE. Revolveram tudo à sua vontade, passando as largas centenas de livros da biblioteca um a um, na ânsia de encontrarem matéria que lhes permitisse efectuar detenções. Terminaram a diligência a altas horas da noite. Levaram originais inéditos, mais de mil e duzentos estudos astrológicos de personalidade de destaque, vítimas de crimes ou doenças graves; livros, revistas, correspondência e até dinheiro! Iniciaram-se imediatamente diligências para obter explicações e a devolução dos documentos subtraídos. O inspector que dirigiu o assalto acabaria por informar que a busca tinha sido motivada por suspeita de reuniões Maçónicas. Ao ser-lhe inquirida a razão de ter despojado a residência pessoal do Presidente de tantos objectos limitou-se a dizer:

– O despacho que recebemos foi para fazer o que se fez. Mas, como os objectos que trouxemos não possuem o menor interesse para esta polícia, vão-lhe ser entregues. Dirijam-se ao subdirector José Sachetti e peçam-lhe a entregas das coisas. Ele ordenará a devolução.

Alguns dias depois regressou o Presidente da Fraternidade Rosacruz, devidamente mandatado, à sede da PIDE. Foi recebido pelo subdirector José Sachetti, que não só recusou a devolução de tudo que mandou subtrair, como proibiu a publicação da Revista ROSACRUZ. E fê-lo com a ameaça de prisão por publicação clandestina. Explicou-se ao subdirector J. Sachetti que a Revista se publicava há 40 anos, estava devidamente registada na Conservatória da Propriedade Literária, Científica e Artística, que nunca tinha sofrido qualquer sanção. E a resposta repetiu a ameaça inicial: “o Presidente da Fraternidade Rosacruz seria preso por publicação clandestina e iria responder no plenário”. Depois de cerca de duas horas de explicações, sem nada conseguir, de nada valia argumentar mais. Perante as sucessivas ameaças de prisão, fez-se-lhe apenas um aviso: “Não lhe daríamos esse prazer. Como estamos a perder tempo, se V. Exª nos dá licença, retiramo-nos. Mas não assumimos a responsabilidade pelo que depois se disser no país e no estrangeiro pelos actos cometidos”. Insensível J. Sachetti respondeu:

– Sempre se disse mal de Portugal no estrangeiro. Por isso não importa. Se quiserem requerer a entrega das coisas apreendidas podem fazê-lo. Mas, se o requerimento vier às minhas mãos, mando-o somente juntar ao processo.

Dias depois, embora sem esperanças, requereu-se, em forma legal, a devolução de todos os objectos e documentos. Não obtivemos mais do que o silêncio (Alguns livros foram readquiridos, anos mais tarde, em alfarrabistas). Quando o Dr. Marcelo Caetano assumiu a Presidência do Governo, crentes de que iria fazer o regresso do país à liberdade, expuzemos-lhe a situação. Recebemos um ofício da Presidência do Conselho comunicando que a exposição tinha sido enviada do Ministro do Interior, Dr. Gonçalves Rapazote. Dele também nada mais recebemos do que silêncio!

Tanto do auto de declarações que nos levantou o inspector da PIDE Fernando Alves, como no de levantamento de selos, dinheiro e documentos diversos, nas secretárias e noutros móveis que estavam fechados, foi cautelosamente evitada a mais leve referência a livros impressos, manuscritos inéditos, objectos do espólio do Museu, correspondência da Fraternidade Rosacruz, Revista Rosacruz, ou simplesmente Rosacruz, com a “acariciante” promessa de tudo nos ser devolvido, por não ter o menor interesse para a PIDE.

(Francisco Marques Rodrigues, Revista Rosacruz, nº 268, Julº-Setº, 1978)

 

Descubra mais informação nestes endereços:
Fraternidade Rosacruz – http://www.rosacruz.pt
The Rosicrucian Fellowship –
http://www.rosicrucian.com
The Rosicrucian Order AMORC – http://www.rosicrucian.org


A COMUNHÃO DAS IDEIAS

A comunhão das ideias não nasce pronta, seus caminhos são tortuosos. É preciso ser sensível ao bem para uma sintonia; os corações duros se instrumentalizam com equipamentos duvidosos, em constante desarmonia com o universo e o seu próprio interior. Na luta do bem contra o mal, vencerá aquele que melhor for alimentado. Pensemos nisso.

Fácil é identificar esses sintomas, basta observar a intolerância, a ambição e a vaidade a serviço de poucos, quase sempre em nome do amor e da unidade, como se o amor traduzisse desapreço e a unidade, fosse tão somente, um discreto instrumento de discórdia.

A vontade de Deus é o aperfeiçoamento humano, pela ampliação da fé e entre outros valores, o respeito às autoridades, às instituições, o exercício da aliança e a expectativa de todo ser humano ser um respeitado cidadão do mundo.

Nós maçons, homens talentosos, livres e de bons costumes, não somos privilegiados. Somos missionários, gladiadores, numa incessante busca e manutenção da Verdade. Assim nos distanciamos da escuridão, e como operários da Luz, construtores de uma sociedade mais justa, com mais oportunidades para todos.

Livres e de bons costumes que somos, em loja nos reunimos, submetendo nossas vontades e, num exercício fraterno, alimentamos a expectativa do carinho recíproco, de forma que no retorno ao lar, tamanha é a alegria em nossos corações que contagiará cada familiar. Também contaremos os dias, para novamente vivermos aquele momento bom e agradável, sempre muito bem acompanhado do calor e abraços fraternais.

Alguns podem dizer que tudo isso é uma utopia, e eu aceito, na ótica “a utopia é o ainda não… mas não, o nunca será”.

Construirmos templos à virtude é tarefa árdua nos dada pelo GADU. É preciso ser imagem e semelhança do Criador, pois essa caminhada vem instruída por históricos caóticos, como Caim matando seu irmão Abel, Pedro negando seu Mestre Jesus e Judas O vendendo. Também a lenda de Iran nos fortifica em nosso exercício sobre-humano para que a paz, a harmonia e a concórdia inundem as famílias, os povos e a confraternização entre os homens seja uma realidade na humanidade.

Tarefa árdua pela dureza do coração do homem, mas nos disciplinarmos, usufruindo de imagens saudáveis, quaisquer resquícios negativos em nosso inconsciente ficarão a mercê de ideias progressistas, nos encorajando a vencer o medo de ser bom, já que fazer o bem, além de ser um dom, prepara o coração para viver em paz enquanto homem e para com a Divindade.

Finalmente, que possamos somar nossas boas energias; que o poder do GADU nos alcance todos os dias e, sob o seu manto, sejamos fagulhas de Sua luz, exemplo de fraternidade e nossas mentes em sintonia produzam os efeitos necessários para um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.

Carlos Cezar Rocha, M.’.M.’.
Vitoria – ES, Grande Oriente do Brasil


SOLIDARIEDADE EMERGENCIAL

A construção de um templo maçônico e seus reais objetivos, como também galgar cada degrau da escada de Jacó, levam ou devem levar cada maçon a se despojar do acumulo de maldade, que pode estar impregnada em sua mente, em seu corpo e em seu coração, minimizando ou desamarrando qualquer ligadura, que comprometa sua concentração espiritual, que depende de um exercício constante que o eleve do plano material ao plano superior.

Como no fenômeno fênix, renascer de novo, nos remete a imortalidade. Imagine uma vida eterna para fazer o bem…ou para fazer o mal…ou mesmo para não fazer nenhuma das duas coisas. Se faz presente aí o  peso do livre arbítrio, que quando mal utilizado, recai sobre nossas cabeças, nos deixando muito a quem do exercício daquele juramento que fizemos quando iniciamos(Juro também ajudar e defender meus irmãos em tudo o que puder e for necessário,)… “E se violar esse juramento”…

Um dos mais importantes conceitos em que se baseia a maçonaria é a fraternidade, aí eu imagino, escrevo falo e publico que a linha dos domésticos da fé, é o modo que me parece mais justo, no entanto nem tão perfeito, à medida que, amar ao teu próximo como a ti mesmo, tem significado muito mais, amar quem está distante.

É claro que somos todos irmãos e filhos do GADU, somos cidadãos do mundo e sabemos que quem está distante, também precisa de nós, mas oferecer o banquete ao meu próximo que está próximo, aos olhos de quem ama, é como uma oferenda é uma dádiva, portanto gratuita, é o símbolo para o exercício do religare,é a nova ou renovada ligação do homem com Deus, e sendo o homem a imagem e semelhança de seu  criador ,podemos dizer que é o exercício real da ligação do homem com o homem, com o homem… livre e de bons costumes.

Isso sim é religião, que em  latim,le-se religare .Lembram-se,daquele cordão umbilical,ligando mãe e filho, que alimenta aquela nova vida?entre nós os homens de boa vontade,poderíamos dizer,recorrendo a uma linguagem figurativa que este cordão umbilical  é substituído, pela tolerância, pelo saber ouvir, por ser mais piedoso…por ser mais sábio e por via de consequência dedicar –se mais ao amor com sabedoria,a sabedoria,  com amor fraterno. É a pura filosofia, ingrediente de alta relevância para vencer as paixões e fazer progresso.

Notemos que a religião e a filosofia, em seu ângulo stricto senso, em seu sentido limitado, porem especializado, profundo, não é para os humildes mortais, estes que embelecidos pela paixão, no sentido de amor desequilibrado, se auto atropelam em suas emoções e em suas falas, coibindo o caminhar do óbvio, coibindo a prospecção, ou seja coibindo ou tentando coibir aquilo que esta sujeito de ser ou esta sujeito de acontecer. É ignorar a discussão pacifica, já que é a discussão que gera a luz e é essa luz que nos mostra o caminho, que nos levará ao entendimento divino, que como diz em Desiderata,“somos filhos do universo…”portanto, digo eu, fagulhas de seu grande arquiteto.

Logo somos filhos da luz e se somos maçons e buscamos no mundo profano homens de bem para iniciar em nossos mistérios, é elementar o raciocínio de que precisamos fortificar nossas colunas, (pelo amor e juramento) buscando acordar os adormecidos de fato e os adormecidos de direito, conhecendo melhor seu irmão como a ti mesmo, conhecendo sua família, seus valores, suas qualidades, suas dificuldades e suas limitações, disponibilizando-se, faz parte de seu juramento, e mais, nessa estrada, descobrirá valores inimagináveis, não só em seu irmão como em você mesmo, mas que estavam precisando ser adubados para frutificar.

Nessa ótica, de Família maçônica, de relação fraternal real, teríamos hoje, nossas lojas cheias de irmãos, que ontem eram nossos sobrinhos. Teríamos a fraternidade feminina, florida de cunhadas dispostas ao trabalho das causas sociais, como também seríamos inspirados  e motivados a prestigiar a ordem das filha de Jó,como  a Ordem Demolay.

Se quisermos entender que esse caminho e essa esperança é utopia, os convido a entender que a utopia é o ainda não e não o nunca será e da mesma forma que entendemos que o amor é um presente espiritual, precisamos entender que nossa ordem precisa fazer um maior exercício de solidariedade… de solidariedade…emergencial!.

Carlos Cezar Rocha, M.’.M.’.
Vitoria – ES, Grande Oriente do Brasil


HÁTHOR


Amor… Rutilante véu de estrelas que veste de luz o corpo de pérolas negras da noite da humanidade… Rosa de fogo, orvalhada por uma poesia em chamas, despontando nos jardins do horizonte, para almas vagantes inebriar com o perfume de um imortal Sol de felicidade… Cálice de sonhos e feitiços derramado sobre os corações dos Antigos Egípcios pela sensual Háthor, soberana de um éden de felicidade perene, em cujo esplendor brotava o cobiçado fruto do amor, nascia a maviosa nascente da música, em cujas águas vogava a sensualidade das danças, desabrochavam as orquídeas selvagens do erotismo e brincava a doce brisa da alegria. Sua alma, cosmos de amores constelados, renovava-se nos semblantes de todas as apaixonadas que devotadamente a inundavam de preces ardentes, na esperança de escravizarem o coração dos seus amados e, por conseguinte, alcançarem “a felicidade e um bom marido”.

Venerada em Dendera por nas suas mãos divinas florescer o amor, a bela deusa, filha de Rá, inúmeras vezes representada sob a forma de uma vaca, desempenhava, tal como sucedia a um rol imensurável de outros deuses, díspares papéis, em diferentes zonas do Egipto. Podemos afirmar que as suas origens remontam a uma época longínqua da história, já que a deusa consta do documento egípcio mais antigo conhecido até ao momento: a “Paleta de Narmer”, cuja leitura nos permite conhecer a unificação do Egipto por Narmer, primeiro faraó da I Dinastia, acontecimento que constitui a inauguração da instituição faraónica. Ambas as faces deste documentos estão ornadas com cabeças de vaca que, tal como referido anteriormente, simbolizam a deusa Háthor. No Delta, é associada ao céu, sustendo o disco- solar no seu toucado, enquanto, em Tebas, surgia como uma deusa da morte. Enquanto protectora da necrópole tebana, Háthor é representada como uma vaca emergindo de uma montanha escarpada que simboliza a falésia onde estão escavados os túmulos. Aqueles que se aproximavam da morte, suplicavam, assim, pela sua protecção, ao longo das suas viagens até ao além. 

Com efeito, tal como a maioria das divindades egípcias, Hátor sabia mostrar-se cruel e devastadora. Tomemos como exemplo uma das lendas, que procura explicar as mudanças de estação, na qual, após uma feroz discussão com o seu pai, Hátor refugia-se no desero, permitindo que as trevas invadissem a terra, uma vez que o Sol somente ocuparia o seu legítimo lugar, quando a deusa retornasse. A euforia rasga tão profundo pesar, quando, persuadida por seu pai, Hátor regressa, enfim, banindo a noite. Em torno desta personagem, tece-se ainda outra narrativa, notavelmente, violenta. Indignado por a humanidade lhe haver desobedecido, Rá toma a decisão de massacrá-la, enviando, para este fim, a sua filha, tornada num olho solar fulminante. Porém, ao contemplar a devastação que a sua filha causava, Rá compadece-se daqueles que lhe haviam desobedecido e toma a resolução de por fim a tão hediondo crime. Deste modo, convida a sua filha a sorver uma cerveja cor de sangue, que, além de a embriagar, lança-a num sono profundo. Ao despertar, a sua cólera insaciável havia-se desvanecido, pelo que os derradeiros sobreviventes da sua chacina permaneceram incólumes. 

Em Dendera, ergueu-se, no templo ptolomaico, um imponente templo em sua honra, que a deusa deixava, anualmente, para, após uma prolixa viagem através do Nilo (em que o seu temperamento bravio era suavizado por músicas e bebidas) consumar o seu divino casamento com o deus- falcão Hórus, que a aguardava em Edfu (cidade situada a cerca de cento e sessenta quilómetros a montante do Nilo). Esta diligência mítica, que mantinha Háthor afastada da sua morada durante cerca de três semanas, era celebrada pelos egípcios com um festival alegre e faustoso. Procurando reproduzir o trajecto executado pela deusa, a solene procissão seguia então pelo rio, rasgando com uma barca (“A Bela de Amor) onde, detentora de uma fastígio inigualável, uma estátua de Háthor se elevava. Concomitantemente, os sacerdotes de Edfu preparam o encontro dos esposos, que ocorrerá no exterior do santuário, mais exactamente numa exígua capela localizada a norte da cidade. Este encontro deveria suceder num momento preciso, ou seja, à oitava hora do dia da lua nova do décimo primeiro mês do ano. Quando por fim Háthor abençoa Edfu com a sua magnífica presença e perfuma aos lábios de seu esposo com o incenso de um beijo, iniciam-se então as festividades, no decorrer das quais a deusa é aclamada, saudada e inebriada com a música docemente tocada em sua honra. Não era pois Háthor a “Dourada”, a “Dama das Deusas”, “A Senhora” e “A Senhora da embriagues, da música e das danças”?

Seguidamente, os esposos separam-se e ocupam as suas barcas, para que o cortejo possa dirigir-se para o santuário principal, onde os sacerdotes puxam as embarcações para fora de água e instalam-nas no recinto. Uma vez mais acompanhada por seu marido, Háthor saúda então seu pai, o Sol, que ao lado de Hórus velava por Edfu, como referem os inúmeros textos encontrados: “ela vai ao encontro de seu pai Ré, que exulta ao vê-la, pois é o seu olho que está de volta”. Terminado este encontro, tão lendários esponsais são enfim celebrados, prometendo, entre sumptuosos festejos, os dois deuses a divinas núpcias de luz. No dia seguinte, dá-se início a uma faustosa festa, que se demora pelos catorze dias do quarto crescente, num período de tempo marcado por um rol quase inefável de ritos, sacrifícios, visitas a santuários, celebrações, solenidades, entre outros eventos. Um grande banquete, no fim do qual dá-se a separação de Háthor e Hórus consagra o fim das festividades.
Tal como salienta Plutarco, o escritor grego, na escrita hieroglífica o nome de Háthor lê-se Hut- Hor, isto é, “a morada de Hórus” ou “a habitação cósmica de Hórus”, sendo portanto flagrante que a deusa representa o espaço celeste no qual o Hórus solar se desloca. 

Denominada “Senhora do Sicômoro”, deusa das árvores, Hátor surge inúmeras vezes a amamentar os defuntos, especialmente, os faraós, mediante os longos ramos de um sicômoro. Háthor, como deusa benevolente, possuía a intensa devoção, não somente de nobres, mas também dos mais humildes, erigindo-se, deste modo, em seu redor um culto que se proliferou no Império Romano. Todavia, a crescente popularidade do culto, tecido em torno de Osíris e Ísis, levou a que este deidade passasse a deter algumas das funções de Háthor, acabando estas por fundir-se numa única divindade. 
Em matéria de iconografia, a sua representação mais interessante é aquela que lhe permite surgir como soberana dos quatro cantos do céu e senhora dos pontos cardeais. Os quatro semblantes que a representam simbolizam cada um deles um determinado aspecto da sua personalidade, ou seja, Háthor- leoa, sublime olho dos astro solar, que os inimigos de seu pai, Ré, aniquila sem hesitar; Háthor- vaca, poderosa soberana do amor e do renascimento; Háthor- cobra, incarnação da beleza e juventude; e, por fim, Háthor- gata, eterna protectora dos lares e, claro, ama real. 

Não lhes sendo possível distinguirem-se noutros planos profissionais, muitas mulheres tornavam-se sacerdotisas de Hátor (mais tarde designadas por “cantoras de Ámon”,) uma vez que as actividades musicais que desempenhavam permitiram-lhes investir-se de funções honrosas. Por seu turno, fora dos cortejos religiosos, as bailarinas de Háthor, ostentando somente uma tanga curta, arredondada na frente, entretinham os convidados de um banquete. 

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
O nome Háthor significa “ a casa de Hórus”.
Nebet- per- dona de casa.
Neferet- a bela;
Merout- amor;
Hensi irem- viver juntos
Sen- beijar / “respirar um odor” 
No Antigo Egipto, os apaixonados seduziam as mulheres amadas com epítetos plenos de doçura, alguns deles ainda empregues na sociedade contemporânea, como é o caso de “gazela”, gatinho”, “andorinha”, “pomba”, enquanto outros facilmente podem ser qualificados de impopulares e até perigosos para a integridade física do amante, como “meu hipopótamo”, “minha hiena” ou “minha rã”. 
Na realidade, o amor era representado discretamente pelos artesãos encarregados de enaltecer os túmulos egípcios com a sua arte, surgindo este sentimento sob a forma de um tímido gesto, em que a mulher rodeia os ombros do seu marido com o braço ou se apoia nas suas costas (o oposto jamais sucede). De facto, o perfume era um dos mais conhecidos símbolos do amor, o que sustenta a filosofia de que os egípcios abdicavam da vulgaridade de uma manifestação directa, em prole de uma doce e subtil sugestão, com frequência plena de sensualidade. 
O tecto da sala hipostila do templo de Háthor em Dendera enleva os seus visitantes com a visão de sublimes decorações contendo cenas de natureza astronómica, considerados por muitos como as mais originais jamais encontradas. Nele, o nosso olhar extasiado possui o privilégio de conhecer as horas do dia, da noite, os decanos, as regiões celestes, as décadas, os deuses dos pontos cardeais, as constelações, entre outros.
Ao observarmos o vão sul, somos maravilhados com uma cena, reproduzida não raras vezes em díspares pontos do santuário, que nos o corpo de Nut, a abóbada celeste, cujo corpo, banhado pelas ondas do oceano inferior, prolonga-se de uma extremidade à outra da sala. Os seus pés acariciam o este, enquanto que a sua cabeça repousa a oeste. Ao executar o seu trajecto cíclico, o deus solar incarna alternadamente os corpos diurnos e nocturnos de Nut, alumiando a terra de dia, enquanto, por oposição, de noite a lança nas trevas, desaparecendo, tragado pela deusa, para ir iluminar as regiões subterrâneas. Outra imagem oferece-nos, assim, a ressurreição do Sol , que os seus mil raios derrama sobre o templo de Dendera, personificado pela cabeça de vaca de Háthor, colocada sobre um edifício.
 

Verónica Freitas


MAÇONARIA NA CHINA

Maçonaria na China

O surgimento da Maçonaria na China é efeito do processo de interpenetração dos interesses das potências marítimas europeias que através das suas Companhias das Índias Orientais demandaram o país do Meio e o Japão à procura de mercadorias raras na Europa como a seda, o chá e a porcelana.

A primeira potência europeia a chegar à China foi Portugal, em 1515, através de iniciativa do navegador Jorge Álvares que a partir de Malaca realizou várias viagens ao Sul da China estabelecendo inúmeras feitorias na província de Cantão. Jorge Álvares terá participado em inúmeras incursões contra o sultão de Bintão vindo a estabelecer-se na ilha de Sanchoão junto a Tamang (Cantão), passando a ser considerado o feitor português da cidade. Narra a história que durante a segunda metade do século XVI os portugueses terão participado com quinhentos homens numa batalha marítima contra piratas que assolavam a costa do Sul da China, captando a confiança e agradecimento do mandarim de Cantão.

Em 1557, surge o estabelecimento de Macau, tornando-se o entreposto um porto florescente na rota comercial dominada pelos portugueses, de Goa e Malaca até ao Japão e à China. Praticamente até a meio do século XVII os portugueses detiveram o exclusivo do comércio com a China e o Japão, perdendo pouco a pouco o seu papel dominante para outras potências europeias, como a Holanda e já no século XIX (1842) para a Grã-Bretanha, por via das Guerras do Ópio.

O primeiro sinal de actividade maçónica na China surge na segunda metade do século XVIII quando um barco da Companhia das Índias Orientais, o “Prince Carl”, aportou a Macau para iniciar actividade mercantil entre os portos da China. Nele viajavam vários maçons que detinham uma carta-patente que os autorizava a realizar sessões maçónicas nos portos por onde aportassem. O facto da língua mercantil (da altura) nessa zona do mundo ser o português, a localização estratégica do enclave e os direitos de exclusividade de Portugal nas rotas de comércio da China, levou a que se estabelecessem laços de companheirismo entre esses maçons, oficiais da guarnição portuguesa e membros destacados da comunidade europeia e macaense.

Desse intercâmbio surgiu uma loja maçónica, com obreiros de várias nacionalidades e não integrada em qualquer Obediência que terá funcionado por alguns anos. Ao mesmo tempo, a partir de Macau mas também de outros pontos da Ásia do Sul, pastores protestantes demandaram o território chinês desenvolvendo significativa obra de evangelização junto dos gentios, com a aparente permissividade das autoridades imperiais chinesas. Entre eles encontrar-se-iam maçons. Segundo fontes sínicas, a partir de 1747 (dinastia Qing), levantaram colunas inúmeras lojas em território chinês em zonas de concessão europeias instaladas em portos chineses, ficando essas lojas na dependência das grandes lojas dos países de origem. São assinaladas lojas americanas, italianas, alemãs, francesas e inglesas a funcionar na China durante parte significativa dos séculos XVIII e XIX.

Vivendo com grande autonomia face à metrópole, os portugueses em Macau incentivaram o cruzamento de culturas, modos de vida, práticas religiosas e casamentos interraciais, sendo muito reduzido o número de senhoras portuguesas que vieram instalar-se em Macau. A maçonaria acompanhou este fluxo e várias lojas emergiram associando portugueses  e estrangeiros membros das profissões liberais, do clero, do exército, marinha e ainda comerciantes. A distância da metrópole (a um mês de viajem por barco) implicou que essas lojas funcionassem com grande autonomia e sem particular articulação com as obediências portuguesas que na sequência da explosão do movimento liberal se expandiam ou retraiam, consoante o pendor absolutista ou mais liberal do monarca que reinava em Portugal.

Na parte final do século XIX (1872) uma loja de nome “Luís Camões” ergueu colunas, ao que tudo indica, sob a tutela da Loja Lusitânea, criada em Londres por exilados liberais. Esta última foi reconhecida pela Grande Loja de Inglaterra. A criação da Loja Camões terá sido facilitada pelo reconhecimento do estatuto da presença portuguesa em Macau, por força do Tratado de 1862, enquanto poder soberano, passando o enclave a ser uma colónia de Portugal em termos idênticos a Goa, Damão, Diu ou Timor.
Contemporâneo deste eventos, Sun Yat-Sen (孫文/孫中山/孫逸仙), que seria mais tarde o primeiro Presidente da República Chinesa, desenvolveu uma relação privilegiada com os maçons de Macau. Segundo se relata, Sun terá sido iniciado numa loja americana, em Honolulu, vindo a residir em Hong Kong em 1887, onde se licenciou em medicina. Exerceu clínica em Macau no Hospital Kiang-Wu, abrindo uma farmácia sino-europeia com a ajuda de amigos portugueses, entre os quais personalidades de Macau referidas por várias fontes como Macons. Foi forçado a deixar Macau, indo para Cantão, onde participou na criação do partido republicano, que mais tarde se transformaria no Partido Kuomintang (中國國民黨).

Envolvido num motim de soldados chineses contra as autoridades imperiais, no fim da guerra sino-japonesa, viu-se obrigado a fugir para Macau onde foi acolhido por Francisco Fernandes, membro da Loja Camões. Dali fugiu para Londres, ficando detido na embaixada chinesa e sendo posteriormente libertado a exigência do governo britânico. Em Outubro de 1911, eclodiu o movimento revolucionário em Wuchang e a república foi proclamada a 3 de Novembro, tornando-se Sun Yat-Sen, seu primeiro Presidente, em 10 de Janeiro de 1912. O apreço pelos maçons portugueses encontram-se registado em cartas suas.

Uma segunda loja com a mesma designação “Luís de Camões” ergueu colunas em 1908 sob os auspícios da Loja “Pró Veritate” de Coimbra subordinada ao Grande Oriente Lusitano, integrando figuras proeminente do Conselho do Governo e do Leal Senado como Constâncio José da Silva, editor do jornal “A Verdade”, o capitão Rosa Duque, o poeta Camilo Pessanha e provavelmente o governador Carlos da Maia. Seguindo a orientação prevalecente na maçonaria portuguesa (de então), os maçons de Macau participarem na difusão dos ideais republicanos e laicos junto da comunidade expatriada, combatendo a influência dominante da Igreja Católica e as ordens religiosas no ensino, na cultura e nos círculos do poder.

Na sequência da revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, exigiriam a proclamação da república em Macau, a expulsão das ordens religiosas e a separação da Igreja e do Estado, exigências parcialmente satisfeitas pelo Governador Álvaro de Melo Machado. Vários maçons foram nos anos seguintes à proclamação da República eleitos como senadores e deputados em Portugal, em representação de Macau, entre eles Francisco Valdez e Francisco Anacleto da Silva.

Quase no fim da segunda metade do século XX foi fundada, em Xangai, em Março de 1949 a Grande Loja da China sob os auspícios da Grande Loja das Filipinas. Na sequência da proclamação da República Popular da China (1949) e com a auto-suspensão das actividades maçónicas (1951), as lojas localizadas no continente chinês dividiram-se. Parte delas transferiram-se para Hong Kong (associando-se no Zetland Hall), transformando-se em lojas distritais na dependência das três grandes lojas britânicas; outras mudaram-se para Taiwan, em 1954. Durante algum tempo, as lojas transferidas para Taiwan procuraram o reconhecimento da Grande Loja Unida de Inglaterra o que lhes foi recusado, entendendo a UGLE que as lojas se deveriam subordinar aos Distritos regionais de Hong Kong. Em sequência deste processo, as lojas localizadas em Taiwan foram reactivadas sob a chancela de Grande Loja da China de que seria Grão-Mestre o filho do Presidente de Taiwan, Chiang kai-Shek (蔣介石 蔣中正), o General Chiang. A Grande Loja da China encontra-se reconhecida pelas grandes potências maçónicas do mundo, designadamente a Grande Loja Unida de Inglaterra. A Grande Loja da China mantém actividade regular agregando cerca de onze lojas, com maçons de diversas nacionalidades, praticando os ritos de emulação e escocês antigo e aceite tanto em língua inglesa como em mandarim.

Hong Kong tem cerca de setenta lojas subordinadas à jurisdição das três grandes lojas britânicas apenas em língua inglesa, a Grande Loja Unida de Inglaterra, a Grande Loja da Irlanda e a Grande Loja da Escócia. Hong Kong é uma região administrativa especial da China usufruindo por cinquenta anos do sistema legal, do modo de viver e do conjunto de direitos, liberdades e garantias deixados pela administração colonial britânica.

Existem indicações de que a actividade maçónica foi reatada em Xangai em 2004 com maçons oriundos da Grande Loja da China (Taiwan) formando uma Loja circunscrita a expatriados. Existem informações que levantaram colunas na cidade de Pequim uma loja francesa e outra norte-americana, cuja filiação é desconhecida.

Em Macau, levantou colunas na década de 70 uma loja subordinada ao Grande Oriente Lusitano formada por membros da comunidade portuguesa expatriada e da comunidade macaense. Em Janeiro de 2007, levantou colunas um triângulo com o nome Luz do Oriente, subordinado à Loja Anderson da Grande Loja Legal de Portugal (GLRP), formada por maçons portugueses. Em 26 de Janeiro de 2011, o Triangulo transformou-se em Loja adoptando o nome e o registo ‘Loja Luz do Oriente n.º 80’ e praticando o Rito Escocês Antigo e Aceite. Encontra-se a levantar colunas, uma segunda Loja, sob jurisdição da Grande Loja Legal de Portugal, a funcionar no Rito de York e constituída por Macons de diferentes nacionalidades que vivem em Macau ou em zonas adjacentes da Republica Popular da China. Macau usufrui por cinquenta anos como região administrativa da China do sistema de direitos fundamentais e liberdade de associação deixada por Portugal em 1999.

Arnaldo M. A. G., Cav.’. Kad.’.
Conselho Kadosh Marquês de Pombal, Supremo Conselho dos Grandes Inspectores do Grau 33, Lisboa – Portugal